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ETA revela esconderijos do seu arsenal. Organização diz-se "desarmada"

O comunicado da ETA já era esperado desde o final do ano passado

Políticos, intelectuais e vítimas de terrorismo reagiram no tom duro que costumam usar em relação a um grupo acusado de ter matado mais de 800 pessoas

Pouco antes das dez horas nesta manhã de sábado, foi noticiado que a ETA tinha feito chegar à polícia francesa os dados de localização de oito (ou 12, segundo outra versão) esconderijos de armas em França, com 120 armas e três toneladas de explosivos. Aparentemente, concretiza-se assim a promessa feita anteontem à noite pela organização terrorista. Numa carta então enviada à BBC, ela dizia que tinha entregue o seu armamento a "representantes da sociedade civil basca" e garantia: "A ETA é agora uma organização desarmada".

A confirmar-se, é o culminar de um longo processo no qual a intransigência de sucessivos governos espanhóis e da própria esquerda nacionalista basca, bem como a hostilidade popular crescente - sobretudo após o assassinato de um jovem autarca, Miguel Ángel Blanco, em 1997 -, foram encurralando um grupo que chegou a ter uma imagem romântica junto de muitos setores de esquerda. Uma imagem que vinha da luta contra a opressão franquista, o que deixou de fazer sentido enquanto credo após a instauração da democracia no país.

Apesar disso, a ETA continuou a matar. Ao todo, as suas vítimas diretas foram 829, a última das quais um polícia em 2010. Em 2011 o grupo anunciou um cessar-fogo, e nos anos seguintes procurou várias vezes negociar com Madrid, mas foi sempre rechaçada. Os seus objetivos tinham a ver com a melhoria das condições penitenciárias para militantes seus (há cerca de 360 em cadeias espanholas e francesas, a ETA pede que os coloquem em cadeias mais próximas das famílias) e com a diminuição da presença de forças de segurança no país basco.


A influência do 11 de setembro
Nada disso parece ter sido conseguido. E mesmo algumas cenas muito publicitadas de entrega de armas correram mal. A última delas, em dezembro passado, resultou na prisão de outros envolvidos. Uma mistura de políticos e organizações civis têm procurado intermediar a transição definitiva para a paz no País Basco, com iniciativas muitas vezes criticadas por quem acha que não deve haver qualquer espécie de contemplação com a ETA. Foi a essas entidades - que incluem uma "Comissão Internacional de Verificação" não reconhecida pelas autoridades - que a organização voltou agora a recorrer.

Outro fator que terá contado no recuo da ETA foi o combate generalizado ao terrorismo após o 11 de setembro. A ETA reconheceu-o quando falou no advento de "outros integrismos" que massacravam "simples cidadãos" - ao contrário dela, era essa a mensagem implícita. Ao longo dos últimos anos foram sendo descobertos esconderijos de armas com regularidade, levando a que crescesse a percepção de que arsenal da ETA já estaria bastante reduzido. Assim, ela decidiu acelerar o processo e entregar tudo de uma vez.

"Pegámos em armas pelo povo basco e agora deixamo-las nas suas mãos para continuar a avançar no objetivo de lograr a paz e a liberdade do nosso povo", explica na sua carta. Admite que o caminho é "duro e difícil", mas rejeita "esquemas de vencedores e vencidos". Lamenta igualmente que Espanha e França tenham optado em exclusivo pela "via policial" e avisa que ainda pode haver "ataques dos inimigos da paz".

"Trocou as armas de matar pelas de mentir"
Do lado oficial, a reação foi caracteristicamente dura. O governo reiterou não ter oferecido ou aceite quaisquer concessões em troca, e o presidente do Partido Popular Basco, Alfonso Alonso, falou em "ato final de rendição" por parte da ETA. "Embora alguns lhe dêem muita propaganda, o desarme é uma entrega incondicional, a troco de nada, embora tenha ar de ser uma trapalhada. Ninguém negociou nada com eles. Não conseguiram nada". Alonso acrescentou que a ETA "sabe que só lhe resta a dissolução, e fá-lo-á mais cedo que tarde".

Ainda mais duros foram os intelectuais e vítimas da ETA que subscreveram um manifesto apresentado ontem numa cerimónia pública em San Sebastian pelo Coletivo de vítimas do Terrorismo (Covite). Intitulado "Por um fim da ETA sem impunidade" pede aos "cidadãos de bem" que "não caiam na armadilha mediática urdida pelo grupo terrorista". Refere "a impunidade,a chantagem moral às vítimas da ETA, o projeto político, o discurso do ódio e a falsificação da história" como "as outras armas da ETA". E pede a fixação dos "princípios da verdade, da memória, da justiça e da dignidade", lembrando que as vítimas da ETA foram não apenas os mortos como os feridos e os familiares.

O filósofo Fernando Savater, um dos intervenientes na cerimónia, avisou que a ETA "trocou as armas de matar pelas de mentir" e disse que a seguir a derrota militar é necessário haver a derrota política. Ou seja, a ETA tem de acabar. Não basta que mude de estratégia. Pela sua parte, a irmã de Miguel Ángel Blanco disse ter esperança que a pistola usada para o matar esteja entre as armas hoje entregues pelo grupo terrorista.