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Porta-voz de Putin diz que ataque dos EUA à Síria foi lançado “sob pretexto inventado”

Dmitry Peskov, porta-voz de Vladimir Putin

ALEXANDER NEMENOV

Bashar al-Assad ainda não reagiu ao ataque com mísseis ordenado por Donald Trump contra uma base aérea em Homs — a primeira vez que a Casa Branca dá ordens diretas para atacar as forças leais ao Presidente sírio desde o início da guerra em 2011. Moscovo fala numa "violação da lei internacional", um ataque que "viola a soberania de uma nação da ONU" e que foi "preparado antes dos eventos em Idlib"

O Presidente russo "vê o ataque" da madrugada desta sexta-feira que Donald Trump ordenou contra uma base aérea da Síria como "um ato de agressão contra uma nação soberana" que "viola a lei internacional" e que "foi lançado sob um pretexto inventado".

Assim ditou o porta-voz de Vladimir Putin, Dmitry Peskov, esta sexta-feira de manhã, horas depois de o líder norte-americano ter dado luz verde ao Pentágono para lançar 59 mísseis-cruzeiro contra a base aérea de Al-Shayrat, na província de Homs.

A ordem foi dado como retaliação ao ataque químico que na quarta-feira matou mais de 80 civis, entre eles muitas crianças, com recurso a uma arma química banida que a Turquia já disse ter sido o gás sarin, um agente que provoca a morte por asfixiamento aos que são expostos a ele.

A administração Trump acredita que o ataque químico foi ordenado por Assad e que teve a sua origem na base de Al-Shayrat, onde há dezenas de tropas sírias e russas estacionadas e onde as forças de Assad têm armazenadas munições, caças e outros equipamentos de guerra.

No rescaldo do ataque com armas químicas, a Rússia, grande aliada de Assad, tinha sublinhado que a exposição dos civis ao agente nervoso tinha resultado do facto de as forças sírias terem atingido um depósito de armas dos rebeldes da oposição onde estavam armazenadas armas químicas.

Os Estados Unidos acreditam que o ataque foi ordenado e planeado pelo regime Assad e, ontem à noite, o Presidente deu ordens para que as forças norte-americanas atacassem a base de onde terá sido lançado.

Trump ordenou o ataque a partir da sua casa de férias em Mar-a-Lago, Florida, onde ontem e hoje está reunido com o Presidente da China, Xi Jinping

Trump ordenou o ataque a partir da sua casa de férias em Mar-a-Lago, Florida, onde ontem e hoje está reunido com o Presidente da China, Xi Jinping

JIM WATSON

Esta manhã, no comunicado citado pelas agências russas, Peskov insistiu que "o exército sírio não tem armas químicas", algo que, sublinhou, "foi observado e confirmado pela Organização para a Proibição de Armas Químicas, uma unidadde especial das Nações Unidas".

Para Putin, o ataque com mísseis desta madrugada é uma tentativa de distrair o mundo dias depois de os EUA terem sido acusados de matar civis no Iraque, no âmbito da ofensiva aérea da coligação internacional que lideram para destronar o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no país, acrescenta o seu porta-voz. "Esta decisão danifica em muito as relações bilaterais EUA-Rússia, que já se encontravam num estado deplorável."

Fontes de alto nível do Kremlin, que tem prestado apoio direto ao governo sírio nos últimos anos de uma sangrenta guerra civil que estalou em março de 2011, já avisaram que o ataque com mísseis pode minar a luta global contra o terrorismo.

"Este [ataque] pode ser visto como um ato de agressão dos EUA contra uma nação da ONU", diz Viktor Ozerov, líder da comissão de defesa do conselho de segurança da federação russa, citado pela agência RIA Novosti.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia também já reagiu, dizendo ser "óbvio que o ataque dos EUA com mísseis-cruzeiro foi preparado" antes do ataque químico de quarta-feira. "É claro para qualquer especialista que Washington tomou a decisão de atacar mesmo antes dos eventos em Idlib, que só foram usados como pretexto para uma demonstração de força", acusou o ministério em comunicado.

O Pentágono garante que o exército russo foi informado de antemão e, em comunicado, garantiu ter como objetivo exclusivo destruir equipamentos e infraestruturas de guerra do governo Assad para limitar as suas capacidades de lançar ataques contra civis, químicos ou convencionais. No documento, é ainda garantido que Washington não tinha intenção de atingir quaisquer tropas, sírias ou russas, que estão estacionadas naquela base.

O governador da província de Homs disse à AFP esta manhã que, para já, ainda não é possível identificar a extensão dos danos provocados. O Observatório Sírio de Direitos Humanos diz que pelo menos quatro soldados sírios terão morrido no ataque dos EUA. A televisão estatal russa também garante que "há mortos e feridos".

O ataque acontece a poucos dias de uma visita oficial de Rex Tillerson, chefe da diplomacia norte-americana, a Moscovo — uma viagem que está marcada para a próxima terça-feira e que pode vir a ser cancelada agora que o governo russo fala em "danos profundos" nas relações com os EUA.

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