Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Megainvestigação dos Panama Papers e reportagens sobre falsa filantropia de Trump recebem prémios Pulitzer

JOSHUA ROBERTS/ Reuters

Donald Trump foi o pretexto para vários dos trabalhos que receberam prémios, mas estes não se esgotaram nele

Luís M. Faria

Jornalista

A investigação internacional sobre offshores que leva o nome de “Panama Papers” e uma história sobre falsas alegações de filantropia por parte de Donald Trump acabam de se ver distinguidas com prémios Pulitzer. Esses prémios, os mais prestigiados do jornalismo americano, são anualmente atribuídos pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Além dos que se destinam a trabalhos jornalísticos, em 14 categorias diferentes, há também prémios para obras literárias em géneros diversos e para obras musicais.

Os Panama Papers, do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (do qual o Expresso faz parte), são um dos maiores empreendimentos jornalísticos de sempre. Baseiam-se em 11,5 milhões de documentos confidenciais da sociedade de advogados Mossack Fonseca, sediada no Panamá. Esses documentos mostram como milhares de entidades e indivíduos, muitos deles bastante conhecidos – por exemplo, governantes (ou gente próxima de governantes, como um amigo de infância de Vladimir Putin), futebolistas (Lionel Messi) e grandes empresários – usam veículos diversos, nomeadamente as chamadas empresa-fantasma, para sonegar dinheiro ao fisco dos países onde residem e obtêm rendimento.

Os Panama Papers venceram o Pulitzer para ‘Explanatory Reporting’, jornalismo de explicação e aprofundamento. O júri louvou a “colaboração de mais de 300 repórteres em seis continentes para expor a infraestrutura à escala global dos paraísos fiscais offshore”. O prémio vem juntar-se a muitos outros anteriormente recebidos pelo Consórcio dentro e fora dos EUA, nas áreas do jornalismo de investigação, jornalismo económico e financeiro, jornalismo de dados, jornalismo criativo, etc.

Exércitos de ‘trolls’ e abusos de autoridades locais

Na categoria de Reportagem Nacional, o Pulitzer foi para David Fahrenthold, do diário “Washington Post”, pela sua investigação do então candidato Trump. O ano passado, em plena campanha presidencial, Trump comprometeu-se a doar milhões de dólares a associações de veteranos, mas meses depois nenhum dinheiro tinha sido entregue. Isso só aconteceu, e à pressa, um dia após o Post começar a publicar histórias sobre o assunto. Não muito depois de ter saído a peça inicial, a campanha de Trump passou a banir o jornal dos seus eventos, acusando-o de falta de integridade jornalística.

Outros dois Pulitzer agora anunciados têm relação com Trump. Um deles, na categoria Reportagem internacional, é uma série de artigos no diário “New York Times” sobre os “exércitos de trolls” e os ciberataques mediante os quais a Rússia procurou influenciar a eleição presidencial americana. Outro, na categoria Comentário, foi para Peggy Noonan, uma colunista conservadora que ao longo de meses foi analisando no diário “Wall Street” o apelo populista de Trump e os seus efeitos no Partido Republicano.

Fora da política em sentido estrito, houve prémios para histórias, publicadas noutros jornais e revistas do país, sobre temas de racismo, toxicodependência, traumas de veteranos, abusos sexuais na igreja mórmon, entre outros. Fotógrafos e cartoonistas também não foram esquecidos, além dos poetas, ficcionistas, ensaístas e historiadores que recebem o prémio nas categorias literárias.

Os prémios Pulitzer surgiram em 1917, cumprindo uma disposição de Joseph Pulitzer (1847-1991), um famoso magnata da imprensa. Atualmente têm 21 categorias, das quais 20 são premiadas com 15 mil dólares cada uma. Na categoria Serviço Público, premiada com uma medalha de ouro, o prémio foi para o jornal “Daily News e para a organização Pro Publica, coautores de uma investigação sobre o modo como a polícia nova-iorquina utiliza abusivamente as regras sobre despejo para expulsar minorias vulneráveis e pobres das suas habitações.