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Internacional

Cerco a Beslan. Rússia acusada de “não impedir" massacre em escola que fez 331 mortos

KAZBEK BASAYEV

Tribunal Europeu de Direitos Humanos diz que Moscovo “tinha informações específicas suficientes sobre um ataque a ser planeado” pelos chechenos na região e acusa as autoridades russas de nada fazerem para o impedir. Do total de mortos no massacre de 2004, 186 eram crianças

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos ditou esta quinta-feira que a Rússia falhou em impedir o cerco a uma escola de Beslan em 2004, que culminou no massacre de 331 pessoas, entre elas 186 crianças.

A operação russa com artilharia pesada para pôr fim ao cerco, depois de rebeldes chechenos terem feito mais de 1200 reféns numa escola da cidade da Ossétia do Norte, é duramente criticada pela instância judicial, que também condena a investigação aberta pelas autoridades russas no rescaldo do ataque.

Os sobreviventes do massacre acusam as forças russas de usarem força excessiva dentro do recinto escolar. Até hoje, ninguém foi oficialmente responsabilizado pela chacina.

O que aconteceu em Beslan?

A 1 de setembro de 2004, homens e mulheres de caras tapadas e explosivos nas cinturas invadiram a escola de Beslan e abriram fogo contra professores, alunos e auxiliares de educação que estavam reunidos no pátio para dar início ao ano escolar.

As mais de 1200 pessoas que ali estavam foram feitas reféns e colocadas no ginásio, onde os rebeldes chechenos instalaram explosivos pendurados nas cestas de basquetebol. O grupo exigia às tropas russas que batessem em retirada da Chechénia.

O tenso cerco acabou subitamente quando, ao terceiro dia, duas explosões e uma intensa troca de tiros culminaram na morte de 331 dos reféns. Testemunhas dizem que a operação das forças de segurança russas foi caótica e que as tropas usaram força excessiva e artilharia pesada num cenário de elevada vulnerabilidade. Apenas um dos rebeldes que liderou o cerco foi capturado vivo e levado a tribunal.

Há mais de uma década que os sobreviventes e os familiares das vítimas pedem uma investigação ao que aconteceu; questionam se o cerco podia ter sido evitado e se era necessário que tanta gente morresse no que seria, à partida, uma operação de resgate. Muitos acusam as autoridades russas, incluindo o atual Presidente, Vladimir Putin, de má gestão da crise de reféns, alimentando há muito as suspeitas de que as autoridades russas sabiam que o ataque estava a ser preparado.

Uma investigação aberta por Moscovo há alguns anos nunca chegou a ser concluída. Desde 2004, mais de 400 pessoas ligadas ao massacre interpuseram processos no Tribunal Europeu de Direitos Humanos para exigirem que seja feita justiça.

O tribunal com sede em Estrasburgo está sob a supervisão do Conselho da Europa, um organismo de defesa dos Direitos Humanos independente da União Europeia que conta com a Rússia entre os seus membros.

Na sentença apresentada esta quinta-feira, a instância judicial diz que a Rússia tinha informações suficientes para saber que um ataque estava iminente em Beslan e que, apesar disso, nada fez para o travar. O tribunal refere ainda que o uso de "armas poderosas como canhões de tanques, lançadores de granadas e lançadores de chamas" pelas forças russas contribuiu para o elevado número de mortos.