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Internacional

Violência, discriminação e morte: o destino dos coptas no Egipto

MOHAMED ABD EL GHANY

Os atentados deste domingo foram os últimos de uma longa e horrível série em anos recentes

Luís M. Faria

Jornalista

Os dois atentados à bomba cometidos esta manhã contra igrejas coptas no Egito - o primeiro em Tanta, uma cidade a Norte do Cairo, matando pelo menos 25 pessoas, e o segundo horas depois em Alexandria, com onze vítimas no mínimo - infelizmente são apenas os últimos de uma longa série. Tanta já este mês tinha visto outro atentado à bomba ferir dezasseis pessoas num centro da polícia. Em dezembro passado, uma bomba numa capela ao lado da Catedral de São Marcos, a principal igreja copta do Cairo, matou três dezenas de pessoas e feriu quase cinquenta.

Outros protagonistas de casos horríveis de violência anti-copta recente incluem o dono de uma loja de bebidas a quem cortaram a garganta e a mulher de setenta anos que foi despida e exibida na rua como castigo por o seu filho alegadamente andar a cortejar uma muçulmana. Para não falar das mais de 150 famílias coptas que em fevereiro tiveram de fugir do Sinai para escapar à fúria assassina do Estado Islâmico e dos seus partidários.

Violência esporádica à parte (e há muita), os radicais islâmicos parecem ter uma preferência por atacar os coptas aproveitando cerimónias religiosas. Assim aconteceu em 2011, com a bomba que matou 23 pessoas e feriu 93 à saída da missa de Ano Novo em Alexandria. Nessa altura o pretexto foi um rumor de que os cristãos estariam a armazenar armas nas suas igrejas, com vista a utilizá-las numa guerra próxima contra muçulmanos, Rumores são o que não falta em contextos desses. Além do das armas escondidas em igrejas e dos que alegam blasfémias, muito repetidos e convenientes, há o dos envenenamentos, que já em 2000 tinha levado uma multidão a massacrar 21 pessoas em el Kosheh, uma vila situada 450 kms a sul do Cairo.

No Egipto desde o século I dC

A comunidade cristã no Egipto, que existirá desde o século I (diz a lenda que a sua fundação se deve ao evangelista São Marcos) constitui hoje cerca de 10 por cento da população e é composta na sua quase totalidade por coptas. Ao longo da sua história, e sobretudo desde o século VII, quando o país foi tomado pelo Islão, esteve numerosas vezes sob ataque. Hoje isso torna a acontecer de forma intensa.

O próprio Estado, embora os procure defender contra a pior violência dos radicais, discrimina os coptas em variadíssimas áreas. Ainda o ano passado uma nova lei confirmou as limitações estritas de que são objecto, por exemplo na construção de igrejas. Outras formas de discriminação, por exemplo no emprego, são menos visíveis mas não menos reais. E há uma noção generalizada de que, mesmo quando são alvo de violência criminosa, a polícia não mostra grande empenho em agir, ou recusa pura e simplesmente fazê-lo.

Só entre 2011 e 2014, segundo a contabilidade de organizações humanitárias, terá havido mais de 72 ataques registados contra coptas, entre destruição de igrejas e atos de violência pessoal. Reflectindo, de resto, a perseguição que atinge os cristãos noutros países do Médio Oriente.

Al-Sisi: o mal menor?

O Egito nem será dos piores, dado o relativo grau de proteção concedido aos coptas tanto por um anterior presidente, Hosni Mubarak, que ocupou o cargo durante décadas, como pelo atual chefe de Estado, o general Fatah al-Sisi. Al-Sisi tem efetuado visitas bastante publicitadas a igrejas coptas, e fala geralmente num tom de tolerância. Porém, a realidade social e do próprio Estado, com demasiada frequência, é a oposta.

O facto de al-Sisi ter subido ao poder através de um golpe de Estado contra o então governo da Irmandade Muçulmana, que subsequentemente foi interdita e viu milhares dos seus membros presos, exilados ou mortos, contribuiu para intensificar a violência anti-copta. Muitos islamitas consideram que os cristãos estiveram por trás do golpe ou o apoiaram. Estes ficam numa posição impossível, obrigados a defender o Estado que ainda lhes dá alguma proteção mas sujeitos a serem considerados aliados do inimigo por aqueles muçulmanos que sempre os viram como "kuffar", infiéis, e agora tem um pretexto para os tratarem como tal.

Assim, de pouco valem apelos à conciliação, como os do Papa Francisco, que daqui a semanas visita o Egito e hoje se solidarizou com as vítimas dos atentados, chamando "irmão" ao líder dos cristãos coptas. Ele também pediu a Deus para "converter os corações de quem espalha terror, violência e morte, e também os corações dos que fabricam a traição em armas".