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Internacional

Rebeldes apoiados pelo Ocidente criam nova aliança para manterem controlo do norte da Síria

Rebeldes "moderados" participaram na ofensiva militar da Turquia para obrigar o Daesh a bater em retirada da fronteira

NAZEER AL-KHATIB

Fontes do Exército para a Libertação da Síria dizem à Al-Jazeera que os EUA retomaram parcialmente o financiamento de grupos rebeldes “moderados” que têm estado a combater as forças leais a Bashar al-Assad desde 2011

Vai nascer uma nova aliança militar de grupos rebeldes no norte da Síria que tem como objetivo consolidar o controlo da província de Idlib, da parte ocidental de Alepo e de várias partes da província de Latakia. A informação está a ser avançada pela Al-Jazeera esta terça-feira com base em duas fontes do Exército para a Libertação da Síria (ELS), um dos grupos da oposição tidos como "moderados" que, ao longo dos últimos seis anos de guerra, têm merecido o apoio da coligação internacional liderada pelos EUA.

As fontes garantem que a nova operação militar, em fase de debate dentro do ELS, vai ser apoiada pelos "Amigos da Síria", a coligação que integra EUA, Turquia, nações da Europa Ocidental e Estados do Golfo, que tem estado a prestar apoio às operações militares da Frente Norte (MOM, no acrónimo turco). O comandante do ELS que avançou as informações ao canal qatari garante que o grupo continua a ter como exclusivo objetivo combater as forças leais ao Presidente Bashar al-Assad, desmentindo notícias recentes de que pretendem lançar uma ofensiva contra o Hay'et Tahrir al-Sham, uma aliança salafista dominada pela Jabhat Fatah al-Sham (ex-Frente al-Nusra), que em julho de 2016 mudou de nome e renunciou ao apoio da Al-Qaeda.

A mesma fonte confirmou que o apoio financeiro e logístico a fações rebeldes que atuam no norte da Síria, congelado pela CIA em fevereiro, já foi parcialmente restaurado pelos Estados Unidos. Outra fonte do ELS diz que a Turquia e os EUA ainda estão a decidir em que moldes vai ser criado este novo comando das forças rebeldes sírias, referindo que todas as fações anti-Assad estão a ser incentivadas a juntar-se à iniciativa. Essa mesma fonte diz que, em janeiro, a CIA deu ordens ao ELS e a outros grupos financiados pelos norte-americanos para que não participassem nas conversações de paz em Astana, capital do Cazaquistão, patrocinadas pela Rússia aliada de Assad e que integraram delegações da Turquia, do Irão e do governo sírio (nenhuma autoridade norte-americana participou no encontro).

O ELS é um grupo que agrega vários grupos da oposição a Assad tidos como moderados. Anteriores tentativas para criar uma frente unida de combate ao regime sírio falharam, sobretudo na sequência de desentendimentos internos e do surgimento de fações opostas dentro do grupo de soldados sírios que desertaram do Exército. Entre os grupos que deverão integrar o novo comando, avança a Al-Jazeera, conta-se o Failaq al-Sham e também três fações já afiliadas ao ELS: Tajamo Fastaqim, Jaish al-Mujahideen e Jaish Idlib. Fadlallah Hahi, chefe do Failaq al-Sham, já foi escolhido para liderar o novo grupo.

O anúncio de um novo comando operacional rebelde surge dias depois de Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano, se ter encontrado com o Presidente Recep Tayyip Erdogan e outras autoridades turcas em Ancara e depois de, no final da semana passada, o primeiro-ministro Binali Yildrim ter anunciado o fim da operação Escudo Eufrates na fronteira sírio-turca – deixando nas entrelinhas que futuras missões no terreno poderão contar com a participação do país.

Especialistas consultados pela Al-Jazeera apontam que é possível que este comando unificado tenha surgido no âmbito das negociações EUA-Turquia nas quais os dois países também estão a tentar definir a participação de forças sírias apoiadas pela Turquia na batalha por Raqqa, último grande bastião urbano do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na Síria.

Ancara e Washington têm falhado em alcançar um acordo sobre a melhor forma para atuar contra o Daesh na Síria e reconquistar Raqqa ao grupo radical. A Turquia condena o facto de os EUA estarem a apoiar as Forças Democráticas da Síria (FDS), um grupo rebelde sírio em larga medida composto pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG), curdas e que o governo turco classifica de "organização terrorista". Erdogan teme que potenciais vitórias das YPG e das FDS em Raqqa vá dar mais força aos separatistas do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta há várias décadas pela autodeterminação da minoria curda na Turquia. Oficialmente, o Presidente turco alega que deixar os curdos dominarem Raqqa será problemático numa cidade de maioria árabe.

Em março, os EUA destacaram tropas para Manbij, a leste do território controlado pelas forças turcas e os seus aliados do ELS no norte da Síria, com o intuito de travar os avanços do Daesh para oriente mas também de impedir confrontos entre a barricada turca e os curdos das FDS.

Segundo Abdul Majeed Barakat, conselheiro político do ELS que participou na operação Escudo Eufrates, a Turquia tem há já algum tempo um plano alinhavado para unificar os grupos rebeldes armados numa frente que vai chamar-se Al-Jaish Al-Watani ou Jaish Al-Tahrir, à qual Ancara pretende atribuir a liderança da segunda fase de operações na Síria. O principal objetivo é manter o controlo de Idlib – província onde, esta terça-feira, um alegado ataque químico do governo sírio ou da aviação russa provocou pelo menos 35 mortos por asfixiamento. Barakat garante que a capital turca já foi palco de uma série de encontros entre as autoridades do país e os comandantes das forças rebeldes sírias para discutir esta possibilidade.