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Bombardear não custa. Ter estratégia para a Síria sim

Encontro de diplomatas ao mais alto nível: Sergei Lavrov (Rússia) e Rex Tillerson (EUA) em Moscovo, quarta-feira 

Sergei Karpukhin/REUTERS

Depois dos mísseis dos EUA contra a base síria quem é o inimigo principal? Assad ou Daesh?

Menos de 40% dos americanos apoiam o Presidente, mas, perante novo ataque, a maioria aplaudi-lo-ia. Trump pode ordenar novas retaliações, “caso sejam usadas armas químicas contra inocentes”, assegurou ao Expresso a assessoria de imprensa da Casa Branca.

Uma semana depois do bombardeamento de Shayrat, a base governamental síria de onde terá partido o ataque químico à cidade rebelde de Khan Shaykhun (90 mortos, 500 feridos), peritos militares e dos serviços secretos interpretaram a operação como a ponta de um icebergue. “A missão americana é global e não se esgota na Síria. Se me pergunta qual será o próximo passo, respondo: o futuro é agora”, afirma o general David Barno, apontando para os vários cenários de conflito onde a resposta americana se tornou “mais enérgica com a nova Administração”.

Na Somália, as forças americanas aumentaram a pressão sobre a milícia Al-Shabaab (pró-Al-Qaeda), após Trump ter assinado um decreto que alarga o auxílio militar às autoridades somalis.

O secretário da Defesa, James Mattis, reforçou a contrainsurreição no Afeganistão, alarmado por Moscovo ter estreitado ligações com os talibã, que continuam a atacar forças afegãs e da NATO. Segundo Barno, “o regresso da Rússia ao Afeganistão visa conter o Daesh na Ásia Central mas também desafiar os EUA, quando a Administração Trump não apresenta um plano para acabar com esta guerra”.

O coronel Peter Mansour, ex-adjunto de David Petraeus, no Iraque em 2007/08, refere que as regras de combate aéreo ao terrorismo “são mais flexíveis”, com mais baixas civis. Elissa Smith, porta-voz do Pentágono, esclarece que esse aumento, em particular na Síria e no Iraque, “se relaciona com uma fase mais intensa da guerra”.

Washington também demonstrou esta semana impaciência perante a ameaça nuclear norte-coreana, enviando para o Extremo Oriente o porta-aviões “Carl Vinson” e três contratorpedeiros com mísseis de cruzeiro Tomahawk, como os usados na Síria.

“É o pior momento das relações com a Rússia desde a guerra fria. Qualquer passo em falso pode ter resultados imprevisíveis”, diz ao Expresso John Herbst, ex-embaixador americano na Ucrânia.

Quarta-feira, à chegada do secretário de Estado americano, Rex Tillerson, a Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, deixou de imediato um aviso: “É vital impedir novos ataques.”

Responsabilidades russas

O chefe da diplomacia americana é um velho conhecido do Kremlin. Há quatro anos foi condecorado por Putin, com quem, enquanto líder da Exxon Mobil, fechou avultados negócios. Não deixou de frisar que “o inimigo principal na Síria continua a ser o Daesh”.

Para Mansour há um “aspeto alarmante” na disputa entre Moscovo e Washington: armas proibidas. “O ataque americano visava deixar claro que o uso de gás não será tolerado. Aparentemente, o regime sírio tem usado armas químicas contra civis o que viola o tal acordo entre Obama e Putin, baseado na promessa de que Moscovo destruiria aquele arsenal”.

O general David Barno concorda. “Estas armas estão em território sírio e têm sido usadas com o conhecimento do Kremlin, que, ao que me dizem, após o ataque americano terá ordenado a destruição do arsenal químico da base, para destruir pistas sobre a chacina de Khan Shaykhun”.

Michael Baker, antigo chefe operacional da CIA no Médio Oriente, questiona os resultados da operação. “Houve sucesso operacional porque os mísseis atingiram o alvo e os aliados nos apoiaram. Estrategicamente não tanto porque a Rússia deixou de atacar posições do Daesh em jeito de represália. Ora, se este é o inimigo, onde está o sucesso?”

Philip Mudd, ex-especialista de contraterrorismo da secreta americana, é ainda mais contundente. “Trump viu umas fotos horríveis e como antiga estrela de reality show deixou-se levar pelo poder da imagem. Os diplomatas que inventem uma narrativa de cobertura.” Exaltado, lança duas achas para a fogueira: “Acreditam que Trump quis responder aos russos que o ajudaram a ser eleito? Está lá o mesmo ditador que matou centenas de milhares de pessoas, usa armas químicas desde 2013 e é aliado da Rússia. Nada mudou!”

Mudd alude às suspeitas de que o Kremlin orquestrou, conjuntamente com a campanha republicana, a manipulação das eleições de novembro. Isso levou o FBI a abrir uma investigação em julho, que ainda decorre e agita o Congresso, ao ponto de o presidente do comité que investiga o caso, o republicano e luso-descendente, Devin Nunes, se ter afastado do cargo, depois de ter sido acusado de ser demasiado próximo da Casa Branca.

Na mesma altura o diário “The Washington Post” revelava que Erick Prince, antigo dono da firma de segurança privada Blackwater (com conhecido e sinistro currículo no Iraque e Afeganistão), se reuniu com membros do Kremlin para preparar um canal de comunicação alternativo (back channel) entre Trump e Putin, à prova (pelo menos teoricamente falando) de escutas do FBI ou da CIA.

Tal como Mudd, Daniel Franklin, professor de Ciência Política na Universidade da Georgia, alerta para “o perigo de reagirmos a quente ao ataque na Síria e acharmos que tudo mudou. Internamente, a investigação à interferência russa continua. Externamente, não me parece que os EUA queiram prejudicar os interesses de Moscovo na Síria”.