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Internacional

“Um evento que pode alterar o curso da História”. Reações ao ataque dos EUA à Síria

Imagem captada por satélite da Base Aérea de Shayrat, alvo do ataque norte-americano, divulgada pelo Departamento de Defesa dos EUA

Departamento de Defesa dos EUA

Donald Trump ordenou um ataque com mísseis a uma base aérea das forças sírias de Bashar al-Assad em Homs para destruir o seu arsenal, na sequência do ataque com armas químicas que, na quarta-feira, matou mais de 80 civis, incluindo dezenas de crianças. A Rússia aliada de Assad diz que o ataque "viola a lei internacional", que foi "preparado antes dos eventos em Idlib" e lançado "sob um pretexto inventado". Fallon, Hollande e Merkel apoiam a decisão dos americanos

O correspondente da BBC em Moscovo cita declarações na rádio estatal russa Vesti FM: "Este pode ser um evento que vai alterar o curso da História".

França e Alemanha apoiam EUA

O Presidente francês, François Hollande, convocou uma reunião de emergência com conselheiros de Defesa para esta manhã. Nela se discutirão os próximos passos a dar depois do ataque dos EUA a uma base aérea das forças sírias em Homs e numa altura em que a força aérea de França continua muito ativa na coligação internacional liderada pelos EUA para destronar por via aérea o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na Síria e no Iraque.

O seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault, diz que o ataque com mísseis americanos foi um aviso aos aliados de Assad, a Rússia e o Irão.

Num comunicado conjunto, Hollande e a chanceler alemã, Angela Merkel, sublinharam que o Presidente sírio é "o único responsável" pela decisão de Donald Trump em atacar uma das suas bases aéreas, em retaliação ao ataque com armas químicas em Idlib, atribuído ao regime sírio mas que Damasco e Moscovo garantem não ter sido executado pelas suas forças.

"Só o Presidente Assad é que é responsável por este desenvolvimento" no conflito civil, desde o mês passado no seu sétimo ano consecutivo. "O uso repetido de armas químicas e os crimes que tem cometido contra a sua própria população têm de ser punidos."

Pool

Reino Unido: "Apoiamos totalmente os americanos"

O ministro da Defesa britânico, Michael Fallon, afirma que têm sido mantidas "discussões aprofundadas com o governo americano nos últimos dias, no rescaldo do ataque com gás, a todos os níveis”,em Londres, em Washington e nas Nações Unidas. “Ontem o Secretário de Defesa, Jim Mattis, ligou-me para partilhar a sua análise sobre a responsabilidade do regime [sírio] e revimos as várias opções que eles estavam a considerar e depois à noite ligou-me para me informar previamente da decisão [de atacar a base aérea de al-Shayrat]”, acrescentou Fallon. “A nossa reação é que apoiamos totalmente o que os americanos fizeram, é [um ataque] limitado, apropriado, atingiram a base, os aparelhos aéreos, o equipamento de apoio que, acreditam os americanos, estiveram envolvidos neste ataque químico, [que foi] preparado para dissuadir o regime de planear ataques com gás como aquele que terá matado mais de 100 pessoas, incluindo crianças."

O ministro da Defesa britânico, Michael Fallon

O ministro da Defesa britânico, Michael Fallon

Mark Runnacles/GettyImages

Conselho Europeu: “Determinação necessária”

O ataque dos Estados Unidos contra uma base na Síria "ilustra uma determinação necessária contra os ataques químicos bárbaros", afirmou esta sexta-feira o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.

"A União Europeia trabalhará com os Estados Unidos para pôr fim à brutalidade na Síria", acrescentou Tusk, numa curta declaração na rede social Twitter.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk

HANNAH MCKAY/REUTERS

“Não há provas” de que tenha sido Assad a executar o ataque químico

Para Peter Ford, ex-embaixador do Reino Unido na Síria:"Não há provas de que a causa da explosão tenha sido o que eles disseram que foi", defendeu à rádio BBC 4. "Lembremo-nos do que aconteceu no Iraque. Eu já vi testemunhas a alegar que viram armas químicas a cair do céu, não é possível 'ver' armas químicas a cairem do céu, tais testemunho não valem nada. Pensemos nas consequências porque isto muito provavelmente não é o fim [do assunto], não faz sentido que Assad o fizesse. Vamos não deixar os nossos cérebros do outro lado da porta quando examinamos provas, seria totalmente autodestrutivo como se vê pelos resultados."

“Não estamos surpreendidos que a América continue a apoiar o terrorismo”

"Este ataque não vai impedir-nos de continuarmos lutar contra o terrorismo", disse à rádio BBC 4 o governador da província de Homs, Talal Barazi. "Não estamos surpreendidos que a América e Israel continuem a apoiar este terrorismo. A América é um real parceiro nos ataques às infraestruturas e ao povo da Síria, atingindo-os de várias formas. Nós na Síria, os líderes e as pessoas, escolhemos enfrentar as agressões de todos os tipos. Não ficaremos surpreendidos hoje se virmos os que apoiam [os EUA] a interferir diretamente após o falhanço dos terroristas na Síria, contra a sua força e Exército. Não ficaremos surpreendidos de ver os americanos a desempenharem um papel direto no terreno."

