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Jornal regional do México fecha portas por causa de perseguição e homicídio de jornalistas

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O diretor do diário “Norte” informou os leitores da decisão numa carta de despedida intitulada “Adiós!”, publicada na capa da última edição em papel e na versão online do jornal, um de cinco até agora em circulação em Ciudad Juárez. Oscar Murguia explica que a onda de homicídios de repórteres no país tornou o trabalho de investigação e denúncia demasiado perigoso

Foi anunciado este fim de semana que um jornal regional da cidade mexicana de Juárez, na fronteira com os Estados Unidos, vai sair de circulação por causa da onda de homicídios de jornalistas no país, crimes que na sua maioria ficam por resolver e que tornaram o trabalho dos repórteres demasiado perigoso. Assim explica Oscar Cantu Murguia, diretor do "Norte", numa carta de despedida intitulada "Adiós!", na primeira página da última edição em papel e que foi igualmente publicada na versão online do jornal diário.

Na missiva, Murguia explica que a decisão foi tomada no rescaldo do homicídio de Miroslava Breach em Chihuahua, cidade do estado com o mesmo nome onde também está localizada Ciudad Juárez. A jornalista, que trabalhava para o jornal nacional "La Jornada" e que colaborava com o "Norte", foi abatida com oito tiros dentro do carro em frente à sua casa, a 23 de março. Os responsáveis deixaram um recado onde se lia que foi abatida "por fazer barulho". À hora do ataque, um dos filhos de Breach estava no carro com ela (não tendo sido alvejado).

"Neste dia, estimado leitor, dirijo-me a si para lhe dizer que tomei a decisão de encerrar este jornal, entre outras razões porque não há nem garantias nem segurança para exercer um jornalismo crítico e equilibrado", explica Murguia na missiva. "Nestes 27 anos remámos contra a maré, angariando ataques e castigos de indivíduos e de governos por expormos as suas más práticas e atos corruptos. Tudo na vida tem um início e um fim, um preço a pagar. Se isto é a vida, não estou preparado para que mais colaboradores nossos paguem o preço, nem que eu próprio o pague." Na carta, o diretor editorial promete continuar "a lutar a partir das trincheiras" e "a ser leal aos meus ideais e à minha cidade".

Um porta-voz do "Norte" disse ao "The Guardian" que o website vai continuar em funcionamento. O jornal em papel era um dos cinco diários até agora em circulação em Juárez, uma cidade com cerca de 1,3 milhões de habitantes, a par do "El Diário", do "El Mexicano", do "El PM" e do "Hoy". A tiragem do "El Norte" era de 30 mil cópias de segunda a quinta-feira e de 35 mil às sextas e aos sábados.

Pelo menos 38 jornalistas foram mortos no México desde 1992 por causa dos seus trabalhos de investigação, aponta o Comité de Proteção de Jornalistas (CPJ). O grupo sem fins lucrativos com sede em Nova Iorque diz que mais de 50 foram assassinados durante o mesmo período por motivos até hoje por apurar, potencialmente por serem incómodos para estes ou aqueles interesses. "A liberdade de expressão no México está claramente a atravessar uma crise profunda e abrangente", diz Carlos Lauria, coordenador do programa da CPJ para as Américas – essa crise, acrescenta, "está a afetar todos os mexicanos e não apenas os jornalistas", porque "o facto de um jornal estar a fechar priva as pessoas da informação de que precisam para tomarem decisões informadas."

Março foi um mês particularmente negro para os jornalistas no país. Para além de Breach, pelo menos outros dois jornalistas foram mortos no mês passado, um no estado de Guerrero e outro no de Veracruz, dois epicentros da violência entre cartéis da droga. Um outro jornalista baleado em Poza Rica, no estado de Veracruz, a 29 de março, está internado em estado grave. Um quinto repórter sobreviveu a um ataque em San José del Cabo graças ao seu guarda-costas, que acabaria por morrer.