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Gibraltar “não é uma moeda de troca” nas negociações, avisa chefe regional

JORGE GUERRERO

Ministro-chefe do território ultramarino diz que a população “quer continuar a ser britânica”, depois de Bruxelas ter sugerido que futuras decisões sobre a região devem passar pelo governo de Espanha

A população de Gibraltar "quer continuar a ser britânica" e rejeita que o território ultramarino seja usado como moeda de troca nas negociações de saída do Reino Unido da União Europeia. Assim declarou Fabian Picardo, ministro-chefe do governo regional de Gibraltar, depois de Bruxelas ter sugerido no seu guião para as negociações do Brexit que quaisquer futuras decisões relacionadas com o território devem passar por Espanha.

Este domingo, Theresa May tinha sublinhado que o seu governo está "empenhado" em manter o controlo sobre o território e que a soberania não está aberta a discussão. Contudo, no documento da União Europeia divulgado na sexta-feira lê-se que "depois de o Reino Unido deixar a União, nenhum acordo entre a UE e o Reino Unido pode aplicar-se ao território de Gibraltar sem que seja alcançado um acordo entre o reino de Espanha e o Reino Unido".

Para o governo regional de Gibraltar, Espanha está a manipular o Conselho Europeu para seu próprio benefício político, aproveitando-se da saída inédita do Estado-membro para conseguir angariar mais controlo sobre o território do reino britânico. "Que fique bem claro e que a mensagem chegue a Madrid, a Bruxelas e a todas as outras capitais da União Europeia: Gibraltar não é uma moeda de troca nestas negociações", sublinhou Picardo este4 domingo. "Gibraltar pertence aos gibraltinos e nós queremos continuar a ser britânicos."

Depois de May ter falado com o responsável local na tarde de domingo, um porta-voz do Executivo britânico sublinhou que "a primeira-ministra garantiu" que nunca irá "aceitar um acordo sob o qual a população de Gibraltar passe a estar sob a soberania de outro Estado contra os seus desejos, expressos de forma livre e democrática". May também deixou claro que não será encetado qualquer "processo de negociações sobre a soberania" de Gibraltar que não agrade a ambos. "A primeira-ministra disse que continuamos absolutamente dedicados a trabalhar com Gibraltar para alcançar o melhor resultado possível com o Brexit e que vamos continuar a envolver totalmente [os gibraltinos] nesse processo." Aos jornalistas, Picardo disse que apoia o Reino Unido nas negociações do Brexit com "energia e entusiasmo".

Fabian Picardo é o chefe do governo autónomo de Gibraltar desde 2011

Fabian Picardo é o chefe do governo autónomo de Gibraltar desde 2011

JORGE GUERRERO

Também no domingo, o ministro da Defesa do Reino Unido Michael Fallon disse na BBC que o país vai proteger Gibraltar "até ao fim", porque os seus residentes "já deixaram claro que não querem viver sob a administração de Espanha". O ex-líder do Partido Conservador de May, Michael Howard, foi ainda mais longe ao sugerir que o país pode recorrer a ações militares para proteger o território ultramarino. Há 35 anos, sublinhou o antigo secretário-geral do partido agora no poder, "outra primeira-ministra mulher enviou uma unidade militar para proteger um pequeno grupo de britânicos" e impedir o surgimento de "outro país de língua espanhola". "Estou absolutamente confiante de que a nossa atual primeira-ministra vai demonstrar o mesmo empenho que a sua antecessora em relação a Gibraltar."

Assim se referiu Howard ao facto de Margaret Thatcher ter enviado um batalhão para reivindicar a soberania das ilhas Malvinas depois de a Argentina ter invadido o arquipélago no sul do Atlântico em 1982 – um conflito que vitimou 655 soldados argentinos e 255 britânicos e que continua em marcha até hoje, ainda que apenas no campo da diplomacia.

Em resposta a isso, Emily Thornberry, ministra-sombra dos Negócios Estrangeiros do Partido Trabalhista, condenou o conservador por tecer comentários "inflamatórios" que "não ajudam a Grã-Bretanha a obter o que precisa destas difíceis negociações do Brexit". Tim Farron, líder dos liberais democratas, acrescentou: "Em poucos dias, a direita conservadora transformou aliados de longa data em potenciais inimigos", acusou o secretário-geral do segundo maior partido da oposição. "Espero que isto não sinalize a orientação estratégica do governo às longas negociações que se avizinham."

Esta manhã, Jack Straw, que foi ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros em governos trabalhistas e ministro-sombra de Howard nos anos 1990, juntou-se ao coro de condenações, acusando o conservador de disseminar comentários "absurdos" que reavivam o "jingoísmo do século XIX" – na altura a palavra dava nome a um partido britânico extremamente patriota e hostil à Rússia e hoje serve para definir sentimentos de nacionalismo exacerbado. "A ideia de que a Grã-Bretanha vai entrar em guerra ou que Espanha quer iniciar uma guerra contra os britânicos por causa de Gibraltar é francamente absurda e cheia ao jingoísmo do século XIX", acusou Straw no programa "Today". "Duvido muito que Gibraltar venha a ser o ponto que vai ditar o fracasso do acordo [de saída da UE]."

Espanha contesta há muito o poderio britânico de 300 anos sobre Gibraltar, um território no sul de Espanha com cerca de 30 mil habitantes que, em 2002, se mobilizaram nas urnas para chumbarem a potencial partilha de soberania entre Madrid e Londres – a proposta foi rejeitada por 99% dos eleitores que participaram no referendo. Os gibraltinos são cidadãos britânicos que são representados pelo seu próprio ministro-chefe, atualmente Fabian Picardo.

O território ultramarino tem autonomia em quase tudo menos ao nível da defesa e da política externa, que estão a cargo do governo britânico. Apesar do seu tamanho reduzido (6,8 km2), Gibraltar é muito importante estrategicamente, por estar localizado a menos de 20 quilómetros da costa norte do continente africano. O Reino Unido mantém nele uma base militar, um porto marítimo e uma pista para aterragem e descolagem de aviões.