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Internacional

Formosa cada vez mais isolada

Em África só o Burkina Faso e a Suazilândia mantêm embaixada em Taiwan. O último a aproximar-se de Pequim foi São Tomé

António Caeiro

Uma semana após o encontro entre Trump e Xi Jinping acentua-se o isolamento internacional de Taiwan. Pela primeira vez em mais de duas décadas, o primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, iniciou esta semana uma visita oficial à China, consolidando o recente restabelecimento das relações diplomáticas.

“A China compreende as questões do desenvolvimento e sabe que a construção de uma casa começa pelos alicerces e não pelo telhado”, disse o governante são-tomense à agência noticiosa oficial chinesa Xinhua. “Este saber chinês é uma vantagem para África”.

Trovoada viaja com dois ministros: Urbino Botelho (Negócios Estrangeiros) e Américo Ramos (Finanças, Comércio e Economia Azul). “Estabeleceremos um plano para desenvolver as relações bilaterais e a cooperação ”, disse a porta-voz do MNE chinês, Hua Chunying.

Peritos chineses deslocaram-se no início do ano ao arquipélago para estudar programas de “assistência técnica” e, segundo a Xinhua, já há “resultados visíveis” na agricultura, saúde, energia e educação. “O desenvolvimento de São Tomé e Príncipe tinha de passar pelo reatar das relações económicas, políticas, culturais e diplomáticas com a China”, defendeu Trovoada numa entrevista à “Macao Magazine”.

De 1997 até dezembro passado, São Tomé e Príncipe manteve relações oficiais com Taiwan, a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês (depois de os comunistas tomarem o poder há quase 67 anos) e que Pequim considera uma província chinesa. Era o único país de língua portuguesa sem relações diplomáticas com a China. Agora, em África só o Burkina Faso e a Suazilândia têm Embaixada em Taiwan e em todo o mundo, há apenas vinte. Nem sempre foi assim. Na década de 90, Senegal, Chade, Guiné-Bissau ou Libéria trocaram Pequim por Taiwan, que era então um dos “tigres asiáticos”, com uma pujante indústria e cofres cheios. A própria África do Sul só em 1998 reconheceu Pequim como “o único legítimo representante do povo chinês”. A China, entretanto, tornou-se a segunda economia mundial e o maior parceiro comercial do continente africano, ultrapassando UE e EUA.

A viagem parece um regresso ao passado. “A China sempre nos apoiou quando África estava colonizada e ajudou a libertar-nos”, realçou Patrice Trovoada. Em dezembro de 1975, seis meses após a independência o primeiro Presidente do arquipélago, Manuel Pinto da Costa, encontrou-se em Pequim com Mao. Foi um dos últimos estadistas ocidentais a avistar-se com o fundador da República Popular da China — o “grande líder”, como escreveu na altura o jornal “Revolução”, órgão do Ministério são-tomense da Informação.