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Aung San Suu Kyi desmente que minoria Rohingya esteja a ser alvo de “limpeza étnica¨

Spencer Platt

Apreciação é “demasiado forte” para definir os abusos cometidos contra a minoria muçulmana no norte da Birmânia, diz a Nobel da Paz em entrevista à BBC

Aung San Suu Kyi desmente que esteja em curso uma limpeza étnica da minoria muçulmana Rohingya em Myanmar (antiga Birmânia), apesar do amontoar de relatos de abusos cometidos pelo Exército e pela maioria budista do país. Numa entrevista exclusiva à BBC, a Nobel da Paz, cuja Liga Nacional para a Democracia (LND) venceu as eleições gerais em 2016 – as primeiras livres e democráticas em décadas – reconhece que há problemas no estado de Rakhine, no norte do país, onde a minoria vive concentrada. Mas diz que a expressão "limpeza étnica" é um termo "demasiado forte" para definir o que se passa.

"Não penso que esteja em curso uma limpeza étnica. Penso que limpeza étnica é uma expressão demasiado forte para definir o que está a acontecer. Penso que há muita hostilidade [em Rakhine] e também são muçulmanos a matar muçulmanos, se eles acharem que outros estão a cooperar com as autoridades", refere Suu Kyi, recorrendo à versão oficial do Exército de que são os Rohingya que pegam fogo às suas próprias aldeias e que matam alegados informadores. "Isto não é apenas uma questão de limpeza étnica como a coloca", acrescentou na conversa com o correspondente especial da BBC Fergal Keane. "É uma questão de haver pessoas em lados diferentes de uma linha divisória que estamos a tentar eliminar."

Impedida de ser Presidente após alterações à Constituição pela Junta Militar que manteve uma ditadura na Birmânia durante meio século, Suu Kyi é tida como a líder de facto do país e o seu silêncio perante as atrocidades cometidas contra os Rohingya tem alimentado muitas críticas de organizações não-governamentais. Quando a LND venceu as eleições, houve muitos pedidos à secretária-geral do partido para que alterasse a legislação em vigor com o objetivo de garantir o mínimo de direitos à minoria Rohingya – muçulmanos étnicos que não têm direito a cidadania na Birmânia, onde são classificados como imigrantes ilegais oriundos do Bangladesh apesar de haver registos que apontam para a existência desta comunidade no país há várias décadas.

As pessoas da comunidade são perseguidas há décadas e enfrentam discriminação diária da parte das autoridades e da maioria budista do país, com dezenas de milhares delas a viverem em campos improvisados dentro do país desde 2012, na sequência de episódios de violência entre muçulmanos e budistas. Nos últimos meses, e por causa de uma operação militar das autoridades birmanesas em Rakhine, cerca de 70 mil Rohingya tiveram de fugir para o Bangladesh, onde também não lhes são reconhecidos e a partir de onde denunciaram graves violações de direitos humanos cometidas pelo Exército e por civis desde outubro.

Dezenas de milhares de Rohingya já fugiram para o Bangladesh, incluindo muitas crianças e mulheres

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Allison Joyce

No mês passado, a ONU anunciou a abertura de uma investigação às alegações de que o Exército atacou indiscriminadamente a população Rohingya ao longo dos últimos meses, com os militares a serem acusados de violações em grupo, de queimarem bebés vivos e de executarem muçulmanos que tentam falar com a imprensa. Para muitos, o silêncio de Suu Kyi danifica a sua reputação como ativista pelos Direitos Humanos que viveu em prisão domiciliária, durante 15 anos, por se opôr publicamente à Junta Militar e por lutar pela democracia. A pressão internacional tem estado a aumentar, mas na entrevista desta quinta-feira à BBC a Nobel da Paz garante que não há problemas tão graves como "limpeza étnica" em curso contra os Rohingya e que estes podem voltar para a Birmânia assim que queiram.

"Esta questão já tem vindo a ser respondida desde 2103, quando a última ronda de problemas estalou em Rakhine. Eles [jornalistas] colocaram-me questões e eu respondi-lhes e as pessoas disseram que eu não disse nada – só porque eu não disse aquilo que as pessoas queriam, nem fiz o que queriam que fizesse, que era simplesmente condenar uma comunidade ou outra."

Questionada sobre os ataques coordenados em Rakhine em outubro, que resultaram na morte de nove agentes da polícia e que fizeram estalar a "operação de segurança" do Exército naquele estado, em curso entre outubro e fevereiro, Suu Kyi disse não ter ideia da origem e intenções desses ataques, sugerindo que podem integrar-se numa campanha para minar as tentativas de negociações de paz entre o Estado da Birmânia e os vários grupos étnicos insurgentes armados que operam no país.

O International Crisis Group (ICG) avançou em dezembro que os ataques foram executados por emigrantes Rohingya treinados e financiados pela Arábia Saudita e outros países, no que constitui uma novidade na luta Rohingya pela autodeterminação, a primeira vez que pegam em armas. Na altura, o think tank alertou que continuar a discriminar a minoria muçulmana pode levar o Harakah al-Yaqin (HaY, “Movimento de Fé” em árabe), para já apenas concentrado em defender os direitos humanos da sua comunidade, a radicalizar-se ou a ser instrumentalizado por outros grupos radicais.

Na entrevista com a BBC, Suu Kyi nega que o Exército tenha carta branca para fazer o que quer. "Eles não são livres de violar, de pilhar e de torturar. Eles são livres para entrarem [em Rakhine] e lutarem, é o que está na Constituição. Os assuntos do Exército devem ser geridos pelo Exército." Os militares da antiga Junta continuam a controlar um quarto do Parlamento e importantes ministérios, apesar das eleições de 2016, e Suu Kyi diz ter esperança de que o governo possa voltar a reaver o controlo sobre as forças armadas até ao fim do mandato da LND, que, diz, tem alcançado grandes progressos desde a chegada ao poder em março de 2016.

A prioridade número um do governo de Suu Kyi, a de criação de empregos, teve grande impulso com o recente investimento em estradas, pontes e no alargamento da rede elétrica a várias comunidades da Birmânia, refere a líder, com melhorias também no sector da saúde e com mais eleições livres a terem lugar no país. Entre as suas outras prioridades, contam-se criar a paz numa nação que esteve quase sempre mergulhada num estado de guerra civil desde a sua independência do Reino Unido, em 1948.

O governo de Suu Kyi também não exclui a possibilidade de vir a dar cidadania aos que a viram ser negada pela Junta Militar ao longo de décadas, entre eles a minoria Rohingya. Quanto aos que já fugiram para o Bangladesh e outros países da região, a Nobel garante: "Se eles voltarem será seguro. Cabe-lhes a eles decidir, alguns já voltaram. Nós damos-lhes as boas-vindas e vamos aceitá-los de volta."