Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A difícil tarefa de Rex Tillerson em Moscovo

ALEXANDER NEMENOV

Kremlin já fez saber que Vladimir Putin não vai encontrar-se com o secretário de Estado norte-americano, que aterrou ontem na capital russa para discutir a guerra na Síria com o chefe da diplomacia do principal aliado de Bashar al-Assad

O secretário de Estado norte-americano aterrou ontem em Moscovo e é ali que hoje vai tentar convencer o governo de Vladimir Putin a parar de apoiar o líder sírio, Bashar al-Assad.

A visita oficial de Rex Tillerson acontece depois do encontro do G7 em Itália, no qual os líderes dos principais países industrializados do Ocidente concordaram que os EUA devem pressionar a Rússia para que suspenda o seu apoio ao aliado depois de um ataque com armas químicas que vitimou 89 pessoas e que provocou 500 feridos há uma semana em Idlib. Os governos ocidentais atribuem o ataque às forças de Assad, uma acusação que tanto Damasco como Moscovo desmentem.

A administração de Donald Trump, que na sexta-feira ordenou o primeiro ataque oficial contra as forças sírias desde o início da guerra em 2011, já deixou claro que não pretende lançar novos ataques com mísseis na Síria nem "entrar" na guerra civil em curso no país, como declarou ontem o Presidente norte-americano.

Também na terça-feira, o secretário da Defesa, Jim Mattis, alinhou-se com Tillerson e Trump ao garantir que a prioridade dos EUA continua a ser a derrota do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). "As nossas políticas militares na Síria não se alteraram", declarou Mattis, em contradição com o que foi avançado pela embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, e pela própria Casa Branca na semana passada, quando sublinharam que derrotar Assad tinha voltado a encabeçar a lista de prioridades norte-americanas.

O ataque da semana passada à base aérea de Al-Shayra, na província de Homs, instalou a confusão sobre quais são os objetivos da administração Trump para a Síria, com alguns funcionários do governo a sugerirem que podem passar por uma postura mais agressiva contra Bashar al-Assad e, por conseguinte, contra a Rússia que é a sua grande aliada.

Esta quarta-feira, Tillerson vai tentar convencer o homólogo russo, Sergei Lavrov, de que já não faz sentido Moscovo apoiar o governo em Damasco. Antes de partir para a capital russa, o secretário de Estado disse que a Rússia tem de escolher entre os EUA e a Síria e avisou que o país arrisca-se a tornar-se irrelevante no Médio Oriente se continuar ao lado de Assad, voltando a insistir que o Presidente sírio não pode desempenhar qualquer papel no futuro político da Síria.

Itália e outros países do G7+1 não aceitaram proposta do Reino Unido para aplicar sanções a militares russos e sírios

Itália e outros países do G7+1 não aceitaram proposta do Reino Unido para aplicar sanções a militares russos e sírios

RICCARDO DALLE LUCHE / POOL

O correspondente da BBC em Moscovo lembrava esta manhã que, por causa da forte aliança Moscovo-Damasco, "Tillerson pode ver-se obrigado a repensar a sua crença de que pode enfraquecer o apoio" dos russos a Assad.

O enviado do "The Guardian" à capital moscovita acrescenta: "Embora a decisão do secretário de Estado dos EUA de faltar à cimeira da NATO para visitar Moscovo tenha, inicialmente, parecido sublinhar o desejo da Casa Branca de melhorar as relações com a Rússia, as expectativas alteraram-se" depois do ataque com mísseis. "Os dias em que os políticos russos falavam de melhores relações e em que a televisão estatal trombeteava Trump como 'o verdadeiro homem' claramente acabaram. Assim que Tillerson deu início aos encontros em Moscovo esta quarta-feira, a questão deixou de prender-se com as dúvidas sobre se conseguirá alcançar um acordo para a Síria e passou a ter a ver com as possibilidades de conseguir dar início a qualquer tipo de diálogo."

Para esta quarta-feira está também marcada uma votação no Conselho de Segurança de uma resolução apresentada pelos EUA, o Reino Unido e França, na qual é exigido ao governo sírio que coopere com as autoridades ocidentais na investigação ao ataque químico de quarta-feira. Putin já pediu que a ONU conduza uma investigação independente ao caso e, tal como aconteceu com as anteriores resoluções de condenação ao governo sírio, deverá vetar o documento.

Na terça-feira, o Presidente russo voltou a referir-se a "ataques químicos falsos" que estarão a ser preparados noutras regiões da Síria com o objetivo de responsabilizar o governo de Assad e assim ter razões para atuar contra ele. Putin também referiu que a resposta ocidental ao ataque em Khan Sheikhoun o levou de volta a 2003, "quando os enviados dos EUA ao Conselho de Segurança da ONU tentaram demonstrar o que diziam ser provas de armas químicas encontradas no Iraque" — uma alegação que acabaria por provar-se falsa, já depois da invasão do país e da deposição de Saddam Hussein.

No início desta semana, os países do G7 não conseguiram alcançar consenso quanto aos próximos passos a dar. O Reino Unido queria que fossem aprovadas sanções contra figuras militares da Síria e da Rússia por causa do ataque químico, mas Itália e outros países sublinharam que, neste momento, não se deve alinear Moscovo, antes envolver o governo de Putin nas negociações para que ele possa exercer pressão sobre Assad.