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Lobos de uma alcateia virtual

JONATHAN NACKSTRAND/GETTY

O Daesh recruta criminosos e frustrados por chat e ensina-os a matar com camiões

TIago Carrasco

Que relação entre o ataque de há oito dias com um camião em Estocolmo, o suicida de São Petersburgo (3 de abril), o assassino de Westminster (22 de março) ou as bombas contra o autocarro do Borussia Dortmund (11 de abril)

Parecem obra de solitários, ainda que no caso russo o uso de explosivos pressuponha algum grau de organização e que no caso do Borussia uma reivindicação supostamente islâmica esteja num alemão tão perfeito que a própria polícia desconfia. Agentes do Daesh? Alucinados?

Em julho de 2016, Riaz Khan, de 17 anos, refugiado afegão, atacou com um machado num comboio, na Baviera, acabando abatido. Semanas depois, a imprensa alemã publicava mensagens trocadas entre Riaz e um desconhecido, encontradas numa aplicação de chat do telemóvel:

— “Irmão, como planeias atacar?”.

— “A minha faca e o meu machado estão prontos”.

— “Irmão, não seria melhor um carro?”.

— “Não tenho carta, não sei conduzir e aprender leva tempo”.

A pedido do interlocutor, na Arábia Saudita, Riaz filmou um vídeo dedicado ao Daesh, posteriormente publicado.

O assassino de Londres, Khalid Masood, trocou mensagens de Whatsapp, ainda por descodificar, minutos antes de atacar na ponte de Westminster. “Pretensos ‘lobos solitários’ foram guiados pela internet, a partir de regiões controladas pelo Daesh, por recrutadores, diz ao Expresso Nathaniel Barr, investigador de terrorismo na Valens Global. “Orientam-nos desde a radicalização até um ataque específico”.

Após a proclamação do ‘califado’, em 2014, o Daesh apelou à vinda de simpatizantes da Jihad. Um ano depois, os ataques ao “Charlie Hebdo”, ao Bataclan ou ao aeroporto de Bruxelas partiam de retornados da guerra síria na Europa. Desde meados de 2016 a maior vigilância sobre as viagens de e para a Síria e o recuo territorial do Daesh neste país e no Iraque impuseram nova tática: encorajar simpatizantes a atacar na Europa, mesmo com meios rudimentares, embora por vezes mortíferos como o camião de Nice (14 de julho de 2016).

“A mais pequena ação no Ocidente é mais preciosa para nós do que a ação mais grandiosa feita aqui, além de mais eficiente e destruidora”, lê-se na revista “On Line Rumiyah” (Roma), órgão de propaganda do Daesh.

Antes chamava-se “Dabiq”, nome da vila síria cenário do Armagedão muçulmano. Como a 16 de outubro do ano passado os rebeldes sírios apoiados pela Turquia conquistaram a localidade (surpreendentemente defendida com pouca convicção pelo Daesh), a revista mudou de nome, para aludir à conquista de Roma, símbolo dos “cruzados”. O número de novembro de 2016, inclui um manual de contornos sádicos, cujos pormenores obviamente omitimos, sobre como massacrar multidões com veículos pesados e como escolhê-los. “Estes artigos não são suficientes para inspirar ataques. Funcionam como propulsores, mas os contextos sociais e os contactos posteriores dos candidatos a terroristas é que os conduzem à ação”, diz Barr.

Com fundos limitados e menor capacidade de recrutar estrangeiros, os “lobos solitários” tornaram-se uma forma barata de capitalizar pequenos triunfos. Mesmo que, no limite, se trate da obra de psicopatas que nunca ouviram falar do Daesh, mas cujos feitos a máquina de lavagem ao cérebro não deixará de reivindicar.

Como explicou o sociólogo Olivier Roy no diário francês “Le Monde”, desde Nice, os autores dos atentados são quase sempre mais novos, menos profissionais e com perfis de criminalidade comum, toxicodependência ou problemas mentais. O que não os torna menos cruéis mas limita a sua capacidade de causar vítimas.


Lahouaiej Bouhlel, que ceifou 84 vidas em Nice, sofria de distúrbios psiquiátricos e Ziyed Ben Belgacem, que a 18 de março atacou militares em Orly, tinha antes bebido e usado drogas. Roy, fala, de resto, num “jiadismo dos falhados”. Barr corrobora: “Há uma estratégia de recrutamento de indivíduos com passado de delinquência e problemas psicológicos, por serem mais vulneráveis”.

Teleguiados ou não, os atentados recentes primam pelo amadorismo: em Paris, um dos atacantes persuadidos a atacar pelo chat do Telegram, disparou acidentalmente sobre a própria perna e um bombista em Ansbach, na Alemanha, fez-se explodir antes do tempo provocando apenas a sua própria morte. “Os grupos terroristas recorrem geralmente a ‘lobos solitários’ quando são demasiado fracos para organizar atentados em larga escala”, diz Daniel Byman, investigador do Center for Middle East Policy.

Se as oito detenções levadas a cabo pela polícia russa sugerem ligações de Akbarzhon Jalilov, executante do atentado em São Petersburgo, a uma célula terrorista, continua a não se saber se Khalid Masood, em Londres, e Rakhmat Akilov, em Estocolmo, atuaram sós. As investigações talvez deslindem se estes “lobos solitários” foram inspirados à distância mas, no mínimo, fazem parte de uma alcateia virtual.