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Expresso

Filantropia e ciência: mais do que um aperto de mãos

O avanço científico tem sido e continuará a ser uma das maiores alavancas para o crescimento, desenvolvimento e bem-estar social. Além do efeito catalisador de criação de mais conhecimento, a investigação salva vidas, aumenta a produtividade e cria emprego.

Tradicionalmente, grande parte do financiamento para a investigação fundamental vem do setor público. A natureza da produção científica, que tem características de bem público, ou seja provoca externalidades positivas para a população em geral, assim o justifica. Tome-se o exemplo da descoberta de novas vacinas. O setor privado ao decidir investir na investigação de novas vacinas tem em consideração a rentabilidade que a venda destas poderá gerar, mas, em geral, ignora as externalidades causadas, ou seja, as vantagens para a população no seu todo, mesmo para os que escolham não adquirir a vacina. Ao subestimar as externalidades positivas, o setor privado efetuará decisões de investimento que são sub-ótimas do ponto de vista social, isto é, ficarão aquém do que seria desejável.

Apesar do financiamento público ser a fonte de financiamento mais comum para a investigação científica fundamental, na última década, sobretudo nos Estados Unidos, tem-se observado um papel cada vez maior da filantropia (empresarial) na produção de conhecimento científico. No entanto, muitos cientistas ainda desconhecem esta realidade. E muitos há que, dela tendo conhecimento, desconfiam, acreditando que é melhor erguer um muro a separar o mundo científico do mundo dos negócios.

A filantropia tem-se alterado dramaticamente nos últimos anos. Inicialmente, a filantropia tinha uma forma assistencialista, ou seja, consistia em ações geralmente de origem religiosa ou que resultavam do altruísmo individual ou de famílias mais abastadas que pretendiam assim minimizar o sofrimento dos que necessitavam de bens mais básicos, como a alimentação, vestuário e abrigo. Consistiam então em ajudas imediatas com o intuito de alterar o bem-estar dos indivíduos com maiores necessidades, procurando ao mesmo tempo satisfazer as necessidades de demostração de altruísmo por parte dos benfeitores.

Progressivamente, começam a aparecer novos benfeitores. Aqueles que não visam apenas que as suas benesses tenham um impacto no imediato, mas que pretendem um investimento na sociedade e buscam o desenvolvimento mais a longo prazo. Estes filantropos veem na ciência e na produção de conhecimento científico a forma de melhor contribuírem para a sociedade.

Mais, existe cada vez mais uma filantropia que financia projetos desenvolvidos por investigadores em parceria com populações locais, por exemplo com o objetivo de criar soluções produtivas e inovadoras para as comunidades. É o chamado investimento social de impacto que busca promover alterações sociais através do empreendedorismo e dispositivos de mercado. Existem também as parcerias em projetos de investigação de alto risco mas com grande potencial comercial, como por exemplo, a investigação para a descoberta da cura do cancro.

A filantropia empresarial dirigida à ciência é de certa forma antiburocrática e permite flexibilizar o sistema académico e multiplicar capitais, mas não está isenta de problemas. Várias são as indústrias que financiam estudos destinados a alcançar conclusões pré-concebidas que reforcem a reputação de seus produtos. Destacam-se as empresas de alimentos que patrocinam investigação com o intuito de cientificamente justificar os benefícios dos seus produtos e os tornarem mais credíveis. Há que também ter em atenção as estratégias que algumas indústrias usam para justificar o financiamento em determinadas áreas científicas, nomeadamente a criação de “grupos de intervenção” que disseminam e defendem ideias que não estão comprovadas cientificamente. Por exemplo, o grupo “Citizens for Fire Safety (CFS)“, criado nos Estados Unidos em 2007, que não foi mais do que um lobby da indústria química que se opunha à regulação do uso e venda de determinados químicos. Este grupo defendia a aplicação em mobiliário e vestuário de produtos químicos que retardam o efeito das chamas em caso de incêndio. Os efeitos ao nível da segurança nunca ficaram comprovados e o grupo foi dissolvido em 2012.

Não tenho dúvidas que a academia deve receber estes filantropos de braços abertos, e que a nova filantropia não tenha de estar completamente dissociada de interesses de mercado, mas há que não esquecer os princípios básicos, quer da produção de conhecimento, que deve ser isento de manipulações, quer da própria filantropia, que no fundo não é uma forma de gestão ou negócio, mas uma contribuição social.