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Internacional

Mike Pence e licra

Andy Cross

A moral do vice dos EUA é tão imoral como a de Trump

Eis o problema: querem colocar tudo preto e branco quando a análise das questões não resiste a esta grelha tão básica e tuiteira. Repare-se: duas adolescentes são barradas pela United Airlines de embarcar, num voo doméstico nos EUA, por usarem leggings — aquelas calças de licra desportivas. Basta um tuíte de um passageiro que viu a cena e o que acontece? Vira escândalo planetário. A United Airlines tinha cometido uma ignomínia contra as mulheres-adolescentes, um ato de moralismo repugnante, ao sexualizar as miúdas. Sinais da América de Trump. Parece que não foi bem o caso. Mas, mesmo que tivesse sido, é aterrador que certos episódios que antes iriam para o livro de reclamações — mal-entendidos, erros, asneiras do quotidiano, pequenas burrices — ganhem agora vida desta forma e possam ter consequências incalculáveis para quem as comete. Afinal, todos estamos à beira de fazer asneira (Nota: este texto tem a ver com as fantasias sexuais do vice norte-americano, Mike Pence).

Mas as leggings eram como? Bom, isto pode-se resolver de várias formas. Para já, vamo-nos juntar ao coro de indignação contra os tinhosos dos tipos que impediram a entrada das miúdas por considerarem que estavam vestidas de forma inapropriada. As redes sociais, claro, arrasaram a United, acusando-a de impor uma política sexista e intrusiva. Como discordar?

Mas, lida a posição da empresa, há uma pequena nuance. As miúdas viajavam com bilhetes de familiar de funcionário e, como tal, alegam, estão sujeitas às regras de representação da companhia. Ou seja, qualquer pessoa que compre um bilhete pode usar roupa horrível, mas quem representa a empresa tem de se sujeitar “à política de bom-gosto dos funcionários e dependentes em viagem, que passa pelo não uso de licra, chinelos, jeans rasgados e outros artigos”. Eu não sei se a United está certa ou errada. Mas esta leitura faz a diferença. Se era um bilhete de borla e tinha umas regrazitas, o máximo que o tipo do gate pode ser acusado é de excesso de zelo e não de zelota. Como se chega ao Mike Pence daqui?

De há dois meses para cá lemos notícias dos EUA que ainda há uma dúzia de anos só poderiam ser episódios rocambolescos da República islâmica do Irão: “leggings num avião?” Foram logo arrastadas para fora. “É culpa do Trump!” Ora, eu, que não sou um fã do cavalheiro, creio que o foco de disfuncionalidade misógina que emana da Casa Branca vai ter custos enormes. Mas por ora ainda é só um “erro de perceção” o modo como lemos estas notas soltas.

Os EUA têm um Presidente que foi catado a dizer que agarra as mulheres por aquela parte e ainda saiu glorificado. Que valores se podem então atribuir a esta Administração? É essa ambivalência, essa duplicidade seletiva de critérios, que desorienta e perturba, porque a realidade não é a preto e branco, tem as nuances do cabelo de Trump e é mais elástica que licra. Mas falemos pois da relação do vice Mike Pence com as mulheres.

Eis o que é verdadeiramente absurdo. O vice-presidente dos Estados Unidos (o “bastião do mundo livre”) recusa-se a fazer uma refeição com uma mulher que não seja a sua. É um princípio de vida que segue. Ou seja, Pence é incapaz de dar uma facada extraconjugal — sendo que aqui por ‘facada’ deve ser considerada uma mera refeição. O vice de Trump considera-se a si próprio, por esta ordem, cristão, conservador e republicano. E no perfil traçado recentemente pelo “Washington Post” à sua mulher, Karen, também ela obviamente uma evangélica de linha dura, ficou-se a saber que esta lhe oferece um telefone vermelho funcional quando toma posse dos cargos, unicamente com um número: para ela. Para momento de tentações em pensamento. O doido.

É verdade que um homem como Mike Pence num lugar de poder é um ataque às mulheres. Pence é alguém que se considera um animal em vias de se descontrolar. Recusa-se a estar a sós com uma mulher para não ceder, como se não tivesse poder sobre si próprio e se a mulher nada tivesse a dizer sobre o assunto e não resistisse aos seus avanços. Não se trata do que poderia ser “dito por outros” ao estarem os dois fechados.

É por isso que, no fundo, a base moral é exatamente a mesma que a do ateu e javardo Donald Trump quando diz que o Poder permite agarrar as mulheres por onde quer. É cada vez mais evidente que este fundilho existencial vai fazer mal às mulheres. Mas elas estão hoje equipadas com um dispositivo mental e moral para se defender destes seres abjetos e vão dar luta. Mas estes dois grunhos irão fazer mal aos homens e à masculinidade por tempos futuros. E os homens nem vão perceber quanto. E alguns até devem pensar que estes dois são seus aliados, libertadores de uma opressão qualquer do politicamente correto. Wrong!

E os leggings? Foi um detalhe, um episódio que mostrou a atenção e a suscetibilidade que se vive hoje para detalhes e episódios. Mas a verdade é outra: há dress codes absurdos para mulheres em empresas e esta Administração parece saída de um caldo moral dos anos 50.

Uma marca aproveitou para faturar: a Puma fez um megadesconto a leggings de licra a quem aparecesse com bilhetes da empresa de aviação em causa. Mas a Puma, nome de gato predador, devia saber que um dia é da caça, outro do caçador. E quem sabe ainda lhe acontece uma destas. E vamos todos rir.