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“Anos de tentativas para mudar o comportamento de Assad falharam”

JIM WATSON

Assim declarou Donald Trump na sua casa de férias transformada em segunda Casa Branca em Mar-a-Lago, na Florida, ao anunciar que ordenou o lançamento de 59 mísseis contra uma base aérea das forças sírias. Rússia diz que “ato de agressão” prejudica em muito as relações bilaterais com os EUA

O Presidente Donald Trump anunciou na quinta-feira à noite, madrugada desta sexta-feira em Portugal, que os EUA executaram um ataque com mísseis contra uma base aérea das forças leais a Bashar al-Assad tida como a origem de um ataque com armas químicas que a administração norte-americana atribui ao governo sírio, um que vitimou mais de 80 civis na província de Idlib, entre eles dezenas de crianças.

"Esta noite, ordenei um ataque militar contra uma base aérea da Síria de onde o ataque químico foi lançado", disse Trump na sua casa de férias tornada Casa Branca alternativa em Mar-a-Lago, na Florida, onde ontem e hoje está a reunir-se com o Presidente da China, Xi Jinping.

"É do interesse vital da segurança nacional dos EUA prevenir e dissuadir a disseminação e uso de armas químicas mortíferas. Anos de anteriores tentativas para alterar o comportamento de Assad falharam, e falharam de forma muito dramática", declarou aos jornalistas. "Como resultado, a crise dos refugiados continua a aprofundar-se e a região continua a ficar destabilizada e a representar uma ameaça aos Estados Unidos e aos seus aliados."

Ao lado de Trump à hora do anúncio estavam Steve Bannon, chefe de estratégias da Casa Branca que, na quarta-feira, perdeu o seu assento na comissão organizadora do Conselho de Segurança Nacional; Reince Priebus, o seu chefe de gabinete; Ivanka Trump, a sua filha mais velha que acabou de assumir um posto de trabalho não-pago na administração, e outros conselheiros do Presidente.

Logo a seguir, o Pentágono confirmou em comunicado que tinha acabado de disparar 59 mísseis-cruzeiro Tomahawk contra a base aérea de Al-Shayrat; os mísseis tiveram como alvo caças, radares, bunkers de armazenamento de munições, depósitos de combustível e sistemas de defesa aérea do regime sírio.

Esta é a primeira vez desde o início da guerra civil na Síria, em março de 2011, que a Casa Branca ordena ações militares diretas contra as forças leais a Bashar al-Assad.

Aos jornalistas, o porta-voz do Departamento de Defesa, o capitão Jeff Davis, garantiu que a Rússia, grande aliada de Bashar al-Assad, foi notificada a priori de que o ataque ia ser lançado. "As forças russas foram avisadas de antemão sobre este ataque. Os estrategos militares tomaram todas as precauções para minimizar os riscos [de atingirem] pessoal russo ou sírio destacado na base."

À hora do ataque, acrescentou Davis, não havia aviões russos ali estacionados. "Estamos a analisar os resultados do ataque. Indicações iniciais apontam que danificou severamente ou destruiu completamente aviões, equipamento e infraestruturas de apoio das forças sírias na base de Shayrat, reduzindo as capacidades do governo sírio para distribuir armas químicas", acrescentou.

Os primeiros mísseis-cruzeiro atingiram a base pelas 20h40 de Washington, madrugada desta sexta-feira na Síria, e a eles seguiram-se novos lançamentos de mísseis a cada três ou quatro minutos. Segundo o capitão Davis, os mísseis foram lançados a partir dos contratorpedeiros Porter e Ross que os EUA têm atracados no Mediterrâneo por causa da guerra na Síria, atualmente no seu sétimo ano consecutivo.

Talal Barazi, governador de Homs, a província onde está instalada a base aérea de al-Shayrat

Talal Barazi, governador de Homs, a província onde está instalada a base aérea de al-Shayrat

LOUAI BESHARA

À Reuters, Talal Barazi, governador da província de Homs onde a base atingida fica localizada, disse que as ambulâncias e os bombeiros continuavam esta manhã a tentar apagar os fogos criados na base aérea. "Vai levar algum tempo até se determinar a extensão dos danos", acrescentou à AFP.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, que monitoriza a guerra na Síria a partir de Londres com recurso a informações de testemunhas no terreno, avança esta manhã que pelo menos quatro soldados sírios morreram no ataque da madrugada. A televisão estatal russa também garante que "há mortos e feridos".

Fontes da administração norte-americana citadas pelo "New York Times" descrevem o ataque ordenado por Trump como uma mensagem gráfica ao mundo de que o Presidente dos EUA já não ficar parado sem fazer nada enquanto Assad usa armas químicas na longa guerra civil no seu país. Ficar parado seria abençoar essas ações de Assad e de outros que possam vir a usá-las.

