Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Governos estrangeiros “podem ter interferido” no referendo ao Brexit

Os eleitores que já se registaram estão desde maio a receber o boletim de voto para o referendo de 23 de junho

ODD ANDERSEN

Deputados britânicos dizem-se preocupados com potencial manipulação do site de registo para a consulta popular, que colapsou a um dia de o prazo terminar

Governos estrangeiros como o da Rússia e o da China podem ter estado envolvidos no colpaso do website criado para que os britânicos pudessem registar-se para votar no referendo de junho do ano passado, no qual uma maioria qualificada dos cidadãos do Reino Unido votou a favor da saída da União Europeia.

A alegação é feita num relatório da Comissão de Assuntos Constitucionais e Administração Pública da Câmara dos Comuns (PACAC, na sigla inglesa), hoje divulgado pelo "The Guardian", em que deputados de vários partidos britânicos dizem-se preocupados com as alegações de interferência estrangeira na votação ao Brexit.

No relatório, a comissão não identifica quem pode ter estado por trás da manipulação do site, mas sublinha que tanto a Rússia como a China costumam recorrer a uma estratégia de ciberataques com base em conhecimentos de psicologia de massas e de como explorar as vontades e desejos dos indivíduos.

As alegações vêm juntar-se às acusações de ingerência russa nas eleições presidenciais norte-americanas, disputadas a 8 de novembro, e às suspeitas de que Moscovo pode estar a tentar influenciar os resultados das presidenciais francesas, marcadas para 23 de abril e 7 de maio deste ano.

No ano passado, os ministros britânicos foram forçados a aprovar legislação para alargar o prazo de registo para a votação do Brexit após o site governamental criado para esse efeito ter colapsado apenas 100 minutos antes de o período de pré-registo terminar a 7 de junho.

O facto de o site não estar a funcionar na reta final de registo alimentou os receios de que milhares de eleitores não pudessem votar na consulta, com o governo de David Cameron a declarar na altura que o colapso da morada cibernética se deveu ao aumento sem precedentes de procura, com mais de 500 mil pessoas a tentarem registar-se para votar no último dia.

No relatório da PACAC, os deputados britânicos revelam esta quarta-feira a existência de indícios de recurso a um ataque de negação de serviço distribuído (DDOS) através de botnets, uma rede de computadores infetados com software malicioso. "O colapso [do site] indica um 'ataque' DDOS. Sabemos que isto é muito comum e fácil de fazer recorrendo a botnets. Os principais indícios são o timing e a taxa de volume relativo" de pessoas que tentaram aceder ao site.

Embora este incidente não tenha impactado diretamente o resultado do referendo, a comissão dos Comuns sublinha que é de maior importância retirar lições desta situação para futuras votações, entre elas melhorar os conhecimentos sobre este tipo de ciberinterferências que vão para lá de questões puramente técnicas.

"Os EUA e o Reino Unido julgam que 'ciber' quer dizer predominantemente técnico e baseado em redes de computadores. [Mas] por exemplo, a Rússia e a China recorrem a uma abordagem cognitiva com base em conhecimentos de psicologia de massas e de como explorar os indivíduos. As implicações deste entendimento diferente dos ciberataques — como puramente técnicos ou como uma forma de influenciar a opinião pública que vai para lá do digital — para interferência em eleições e referendos é clara. A PACAC está profundamente preocupada com estas alegações sobre ingerência estrangeira."

Em fevereiro, Ciaran Martin, o novo diretor da agência de espionagem eletrónica do Reino Unido (GCHQ), já tinha avisado que o país tem estado a ser alvo de dezenas de ciberataques por mês, incluindo tentativas de roubo de segredos de defesa e de política externa por hackers patrocinados pela Rússia.

Na altura, o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Philip Hammond, disse que o Centro Nacional de Cibersegurança, que está sob o pelouro de Martin, bloqueou 34.550 "potenciais ataques" a departamentos do governo britânico e a contas privadas de funcionários públicos nos seis meses que precederam fevereiro — uma média de 200 casos por dia.

No seu relatório, a PACAC também tece duras críticas à forma como David Cameron convocou o referendo ao Brexit para "responder ao bluff" dos críticos e depois se demitiu quando a permanência na UE por ele defendida foi chumbada por quase 52% dos britânicos que foram às urnas.

Em futuros referendos, sublinham os deputados no documento, o primeiro-ministro à data deve estar preparado para continuar no poder e implementar os resultados da votação, quaisquer que eles sejam. "Não houve planeamento apropriado para a possibilidade de a 'saída' ganhar, pelo que o referendo à UE gerou controvérsia e deixou a credibilidade do primeiro-ministro destruída. Deve ser razoável presumir que um primeiro-ministro em funções e que a sua administração vão continuar no poder e assumir responsabilidades pelo resultado do referendo, independentemente de qual for."