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Marcelo Odebrecht: “Estimo que três quartos das campanhas políticas no Brasil eram financiadas de forma ilegal”

reuters

Divulgado depoimento do ex-presidente da construtora brasileira Odebrecht Marcelo Odebrecht, que está preso desde 2015

O depoimento foi feito em março passado à justiça brasileira, mas apenas agora foi tornado público. "Esse era um problema que tínhamos em todo o Brasil, foi criado um círculo vicioso. Eu estimo que três quartos das campanhas no Brasil eram financiadas de forma ilegal", afirmou Marcelo Odebrecht num depoimento dado aos procuradores que investigam o caso “Lava Jato”.

O ex-presidente da construtora brasileira Odebrecht afirmou que a empresa até teria gostado que os pagamentos fossem oficiais e justificou os pagamentos ilegais para evitar que outros candidatos soubessem os montantes dados e pedissem mais dinheiro. Marcelo Odebrecht está preso desde 2015, e foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por desvios milionários na petrolífera estatal Petrobras.

O empresário deu como exemplo donativos de dois milhões de reais (cerca de 599 mil euros à taxa de câmbio atual) a um candidato a governador do estado de Acre, Tiao Viana, do Partido dos Trabalhadores. Desse dinheiro, apenas 500.000 reais (149 mil euros) foram declarados. "Se sabem que damos dois milhões de reais a uma candidatura a governador de Acre, imaginem a expectativa que se cria para o [candidato a] governador de São Paulo", explicou.

Os depoimentos de altos quadros da Odebrecht, a maior construtora do Brasil, que fizeram acordos com o Ministério Público Federal de “delação premiada” (redução da pena em troca de colaboração com a Justiça), têm deixado o país em suspenso das revelações que a cada dia são conhecidas, e que indicam novos casos de corrupção que envolvem políticos de renome.

A divulgação dos depoimentos, que estavam sob o segredo de justiça, acontece um dia depois de o Supremo Tribunal ter anunciado que autoriza a abertura de 76 investigações contra quase todos os políticos citados, com vista a investigar crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Entre os investigados estão oito ministros do Executivo do presidente Michel Temer e quase cem deputados de mais de dez partidos políticos. Na lista de suspeitos estão ainda 12 dos 17 governadores do país, entre os quais Tiao Viana e os cinco ex-presidentes brasileiros vivos: José Sarney (1985-1990), Fernando Collor de Mello (1990-1992), Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016).

Segundo contas da justiça brasileira, feitas a partir dos testemunhos de antigos altos quadros da construtora e de Emilio Odebrecht, patriarca da família, só esta empresa distribuiu subornos próximos de 135 milhões de euros (450 milhões de reais).

As declarações dos ex-gestores da Odebrecht surgem no âmbito da operação "Lava Jato", que investiga crimes de corrupção no Brasil. Tida por muitos investigadores como a maior operação de combate à corrupção da história do Brasil, a "Lava Jato" investigava, inicialmente, a atuação de 'doleiros' (pessoas que vendem dólares no mercado paralelo), mas, posteriormente passou a investigar também suspeitas de corrupção na petrolífera estatal Petrobras.

A investigação completou três anos a17 de março, tendo já recuperado cerca de 10,1 mil milhões de reais (três mil milhões de euros) e efetuadas 198 detenções, segundo a imprensa brasileira, a partir de dados fornecidos pelo Ministério Público Federal (MPF).Além daquele valor, encontram-se bloqueados, por determinação judicial, mais de 3,2 mil milhões de reais (955 milhões de euros) em bens de pessoas investigadas. O Ministério Público Federal pediu desde o início das investigações a devolução aos cofres públicos de 38,1 mil milhões de reais (11,3 mil milhões de euros).

Atualmente, 23 pessoas permanecem presas, entre as quais estão o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e o ex-ministro da Fazenda (Finanças) e da Casa Civil, Antônio Palocci. Outras 24 pessoas deixaram a prisão, mas continuam a ser mantidas sob vigilância através de pulseira eletrónica e prisão domiciliária.