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A nova intriga americana: porque é que o Bannonismo saiu de cena, agora e assim?

Bannon, um homem polémico. E agora excluído do Conselho de Segurança dos EUA. Ainda não se sabe bem porquê

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A retirada do conselheiro mais radical de Donald Trump do Conselho de Segurança Nacional está a alimentar rumores de que já foi chutado para canto pela administração. Os seus aliados falam numa “evolução natural”, outras fontes dizem que o Presidente cedeu à pressão da filha Ivanka e do genro, Jared Kushner, já classificado como “o próximo Bannon”

O Bannonismo traz manchetes mas não traz votos no Congresso. Assim ditou o “Wall Street Journal” (WSJ) no final de fevereiro, num editorial dirigido a Donald Trump, onde o Presidente era avisado de que manter Steve Bannon ao seu lado vai custar-lhe toda a sua agenda política.

Nele, o diretor da campanha presidencial republicana tornado conselheiro do Presidente era descrito como o arquiteto da estratégia de crescente polarização da Casa Branca, dividida desde a tomada de posse entre os funcionários federais experientes “do sistema” e a casta de ideólogos (e familiares) que o empresário Trump trouxe consigo para a Avenida Pensilvânia em janeiro.

Nele, o WSJ responsabilizava Bannon pelos “maiores erros das primeiras cinco semanas” da administração e avisava que já havia republicanos a distanciarem-se da presidência por causa dele — um homem próximo da extrema-direita (ou “direita alternativa”), autoproclamado “nacionalista económico”, “revolucionário virulentamente antissistema” e um “leninista” com orgulho. “Lenin queria destruir o Estado e é esse o meu objetivo também”, confidenciou em 2013 a Ronald Radosh, um historiador americano que dedicou a sua carreira a estudar a ex-União Soviética e o comunismo. “Quero que tudo se desmorone, quero destruir o sistema.”

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Os republicanos “do sistema” foram os primeiros a tentar acabar com a proximidade de Donald Trump ao ex-CEO do Breitbart News, o principal site da extrema-direita que lhes aponta a mira tanto quanto aos democratas liberais. Quando o Presidente lhe ofereceu o cargo de chefe de estratégias da Casa Branca, vários membros de alto nível do partido tentaram demovê-lo mas não conseguiram, e os receios de mais divisões no governo ganharam força logo a seguir, quando Trump deu a Bannon um assento na comissão diretora do Conselho de Segurança Nacional (CSN).

Foi a primeira vez que uma pessoa sem qualquer experiência política ou militar foi nomeada para o organismo, um grupo de homens e mulheres escolhidos (e mantidos) pelas sucessivas administrações para aconselharem o Presidente em matéria de guerra e de paz. Trump tomou posse a 20 de janeiro, pôs Bannon no CSN a 28 de janeiro — já os media se referiam ao conselheiro de 63 anos como o Rasputin e o “cérebro” do Presidente— e nove semanas depois, quarta-feira, Trump retirou-o de lá.

A especulação não tardou, num rol de potenciais explicações para a decisão inesperada, à cabeça o facto de Ivanka Trump e o marido, Jared Kushner, se terem incompatibilizado com ele. “Nos bastidores”, dizem fontes da Casa Branca ao “New York Times”, “o ideólogo que em tempos angariou a confiança do Presidente foi encontrando cada vez mais opositores à medida que outros conselheiros, incluindo a filha e o genro do Presidente, se foram queixando [...]. Ultimamente, Bannon tinha vindo a estar manifestamente ausente de algumas reuniões. E agora perdeu o seu assento à mesa da segurança nacional”.

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O “New York Times” fala num passo “amplamente visto como um sinal de mudança do destino” da administração, um que todos concordam terá resultado das pressões de H. R. McMaster, o general que substituiu Michael Flynn na chefia do CSN. Aliados de Bannon garantem que ele só foi posto no conselho para manter Flynn debaixo de olho e que a sua saída é uma “evolução natural”, depois de o general republicano de currículo questionável ter sido forçado a demitir-se ao 25.º dia por causa de contactos ilegais com o embaixador russo em Washington.

Como apontava esta quinta-feira de manhã o “Haaretz”, “o pano de fundo da remoção de Bannon — rebaixado independentemente do que a Casa Branca disser — vai tornar-se claro ao longo dos próximos dias”. Pode ou não ter que ver com as investigações em curso às alegadas ligações da equipa de Trump ao governo de Vladimir Putin e “pode ser vista como uma vitória para Jared Kushner, o genro de Trump cada vez mais poderoso e com mais visibilidade, que tem tentado afastar Trump das visões de Bannon e das tendências dele para a direita alternativa”, sugere o jornal israelita.

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Para a Vox, Kushner pode bem ser o próximo Steve Bannon. Enquanto o último foi caindo a pique na Casa Branca, o primeiro foi subindo na consideração do Presidente que também é o seu sogro. Nas últimas semanas, passou a acumular pastas tão distintas como a questão israelo-palestiniana e as relações bilaterais com o México e a China com a chefia de um grupo de trabalho para melhorar a eficiência governamental.

Era isso que Bannon estava a tentar fazer, nas suas palavras “destruir o sistema administrativo”, através do “Grupo de Iniciativas Estratégicas”, que criou no CSN com o aval de Trump. Há alguns dias, a equipa do Presidente desmentiu que o grupo algum dia tenha existido, apesar de vários jornalistas terem avistado um gabinete na ala oeste precisamente com esse nome. Este será talvez o mistério menos interessante dos que ainda estão por desvendar, entre eles porque é que saiu de cena, agora e assim.