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O enigmático imperador do Kremlin

O Presidente Vladimir Putin reina no Kremlin como um verdadeiro czar. Aqui vemo-lo nas comemorações do “Dia dos Heróis da Pátria”

MICHAEL KLIMENTYEV/ / sputkik / afp

Um país cuja governação continua tão ininteligível para o Ocidente como no tempo da URSS. Como descodificá-lo? Um dos contributos para tal é o testemunho de José Milhazes, jornalista que lá viveu 40 anos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Estamos aqui!”. Foi isto que quiseram afirmar os milhares de pessoas que acorreram às manifestações que encheram as ruas principais de dezenas de cidades russas, de Vladivostok, no extremo leste, a Kaliningrado, no oeste, no passado dia 26 de março. Mesmo antes do ataque aéreo na Síria e da retaliação norte-americana, o protesto em Moscovo tomava a forma de um passeio. Isto porque “as manifestações são proibidas e ainda é proibido proibir passeios”, diz José Milhazes, jornalista português que viveu 40 anos na Rússia, a quem pedimos que falasse sobre o que é mais opaco na mentalidade e no método político da liderança russa. O jornalista acaba de publicar o livro “As Minhas Aventuras no País dos Sovietes — A União Soviética tal como eu a vivi” (Oficina do Livro) no qual descreve a URSS por dentro.

Este foi o maior protesto dos últimos cinco anos contra Vladimir Putin e Dmitri Medvedev convocado contra a corrupção. Do “passeio” pela artéria comercial da capital russa resultaram detenções, incluindo a do líder da oposição. Para abalar Aleksei Navalny, o poder fez-lhe acusações judiciais de fraude que lhe deixam escassas hipóteses práticas de vir a ser candidato às presidenciais de março de 2018. É também pouco apreciado por muitos dos manifestantes daquele domingo por causa dos “seus tiques nacionalistas”. E porque estiveram presentes pela primeira vez milhares de jovens — classe considerada “praticamente apolítica” —, começa a “ser importante a afirmação ‘estamos aqui!’”. É o que defende José Milhazes explicando que quem se opõe a Vladimir Putin ou é “eliminado fisicamente, ou está exilado”, ou é “neutralizado” por processos de fraude. Tal como Navalny.

A Rússia poderá mudar com um “catalisador” interno (as próximas presidenciais) ou externo (o prolongamento da guerra na Síria), diz o ex-correspondente, convicto de que Putin “queima todo o terreno à sua volta” e está disposto a muito para enfraquecer a Europa: “A televisão veicula o discurso de ódio ao outro, a ideia de que a Rússia é um castelo rodeado de inimigos por todos os lados. Faz-se propaganda contra os dirigentes ucranianos por serem fascistas, mas recebe-se a Marine Le Pen em Moscovo com pompa e circunstância. A cereja em cima do bolo seria Angela Merkel perder as eleições e a extrema-direita ter votação alta na Alemanha”.

Órgãos de informação em língua estrangeira patrocinados por russos fazem propaganda, diz Milhazes sublinhando que a Rússia “sabe utilizar a internet, ao contrário do Ocidente, que parece não ter aprendido” a fazê-lo. O total controlo dos media faz o resto do trabalho. Só os canais que emitem via internet e, por isso mesmo, com muito pouca difusão nacional, relatam outras versões. A TVrain é hoje o canal independente que sobra e foi o único que fez cobertura dos protestos de março. Fora isso, não houve uma palavra oficial sobre estes até às declarações de Putin durante o fórum internacional do Ártico, cinco dias mais tarde, no porto nórdico de Arcangel. O “New York Times” lembrou o “estilo soviético” a propósito do blackout virtual dos media estatais. Quando o Presidente finalmente falou, foi para ameaçar com o caos que pode resultar de manifestações “que não sejam contidas”. Deu o exemplo dos levantamentos da primavera árabe. “Quando a internet for dominante, o regime de Putin acaba”, afirma Milhazes.

Rússia? União Soviética? Rússia...

Separar a Rússia da ex-União Soviética não é tarefa fácil, reconhece José Milhazes, ainda que as transformações no país tenham sido “gigantescas”. “Há uma ligação”, a Rússia “é herdeira da URSS”. Não é, por isso, “nem numa nem em duas gerações” que se transforma “o tal homem soviético” de que fala a Prémio Nobel da Literatura de 2015, Svetlana Alexievich. “Em 75 anos os soviéticos não conseguiram completá-lo, mas o que ficou, ficou”.
“A maior parte das pessoas está disposta a renunciar a liberdades em prol da sua segurança”, diz o jornalista, referindo a violência com que Putin controlou os ataques terroristas e dominou o conflito na Tchetchénia nos anos 90. A par da distribuição dos lucros do petróleo e do gás (também) pelos pensionistas, ficou desenhado o apreço popular de que ainda hoje goza.
Putin não deixa créditos por mãos alheias, garante Milhazes: “Na Rússia, as questões resolvem-se a nível das elites. É uma civilização bizantina indiferente ao que se passa na rua”. É o mesmo que dizer que só as elites poderão “fazer o golpe palaciano” que possa afastar Vladimir Putin. Para tal, terão de perder mais privilégios do que admitem ser tolerável. Provavelmente só depois de 2025...