Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Amnistia Internacional critica primeiros 100 dias de Guterres na ONU

epa

Diretora do gabinete da Amnistia Internacional junto das Nações Unidas, em Nova Iorque, lamenta, entre outros casos, a “completa inação” no conflito do Iémen. Mas o presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha faz uma avaliação positiva na “prevenção dos conflitos

Os primeiros 100 dias de António Guterres à frente das Nações Unidas ficam marcados pela "completa inação" no conflito do Iémen e pouca assertividade na questão dos colonatos israelitas em Gaza, na análise de uma alta responsável da Amnistia Internacional.

"Entramos no reino em que a Amnistia Internacional já mostra preocupação. Uma das principais áreas, para nós, é o conflito do Iémen. Ele [Guterres] disse que este é um dos principais temas que iria atacar e ouvimos coisas muito positivas sobre a forma como gosta de se envolver pessoalmente na mediação. No entanto, não vimos nada", disse à agência Lusa a diretora do gabinete da Amnistia Internacional junto das Nações Unidas, em Nova Iorque.

"Não vimos qualquer ação, quaisquer esforços tangíveis. Apesar das viagens que ele fez à região há uns meses, logo no início do seu mandato", realçou Sherine Tadros, britânica de origem egípcia que assumiu a liderança do gabinete da Amnistia Internacional na ONU em 2016.

As agências da ONU têm reportado o Iémen como "o maior desastre humanitário" que têm em mãos, com várias áreas em situação de fome e uma ameaça de fome generalizada.

"O que está ele a fazer para pressionar a Arábia Saudita, a coligação [árabe] para parar esta guerra? O que está ele a fazer para mediar entre os huthis (rebeldes) e os sauditas? Não vemos esforços", afirmou a antiga jornalista.

O governo do Iémen, apoiado por uma coligação árabe liderada pela Arábia Saudita, tem vindo a combater uma insurreição armada de rebeldes huthis (apoiados pelo Irão) pelo controle do país. Desde 2015, a guerra já fez mais de 7 mil mortos.

Sherine Tadros também se mostrou "desiludida" com a ação de Guterres na questão dos colonatos israelitas em Gaza, nomeadamente quanto à resolução 2334, adotada pelo Conselho de Segurança da ONU no final do ano passado e que condena a ação israelita.

"Em vez de apresentar um relatório escrito sobre a falta de aplicação da resolução por parte de Israel, o Secretário-Geral mandou um dos seus enviados fazer um 'update' oral - sem nada escrito - aos membros do Conselho de Segurança", criticou Sherine Tadros. Para Tadros "isto mostra que Guterres não usou na totalidade os poderes que lhe foram dados pela resolução para trazer Israel à responsabilidade".

Sobre a questão da Síria, Tadros considera que "mais uma vez vimos Guterres a dizer todas as coisas certas e a exigir moderação". "Mas ainda está por ver como é que ele poderá ajudar a unir o Conselho de Segurança. Esta é a guerra que define [a futura prevenção de conflitos]. Tem de haver ação, se não num cessar-fogo, pelo menos na questão dos refugiados", apelou.

A diretora da Amnistia Internacional ressalvou que é "sempre muito difícil fazer uma apreciação dos 100 primeiros dias", mas disse que existe na ONU uma expectativa "de que Guterres faça imensas coisas, porque vem da agência para os refugiados".

Por outro lado, a Amnistia -- que considera "muito positivo" o envolvimento de Guterres com a sociedade civil -- destacou, sobretudo, "o compromisso de Guterres quanto à igualdade de género". "Aqui tem sido mais do que palavras. Temos visto ação", disse Sherine Tadros, dando como exemplo a nomeação de três mulheres para cargos de muito alto nível no gabinete executivo.

Também em declarações, por escrito, à Agência Lusa o presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha enalteceu a abordagem de Guterres virada para enfocar a ONU nas "soluções políticas" e na "prevenção dos conflitos".

"Esta abordagem vai dar grande apoio à comunidade humanitária internacional, como um todo, na redução das necessidades das pessoas, na assistência e na proteção", considerou Peter Maurer. Para o responsável máximo da Cruz Vermelha, a ação do novo secretário-geral "tornou mais fácil dar uma resposta à fome em vários países".

Especialistas internacionais fazem avaliação positiva

Esta perspetiva positiva sobre o arranque do mandato de Guterres na ONU é partilhada por especialistas internacionais e organizações não-governamentais instado a analisar as primeiras 14 semanas de trabalho do português, marcadas pelo início de uma reforma institucional que pretende tornar a ONU mais eficiente, a continuação do conflito na Síria e alguns embates com a nova administração americana.

"Guterres causou uma primeira impressão muito positiva. Ele é muito previdente, dedicado ao seu trabalho e representa uma grande melhoria em relação a Ban Ki-moon", disse à Lusa o professor universitário Richard Gowan. Gowan diz, no entanto, que "Guterres teve uns primeiro 100 dias muito difíceis, sobretudo devido à administração Trump."

"Ele está a tentar estabelecer-se num momento em que os EUA pedem grandes cortes ao orçamento da ONU. Muitos funcionários estão preocupados em saber se os seus empregos serão sacrificados. Diplomatas de outros países querem saber se ele vai enfrentar os EUA e criticar o presidente Trump em público, mas um grande embate iria causar-lhe um imenso problema político", explica o especialista.

Gowan acredita, porém, que "Guterres está a construir uma forte relação bilateral com [a embaixadora dos EUA junto da ONU] Nikki Haley e essa pode ser a chave do seu sucesso."

Jean Krasno, que liderou a campanha que tentou eleger uma mulher para o mais alto cargo diplomático do mundo, acredita que "até agora, o novo secretário-geral tem respondido aos desafios do trabalho."

"Ele tem vindo a nomear mulheres para posições de topo, talvez um pouco mais devagar do que esperávamos, mas o progresso para a paridade de género tem sido bom", defende.

A esse nível, Gowan explica que "apesar de Guterres gostar de tomar decisões e agir rapidamente, o sistema da ONU move-se devagar" e que, por isso, "ele ainda esta a tentar preencher muitos cargos seniores."

"O facto de que ainda não tem a sua equipa de conselheiros completa deve frustrá-lo", diz o especialista em assuntos da ONU no Conselho Europeu de Relações Externas.

Gowan acredita que "Guterres é mais feliz quando está a viajar e a ver o trabalho da ONU no terreno."

"Ele visitou locais em conflito como a Somália e o Iraque. Ele quer realmente ver o que os seus representantes estão a conseguir, e isso é imensamente encorajador", diz.

Jean Krasno diz que "além de todas as ameaças à paz internacional e segurança que a ONU enfrenta, o Secretário-geral tem de encontrar o passo certo para manter o equilíbrio entre os estados membros, sobretudo entre os membros permanentes do Conselho de Segurança." "E é aí que terá de lidar com os meandros quixotescos da administração americana", avisa a especialista.