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Internacional

Há 25 anos na Áustria, vendedor turco é expulso do seu quiosque por não saber alemão suficiente

LOUISA GOULIAMAKI/GETTY

Os clientes querem-no lá, e os colegas da concorrência também. Mas o presidente da Câmara de Wiener Neustadt deplora-o e dá-o como exemplo da não-integração dos imigrantes

Luís M. Faria

Jornalista

Um turco que imigrou para a Áustria há 25 anos vai ter de abandonar a parte antiga de Wiener Neustadt, a cidade onde vive, por não saber bem alemão. Turgut Alihan, de alcunha ‘Kebab Ali’, só quer fazer a sua vida, como sempre fez. Mas as autoridades de cidade não o consideram integrado e vão impedi-lo de continuar a vender kebabs no seu quiosque. O presidente da Câmara, Klaus Schneeberger (do Partido do Povo, conservador), diz que ele é o género de pessoas de que “não precisamos”.

Turgut compreende que foi apanhado no meio de um futebol político e disse-o expressamente numa entrevista à Associated Press publicada esta segunda-feira. Também lembrou que quando viajou para a Áustria não havia os apoios que hoje (incluindo aulas de alemão) são disponibilizados aos novos imigrantes e refugiados, que estava mais preocupado com o modo de ganhar a vida e em levar para junto dele a sua família, e que os seus clientes querem mantê-lo onde está. Vários deles confirmam isso mesmo, tal como a mulher austríaca que gere o quiosque ao lado do seu e que o considera “parte de nós”.

Schneeberger não se comove. A cidade de Wiener Neustadt, 60 quilómetros a sul de Viena, tem 40 mil habitantes, dos quais um quinto são imigrantes. No ano passado, na sequência do golpe de Estado falhado na Turquia, apareceram bandeiras turcas em muitas janelas e o autarca ordenou que fossem retiradas. “Não vamos importar guerras políticas alheias”, explicou então. Agora, avança mais um passo: deplora a existência de escolas onde as crianças falam umas com as outras em turco, e quer expulsar quem não conseguir expressar-se num alemão aceitável.

Os clientes parece não terem qualquer dificuldade em entender 'Kebab Ali', e vice-versa. Mas o seu caso é o último episódio de uma relação cada vez mais tensa entre populações estrangeiras, geralmente muçulmanas, e alguns países do centro da Europa que durante décadas a seguir ao pós-guerra acolhiam os chamados “trabalhadores convidados” para fazer trabalhos que muitos alemães não queriam fazer.