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Internacional

BP corta €5 milhões na remuneração do seu CEO. Fica só a ganhar 12 milhões

BEN STANSALL/GETTY

É um efeito da revolta acionista verificada no ano passado, e que ameaçava repetir-se em 2017

Luís M. Faria

Jornalista

Doze milhões de libras (14 milhões de euros) anuais parece um bom salário. Mas Bob Dudley e os seus pares achavam que no caso dele devia ser mais. O CEO da empresa petrolífera BP ia ganhar acima de 17 milhões de libras (20 milhões de euros) em 2017, e isso só não acontecerá devido a conjunção de dois fatores invulgares. Um foi uma tomada de posição sobre o assunto – em termos gerais, não especificamente sobre a BP – por parte da primeira ministra britânica. Outra foi a revolta dos acionistas da BP, que o ano passado votaram maioritariamente contra o pacote remuneratório de Dudley (18 milhões) e constataram que não serviu de nada, pois o voto era meramente consultivo.

Este ano, as regras mudaram e a opinião dos acionistas já é vinculativa. Para evitar que a cena do ano passado se repita na Assembleia Geral, o comité de remunerações decidiu baixar a "compensação" de Dudley. Em vez de 17.4 milhões de libras, ele vai receber apenas 12.2, incluindo salário base, bónus anual e prémios em forma de acções diferidos ao longo dos próximos anos. O montante dos bónus e dos prémios dependerá dos resultados financeiros da empresa. Reforçar essa ligação é uma das reivindicações principais de muitos acionistas, bem como de organizações que lutam por níveis de pagamento mais razoáveis para os executivos de topo, em especial nas maiores empresas.

Nas últimas décadas, a remuneração dos CEO e dos outros executivos cresceu brutalmente, e em desproporção muito acentuada quer com o rendimento das empresas, quer com os níveis salariais de quem ganha menos lá dentro. Não é invulgar um CEO receber um salário 300 vezes superior ao de um empregado. Para efeitos de comparação, nos anos sessenta a média rondava um para vinte. Uma diferença ainda grande, que vários gurus da gestão consideravam dever ser a máxima permitida, pois acima dela corria-se o risco de o ambiente nas empresas começar a ficar envenenado.

Os contribuintes pagam, os CEOs recebem

A desigualdade no Reino Unido é das maiores em toda a Europa. Na sequência de situações em que executivos, em especial de bancos, receberam pacotes remuneratórios extremamente elevados na mesma altura em que as suas empresas tiveram de ser resgatadas pelo Estado com custos enormes para os contribuintes, a primeira ministra Theresa May anunciou o ano passado que as regras iam ser revistas. Uma das ideias aventadas, a inclusão de trabalhadores dos órgãos diretivos das empresas, foi afastada logo à partida. Mas continuaram na agenda medidas para aumentar a transparência, entre as quais a obrigação de publicar o ratio entre os ordenados mais altos e os mais baixos dentro das empresas.

Outra medida é a atribuição de poder vinculativo às decisões dos acionistas em assembleia, pelo menos se eles votarem contra as remunerações em mais do que um ano. Num ambiente em que se procura introduzir um pouco mais de justiça no sistema, e estabelecer uma proporção mais adequada entre os resultados e os níveis de remuneração, a BP resolveu antecipar-se e tomar a iniciativa. Poderá ter ajudado o facto de os resultados da empresa terem voltado a subir, após um famoso desastre ao largo da costa americana que lhe custou milhares de milhões de dólares há uns anos.

Com os lucros outra vez em alta, a probabilidade de os executivos receberem bónus ligados à performance tornou a ser elevada. E assim, os responsáveis decidiram que tinham margem para reduzir os incentivos a Bob Dudley. Os prémios de incentivo, em vez de equivalerem a sete vezes do seu salário anual, limitam-se ao quíntuplo. Quanto ao bónus anual, não poderá exceder os 225% do salário. Isto durante os próximos três anos. Não parece muito, mas num mundo em que remuneração é estatuto e cada CEO faz tudo para evitar ficar atrás dos outros, já é progresso.