"Isto indica claramente que o Presidente está disposto a tomar ações decisivas quando elas são necessárias", sublinhou o secretário de Estado, Rex Tillerson, também em Mar-a-Lago. "Quanto mais falharmos em responder ao uso deste tipo de armas [químicas], mais começamos a normalizá-lo", acrescentou, numa referência indireta à decisão de Barack Obama não responder ao outro ataque com armas químicas executado pelo governo sírio em 2013.

Anfitrião do encontro com Xi Jinping, Rex Tillerson também estava em Mar-a-Lago à hora do anúncio

Anfitrião do encontro com Xi Jinping, Rex Tillerson também estava em Mar-a-Lago à hora do anúncio

Joe Raedle

Aos jornalistas, Tillerson disse ainda que os EUA não tinham informado o Presidente russo, Vladimir Putin, sobre o ataque que ia ser lançado nem Trump falou com o homólogo nas horas seguintes. A informação contradiz as declarações do capitão Davis sobre os russos terem sido informados de antemão.

Avança o NYT que a decisão de Trump apanhou os observadores de surpresa; quando foi informado sobre o ataque químico desta semana em Idlib, um que os russos dizem ter sido uma consequência indireta de as forças sírias terem atingido um depósito de armas rebeldes onde havia químicos proibidos armazenados, as agências secretas norte-americanas começaram a trabalhar com os aliados para confirmar a origem deste ataque químico.

No dia a seguir ao ataque, em Washington, o Presidente convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional (CSN), na qual os seus conselheiros militares lhe apresentaram três alternativas de reação. Fontes presentes na reunião de quarta-feira dizem que Trump fez muitas perguntas e pediu à equipa que se concentrasse em duas dessas três opções.

Ontem, Trump viajou para a Florida para jantar com Xi Jinping e ali voltou a reunir-se com os conselheiros para um "encontro decisivo" que os seus assessores dizem ter tido uma "duração considerável" à qual se seguiram as ordens do Presidente, mesmo antes de se sentar à mesa com o líder chinês.

H. R. McMaster, diretor do Conselho de Segurança Nacional, à chegada ao Pentágono

H. R. McMaster, diretor do Conselho de Segurança Nacional, à chegada ao Pentágono

NICHOLAS KAMM

Citado pelo jornal nova-iorquino, o general H. R. McMaster, atual chefe do CSN, disse que foi "importante durante as deliberações do Presidente" analisar os riscos de se fazer alguma coisa contra "o risco destes ataques contínuos, desumanos e flagrantes contra civis inocentes com armas químicas".

Fonte do Exército garante que o lançamento dos 59 Tomahawk era a opção mais limitada daquelas que foram apresentadas pelo secretário da Defesa, Jim Mattis, a Trump. A mesma fonte diz que o ataque teve como objetivo enviar um sinal a Assad sobre a intenção dos EUA usarem a força militar se ele continuar a usar armas químicas.

A rapidez com que a administração Trump respondeu ao alegado ataque com armas químicas do governo sírio pareceu ter como objetivo "maximizar o elemento de surpresa", aponta o NYT, num claro contraste com o escrutínio metódico do anterior governo norte-americano de possíveis respostas militares.

Os analistas apontam que a decisão também serve para enviar uma mensagem à Coreia do Norte, ao Irão e a outros arquirrivais dos EUA de que a nova administração norte-americana está preparada para atuar militarmente — algo que Trump já sugeriu que pode vir a fazer contra Pyongyang por causa dos seus programas nucleares e de mísseis balísticos, centrais nos encontros de ontem e hoje com Xi.

O ataque contra a base aérea síria foi aplaudido pelo governo de Israel e pelos senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham, que em comunicado pediram ao Presidente para ir mais longe — para "tirar completamente a força aérea de Assad, que é responsável não só pelo último ataque com armas químicas mas por inúmeras atrocidades cometidas contra o povo sírio, do conflito".

A Rússia, pelo contrário, condenou o "ato de agressão", dizendo que "viola a lei internacional" e que "danifica em muito" as relações bilaterais Moscovo-Washington. Na próxima terça-feira, Tillerson tem encontro marcado com as autoridades de Putin em Moscovo e o ataque desta madrugada ao grande aliado da Rússia no Médio Oriente também serve como forma de pressão antes dessas reuniões.

Note-se que a decisão de lançar mísseis contra a base de al-Shayrat representa uma mudança total na postura da administração Trump, que há menos de uma semana disse que derrotar Assad já não era uma prioridade dos EUA. Durante a campanha eleitoral, o empresário que venceu as primárias republicanas antes de ser eleito Presidente tinha pedido várias vezes a Obama que evitasse qualquer tipo de ataque ao regime sírio como aquele que acabou de ordenar.

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