Talal Barazi

Talal Barazi

LOUAI BESHARA

“Vai este ataque abrir uma porta a uma solução na Síria?”

“Uma linha [de informação] não nos dá muito, mas há relatos: os ativistas que estão no norte da Síria dizem que cerca de 14 aviões foram destruídos, para além de depósitos, etc. Se isto é verdade, este foi um ataque considerável. O importante a meu ver é: vai este ataque abrir uma porta a uma solução no país, na Síria?” , pergunta Thabet Salem, jornalista sírio sediado em Damasco. “A Síria tem estado a sofrer há seis anos, o balanço de mortos e de deslocados é enorme. A ideia é que esperamos que isto seja o primeiro passo para se alcançar um acordo político e uma solução para esta crise que já ceifou tantas vidas.”

China pede que as partes evitem “deterioração” do conflito

Há um mês Assad tinha declarado que a relação da Síria com a China, um dos membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, está "em subida" e que Pequim é "um amigo verdadeiro" com o qual os sírios "podem contar".

Semanas depois, os EUA ordenaram ontem um ataque com mísseis a uma das suas bases aéreas mesmo antes de Xi Jinping, o Presidente da China, se sentar à mesa com Donald Trump na casa de férias do Presidente americano em Mar-a-Lago na Florida, para um jantar que encerrou o primeiro de dois dias de reuniões entre os dois líderes.

É o que o "Washington Post" diz ter sido um "revés embaraçoso" no encontro — de elevada importância depois de Trump ter sugerido que está pronto para agir sozinho contra a Coreia do Norte se Pequim não aumentar a pressão ao regime de Kim Jong-un.

Para já, Xi ainda não reagiu publicamente aos recentes acontecimentos na Síria. A partir da capital chinesa, os seus porta-vozes pediram em comunicado que todas as partes envolvidas no conflito evitem "deterioar ainda mais" a situação.

Exército sírio fala em, pelo menos, seis mortos

Seis pessoas morreram no ataque dos EUA à base aérea de al-Shayrat em Homs, um que também resultou em enormes perdas materiais, avançou esta manhã o Exército de Bashar al-Assad. Em comunicado, é acrescentado que o regime vai continuar a "esmagar o terrorismo" para "restaurar a paz e a segurança em toda a Síria".

Jack Keane

Jack Keane

Getty

“Podemos [os EUA] destruir o poderio aéreo de Assad numa noite”

"Foi uma operação limitada com um alvo específico para entrar na cabeça de Assad e [mostrar-lhe] que, se lançar outra vez um ataque químico, os Estados Unidos vão responder com um ataque muito maior que poderá destruir totalmente a sua infraestrutura de poderio aéreo. Sendo muito franco, podemos fazê-lo numa noite", afirmou o general Jack Keane, ex-vice-chefe de gabinete do Exército dos EUA.

Questionado pelo locutor do Today Show da BBC 4 sobre porque é que isso não foi feito desta vez, Keane respondeu: "Algumas razões: ele queria mandar uma mensagem de que este é um ataque limitado que resultou num número limitado de baixas. Também acredito que... temos dois contratorpedeiros no Mediterrâneo, cada um transporta 90 mísseis, alguns deles mísseis balísticos de defesa aérea. Ele teria de ter destacado outros navios para aquela área, o que levaria mais uns dois ou três dias. Penso que a responsividade foi uma questão [preponderante], eles queriam dar uma resposta oportuna."

Sobre as informações de que os EUA avisaram previamente a Rússia aliada de Assad sobre o ataque em curso, Keane disse: "Não disseram nada aos legisladores, a ninguém em Moscovo, a única coisa que fizeram foi, antes da operação, usaram a linha que temos com os russos para assegurar que não nos cruzamos quando estamos a conduzir missões aéreas e quando os russos estão a conduzir missões aéreas. Antes do ataque, telefonámo-lhes por essa linha para lhes dizer que íamos conduzir uma missão aérea naquela base usando mísseis Tomahawk, tal como fazemos sempre com todas as missões que conduzimos."

E sobre o facto de Trump não ter pedido autorização à ONU para lançar o ataque: "E quando é que ele a obteria? Os russos vetaram as últimas sete resoluções da ONU quando tudo o que [os outros membros do Conselho de Segurança] estão a tentar fazer é condenar Assad pelos crimes que ele já cometeu."

Sean Gallup/Getty Images

“Resposta medida e proporcionada”

Para o Governo espanhol, o bombardeamento dos Estados Unidos contra uma base aérea síria "é uma resposta medida e proporcionada" à utilização pelas forças armadas sírias de armas químicas contra a população civil do país.

O Executivo de Mariano Rajoy acrescentou, através de um comunicado, citado pela agência espanhola Efe, que a operação dos Estados Unidos "é uma ação limitada no seu objetivo e meios" e sublinhou que se tratou de um ataque contra uma base militar, "não contra objetivos civis".

Madrid fez ainda saber que mantém uma "sólida lealdade" em relação aos seus aliados e é defensora de uma "ação internacional concertada", pelo que lamenta que o bloqueio do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação ao conflito da Síria não a tenha permitido.