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Trump e populismo ameaçam a ‘primavera’

A diretora do FMI, Christine Lagarde

FRANCOIS LENOIR/RETUERS

Christine Lagarde antecipou esta semana em Bruxelas os riscos imediatos que atrapalham a retoma económica

A economia mundial já entrou na “primavera” depois de “seis anos com um crescimento económico dececionante”, disse, esta semana, Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), numa conferência em Bruxelas. Essa é “a boa notícia”, frisou, para logo a seguir apontar os riscos imediatos e as tendências negativas que podem colocar em causa a retoma em curso.
Falando no think tank belga Bruegel, a advogada francesa antecipou a tripla mensagem que aquele organismo internacional vai transmitir na assembleia geral da primavera que se realiza no final da próxima semana: é preciso apoiar o crescimento, dando atenção ao abrandamento da produtividade particularmente nas economias desenvolvidas; é necessário distribuir os benefícios da globalização e da revolução tecnológica de um modo mais equitativo; e é indispensável cooperar internacionalmente, continuando a apostar num “enquadramento multilateral que tem servido bem o mundo”.
A questão da cooperação internacional mereceu-lhe uma ênfase especial. Lagarde recordou que foi a cooperação — nomeadamente entre os principais bancos centrais e através de orientações comuns conseguidas nas cimeiras de líderes do G20 desde novembro de 2008 — que impediu a transformação do colapso financeiro global de 2008 e da Grande Recessão de 2009 numa Grande Depressão prolongada (como nos anos 1930). “Estamos todos sentados no mesmo barco, em sentido figurado”, disse, repetindo, depois, um aviso que já fizera no início do ano após a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e face ao ascenso dos populismos na Europa: “Temos de evitar erros de política, ou, como eu já os descrevi, ferimentos autoinfligidos”.
Nessas autopunições, Lagarde chama a atenção para os riscos do unilateralismo, minando a cooperação internacional, razão de ser do próprio FMI. O protecionismo, defendido na retórica eleitoral de Trump ou pelos movimentos populistas na Europa, associa-se à “incerteza política”, sobretudo derivada do calendário eleitoral em economias chave da zona euro. São riscos imediatos que podem colocar em causa a “primavera” económica mundial.
Motores na Ásia
A diretora-geral não antecipou em Bruxelas as projeções que o World Economic Outlook do FMI irá apresentar na próxima semana para o crescimento mundial. Em janeiro, quando o FMI atualizou as previsões do outono anterior, apontou para uma taxa de crescimento em trajetória ascendente neste quinquénio, com uma aceleração em 2017 para 3,4% e atingindo 3,8% em 2021.
A francesa recordou quem é o motor desta “primavera”: as economias emergentes e em desenvolvimento “vão continuar a contribuir mais de 3/4 do crescimento global em 2017”. Olhando para os dados do último trimestre de 2016, Índia, China e Indonésia lideram no crescimento. A própria exuberância bolsista coloca em destaque a valorização do índice para o conjunto das economias emergentes desde início do ano.
Jorge Nascimento Rodrigues
economia@expresso.impresa.pt