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Internacional

Após três meses de férias tropicais, Obama vai regressar a Berlim

Win McNamee/Getty Images

O evento é um debate sobre democracia e a ocasião são os 500 anos da Reforma

Luís M. Faria

Jornalista

Foram longas, as férias de Obama, e tudo indica que muito boas, mas devem estar prestes a terminar. No próximo mês, o ex-Presidente americano desloca-se a Berlim para participar num debate sobre democracia e envolvimento cívico integrado nas comemorações dos 500 anos da Reforma protestante. Promovido em conjunto pela Fundação Obama e por uma organização evangélica alemã, o evento volta a reunir Obama com a chanceler Ângela Merkel, a quem ele descreveu como a sua aliada mais próxima nos últimos anos.

Até agora, eram de outro tipo as imagens que apareceram de Obama. Após as eleições, ele tinha prometido dedicar-se à causa da participação eleitoral, mas logo que saiu da Casa Branca, ainda em janeiro, foi passar algum tempo a Necker Island, a uma luxuosa ilha privada que o bilionário Richard Branson tem nas Caraíbas. Nesse paraíso, onde uma simples noite pode custar milhares de dólares a um comum mortal (que tenha meios para isso), Obama praticou desportos aquáticos e fez-se fotografar com um enorme sorriso aberto. Como isso coincidiu com a fase em que Donald Trump estava a começar a lançar a confusão à sua volta, nomeadamente com a sua famosa ordem executiva que proibia gente de meia dúzia de países de viajar para os EUA, houve quem estranhasse a atitude positiva do ex-presidente. Que sabia ele que o resto das pessoas não sabiam?

Muitas coisas, certamente, mas nada que o impedisse de continuar as férias. Além das Caraíbas, Obama esteve no Hawaii - onde terá decidido escrever o grosso das suas memórias, pelas quais lhe vão pagar sessenta milhões de dólares. Daí seguiu para a Polinésia Francesa, mais precisamente para Titearoa, o arquipélago que foi propriedade do ator Marlon Brando e hoje é frequentado por outras estrelas de Hollywood e da música. Obama chegou lá a 15 de março e ficou um mês inteiro, com a sua esposa Michelle a fazer-lhe companhia na última semana.

Uma relação que azedou

Enquanto ele se divertia, Trump acusava-o de malfeitorias diversas, incluindo espionagem (escutas na Trump Tower), boicote (funcionários públicos ainda fiéis estariam a impedir a aplicação das ordens executivas de Trump) e em geral de ser a causa de quaisquer problemas que o novo Presidente enfrentasse. Seja a propósito das crises do Médio Oriente, da ameaça nuclear da Coreia do Norte ou dos índices de desemprego, Trump culpa repetidamente a “terrível” situação que o seu antecessor lhe deixou. A ponto que já houve comentadores a lembrar-lhe que agora o Presidente é ele.

Quando os dois conversaram pela primeira vez, na visita inicial de Trump à Casa Branca após vencer as eleições, ele elogiou o então ainda Presidente e disse que esperava poder vir a consultá-lo com frequência. Mas esse espírito de concórdia rapidamente desapareceu. As revelações sobre a intervenção da Rússia na campanha - resultantes de uma investigação ordenada por Obama. somada aos múltiplos reveses que atingiram Trump - azedaram a relação. Desde que tomou posse, Trump não terá falado com Obama uma única vez.

Pela sua parte, Obama tem-se mantido extremamente económico nas suas intervenções públicas. Refletindo, por um lado, a tradição de os ex-Presidentes americanos evitarem cortar a ação dos seus sucessores, e por outro, o desejo de não gastar a autoridade pessoal que adquiriu no cargo com comentários constantes. Mesmo quando Trump atacou diretamente o legado de Obama, tentando revogar a sua lei do sistema de saúde e enfraquecendo as suas regulamentações ambientais, por exemplo, Obama evitou reagir de forma demasiado pública. No caso do Obamacare, limitou-se a uns avisos discretos sobre os efeitos dramáticos que pode ter para muitos cidadãos a pressa excessiva em cumprir a promessa de destruir a lei apenas para cumprir uma promessa eleitoral, sem ter pensado bem no que irá substitui-la.

Sátira antecipa realidade

Na relação com Merkel, as afinidades são claramente maiores para Obama. Embora ela não lhe tenha permitido falar em frente à Porta de Brandenburgo quando era candidato em 2008 (consta que não apreciava muito “as atmosferas à volta do fenómeno Obama”, segundo um e-mail diplomático enviado a Hillary Clinton), os dois acabaram por estabelecer um entendimento bastante bom, se não mesmo caloroso. Em 2011, Merkel visitou Washington e recebeu a Medalha da Liberdade e em 2013 Obama retribuiu indo a Berlim.

Meses depois, soube-se que os EUA andavam a escutar o telefone de Merkel e a relação voltou outra vez a esfriar, pelo menos aparentemente. Na verdade, Merkel não é ingénua ao ponto de ignorar que essas coisas acontecem, e que os seus próprios serviços secretos as fazem. Indignações públicas à parte, os dois repetiram as expressões de estima um pelo outro. Obama disse que Merkel estava “do lado certo” da história em assuntos como a crise dos refugiados, elogiou o seu sentido de humor e a sua fiabilidade.

Quanto a Merkel, o seu apreço por Obama chegou a ser caricaturado no programa satírico Saturday Night Live. Há semanas, o SNL pôs 'Trump' (o ator Alec Baldwin) a telefonar-lhe. 'Merkel' vê o número e pensa no seu antecessor: “És tu, meu querido Barack?”. Quando 'Trump' diz quem é, ela fica contrariada e procura desligar o mais cedo possível.

Semanas depois, a verdadeira Merkel visitou a Casa Branca e viu Trump criticá-la pela sua abertura aos refugiados, além de recusar apertar-lhe a mão. A sátira, mais uma vez, antecipou a realidade. E agora uma realidade anterior, mais simpática, regressa a Berlim. Nesse dia, Trump estará em Bruxelas numa reunião da NATO, a organização que considerou “obsoleta” durante a sua campanha.