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A América era responsável por castigar Assad?

reuters

A resposta a essa questão, dada por Trump na madrugada de sexta, depende da ideia que se tenha sobre o papel dos EUA no mundo

Luís M. Faria

Jornalista

Donald Trump é imprevisível, mas desta vez seria difícil não fazer nada. As suas palavras, um dia após o ataque químico a uma povoação na Síria, que matou mais de oitenta pessoas, tinham sido veementes. Explicando que a sua imagem do presidente Assad e do seu regime tinha mudado, disse: "Para mim foram atravessadas muitas linhas. Quando se matam crianças inocentes, bebés inocentes, bebés pequenos, com um gás químico tão letal, as pessoas ficaram chocadas ao saber que gás era, isto atravessa muitas, muitas linhas, além de uma linha vermelha. Muitas, muitas linhas".

Trump continuou garantindo que não se podiam tolerar aquelas "ações hediondas", e declarando que os EUA se juntavam aos seus aliados na condenação a Assad. Mas quando lhe perguntaram-lhe se ia haver uma mudança de política em relação ao conflito sírio, nao se comprometeu. Disse apenas: "Veremos".

A embaixadora dos EUA nas Nações Unidas foi mais clara. Perante a recusa russa de apoiar uma moção proposta pelo seu país e pela Alemanha e a França no Conselho de Segurança da ONU, Nikki Haley avisou: "Quando as Nações Unidas falham consistentemente no seu dever de agir em coletivo, há alturas na vida dos estados em que somos obrigados a tomar a nossa própria ação".

Falando de pé, o que é invulgar nesse tipo de reunião, Haley exibiu imagens de crianças mortas e interpelou diretamente o embaixador russo: "Quantas mais crianças têm de morrer até a Russia querer saber?".

A questão era perceber que efeitos, se alguns, a indignação americana teria na prática. a resposta chegou na madrugada de sexta, com os 59 mísseis disparados contra a base aérea síria de onde terão partido os aviões que lançaram o ataque com armas químicas.

A primeira crise externa grave

Qualquer mandato de um presidente americano é, por natureza, uma sucessão de crises. Nos primeiros dois meses de presidência Trump, as crises foram essencialmente auto-infligidas: a mal concebida proibição de entrada a pessoas de certos países muçulmanos, uma ainda pior amanhada lei para substituir o Obamacare, as bocas sem fundamento sobre escutas ordenadas por Barack Obama ou sobre o tamanho da multidão na tomada de posse, os telefonemas pouco diplomáticos a estadistas estrangeiros...

Tudo isso deu rico material à satira, e contribuiu para fazer de Trump o presidente com a taxa de aprovação mais baixa (37%) na fase do mandato em que ele está. Mas esta semana chegou algo diferente: uma grave crise de política externa, que não só pôs à prova Trump, como implicou decisões básicas sobre o tipo de postura e de missões que a América tem, ou não tem, no mundo.

A crise foi o ataque levado a cabo pelo governo sírio (segundo concorda a maioria dos especialistas. A Rússia, aliada de Damasco, tem uma versão diferente) em Khan Sheikhoun, na província de Idlib. A julgar pelos sintomas observados nas vítimas, o gás utilizado terá sido um agente nervoso, provavelmente o sarin. O uso de armas químicas é estritamente proibido na lei internacional, e constitui um crime de guerra. O governo sírio já tinha cometido ataques do mesmo tipo, nomeadamente em 2013 quando cerca de 1400 pessoas foram mortas num local vizinho a Damasco.

Antes disso, o presidente Barack Obama tinha avisado Bashar al-Assad que o uso de armas químicos representaria o atravessar de uma 'linha vermelha', com inevitáveis consequências - i.e. ação militar por parte da América. Esperava-se, portanto, que o exército americano bombardeasse posições sírias. Mas Obama não quis avançar sem consentimento do Congresso, e o Congresso recusou. Em vez dos bombardeamentos, chegou-se a um acordo, negociado com o governo sírio em conjunto a a Rússia, sua grande aliada, para retirar do país os stocks de armas químicas.

1200 toneladas desses materiais foram de facto retiradas e destruídas. Mas sempre houve suspeita de que não eram a totalidade do que havia, uma ideia reforçada pelo facto de continuarem a acontecer ataques químicos de dimensão menor aqui e ali. A suspeita foi agora confirmada de forma horrível, e Trump deparou-se com o mesmo dilema que confrontou o seu predecessor.

Presidente da América, não do mundo

O dilema tem a ver com a opção entre multilateralismo, unilateralismo ou isolacionismo. Esta última posição foi a que Trump assumiu no seu discurso de tomada de posse: América primeiro, sempre. Não vamos andar por aí fora a resolver problemas alheios, com grande custo nosso e sem recompensa nenhuma. Os outros países que tratem dos seus próprios problemas, Ainda esta semana, num evento público, Trump reiterou que era presidente da América, não do mundo. E o facto é que os Estados Unidos não têm em relação ao conflito sírio nenhum interesse direto, no sentido em que Trump o define. A Síria não ameaça os EUA, não tem um superávit comercial, não insulta o presidente americano.

Por outro lado, há muito que a América representa no mundo algo mais do que essa visão limitada dos seus interesses. Pelo menos desde a II Guerra Mundial, e até antes, o país entendeu que é da sua conveniência defender o sistema de normas internacionais que ele próprio fez instalar, e no qual a sua prosperidade e a do resto do mundo têm assentado.

Trump pode afirmar que não é presidente do mundo, mas é inegável que o mundo, perante atrocidades como a de Khan Sheikhoun, espera sempre que a América tome a iniciativa, até porque não há realmente mais ninguém. A julgar pela retaliação executada na madrugada de sexta-feira, (estimulada, sem dúvida, pela revolta pública de alguns congressistas republicanos ante o silêncio inicial do seu presidente após o massacre), Trump convenceu-se finalmente de que tem obrigações nesse tipo de assunto.

Estava longe de ser líquido que o fizesse. Imediatamente após o massacre, ele tinha aproveitado, uma vez mais, para criticar o seu predecessor, embora também admitisse que não se podia alhear do assunto. "Agora a responsabilidade é minha", disse. Faltava ver até que ponto levaria a responsabilidade, e quais as consequências de uma eventual ação.

O antigo inspetor da ONU, Hans Blix, já sugeriu que a reação militar dos EUA foi precipitada, pois não se sabe ao certo quem lançou o ataque sobre Khan Sheikhoun. Outros analistas disseram que o interesse da oposição em fazê-lo era bastante maior que o do governo, e notaram que os próprios rebeldes já têm cometido crimes desse género.

Em suma, a única garantia real neste momento é a continuação do caos. Como sempre.

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