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Televisão estatal anuncia vitória do “sim” no referendo turco

CEM TURKEL/EPA

Estão contados mais de 90% dos votos. Oposição alega irregularidades eleitorais e vai contestar os resultados. Apoiantes de Erdogan já festejam a vitória

A televisão estatal anunciou a vitória do “sim” no referendo sobre as alterações constitucionais, com 51,38% dos votos, quando estão já contados 98% dos votos. O “não” terá obtido 48,62%.

De acordo com a agência Anadolu, o Presidente Recep Tayyip Erdogan chamou os seus aliados políticos do MHP (Partido de Ação Nacionalista) e do BBP (Partido da Grande União) para lhes dar os parabéns pela vitória: “Que este resultado seja promissor para a nossa nação”, ter-lhes-á dito o líder turco.

A oposição alegou irregularidades eleitorais e já anunciou que vai contestar os resultados, escreve a AFP.

O Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata e principal força da oposição) criticou a decisão da Comissão Eleitoral em aceitar como votos válidos os boletins que não possuíam o seu carimbo oficial.

O vice-presidente do CHP, Bulent Tezcan, considerou, em declarações aos media, que esta decisão implica que os resultados do referendo constitucional “vão enfrentar um sério problema de legitimidade”.

A Suprema Comissão Eleitoral anunciou esta decisão sem precedentes após muitos votantes terem referido que os boletins de votos que lhes foram fornecidos não possuíam o obrigatório carimbo oficial. A comissão considerou que os boletins de voto apenas podem ser considerados inválidos caso seja provado que foram introduzidos nas urnas de forma fraudulenta. Apesar dos protestos da oposição, os apoiantes do Presidente turco já começaram a festejar nas ruas a vitória do “sim”.

O referendo converteu-se num plebiscito pela identidade da nação e fraturou o país. Dos quatro partidos com representação parlamentar, dois apoiaram as alterações constitucionais (AKP e os ultranacionalistas do MHP), e dois fizeram campanha contra, os sociais-democratas do CHP e o HDP.

O Presidente Recep Tayyip Erdogan e o islamita Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), que fundou em 2001, consideram estas alterações essenciais para evitar negociações de coligação e governos frágeis, caso não existam maiorias absolutas, uma situação frequente na Turquia até à subida do seu partido ao poder, após as legislativas de novembro de 2002.

No entanto, a personalidade do chefe de Estado contribuiu para dividir o eleitorado, com o seu discurso inflamado a favor do islão como identidade da Turquia e contra o “ocidente”, em particular contra a União Europeia (UE), nos últimos meses remetida para inimigo da nação euroasiática.

Nenhuma das 18 emendas constitucionais aborda questões religiosas, mas parece óbvia a aposta de Erdogan em cimentar a religião como base da nação e destacar a presença do véu islâmico na vida pública como uma das suas grandes conquistas.

A grande afluência às urnas, tradicional na Turquia e que parece confirmada, deve-se ainda ao fervor em cumprir o “dever cidadão”. Nos seus discursos de campanha, Erdogan comparou as alterações referendadas com os objetivos impostos no passado por Mustafa Kemal Atatürk, o fundador em 1923 da moderada república laica, sobre os escombros do império otomano.

“Com esta alteração, o nosso povo vai decidir um salto no seu desenvolvimento. Temos de fazer uma eleição pouco usual para garantir o objetivo de Mustafa Kemal Atatürk de alcançar as civilizações contemporâneas”, assinalou em diversas ocasiões.

O voto dos curdos, cerca de 16% dos 80 milhões de habitantes, era uma das principais incógnitas do referendo e poderia fazer pender o resultado para o “sim” ou para o “não”. Diversos setores curdos conservadores apoiaram o AKP, mas a maioria tem-se reconhecido no Partido Democráticos dos Povos (HDP, terceira força política no parlamento), que apelou ao voto contra a revisão constitucional e denunciou uma campanha desigual, em particular um tempo de antena quase inexistente.

Os dois copresidentes do HDP, Selahattin Demirtas e Figen Yüksekdag, estão atualmente detidos, juntamente com numerosos deputados do partido, acusados de ligações ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização considerada “terrorista” pela Turquia e pelos seus aliados ocidentais.

O HDP afirma que são detenções puramente políticas, devido às suas críticas à revisão constitucional.