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Internacional

Venezuela. Democracia em vias de extinção

CRISTIAN HERNANDEZ/ EPA

A decisão do Supremo Tribunal de Justiça esvaziar de poderes a Assembleia Nacional é vista pela comunidade internacional como o caminho para a consolidação de uma ditadura no país

É o retrato de um país em ruptura. Com a inflação mais alta do mundo (cerca de 700% ao ano) e mais de 50% das famílias a viverem em pobreza extrema, a Venezuela sofre com a falta de medicamentos e de comida, num contexto de aguda crise política, agora agravada pela decisão do Supremo Tribunal de Justiça de se apropriar dos poderes da Assembleia Nacional.

Os títulos e os editoriais da maior parte da imprensa nas suas edições desta sexta-feira falam, sem rodeios, em golpe de Estado. Descrevem a preocupação da comunidade internacional ao ver serem eliminados “os últimos vestígios da democracia”, apesar de na Venezuela, em 2015, a oposição ter obtido a maioria dos lugares nas eleições legislativas.

Empossado Presidente em 2013, Nicolás Maduro acusa os opositores de tramarem um golpe contra o seu mandato, argumento para justificar a linha dura que tem sido seguida, cada vez mais próxima do que define as ditaduras. Além da anulação repetida das decisões da Assembleia, foram adiadas as eleições para escolha dos representantes locais e governadores, que deveriam ter acontecido no ano passado, aumenta o número de presos políticos e é incentivado o culto quase religioso ao ex-Presidente Hugo Cháves, que morreu há quatro anos, vítima de cancro.

A partir de dentro, com a oposição a insistir na necessidade de uma verdadeira revolta popular, ou sob impulso do exterior, apoiado numa eventual pressão internacional contra o governo de Maduro, a questão é saber o que pode ser feito para acudir às necessidades mais prementes da Venezuela e restaurar a democracia no país.

Num editorial publicado esta quinta-feira, e de um ponto de vista externo, o “The New York Times” aponta vários caminhos possíveis. Um deles passa pela hipótese de a Venezuela ser expulsa da Organização dos Estados Americanos, o que se justificaria, lê-se, “dado que a repressão governamental da oposição e o seu paupérrimo historial em termos de direitos humanos violam a carta da instituição”. Ainda assim, os benefícios desta possibilidade não são óbvios e a opção “poderia levar Maduro a atuar de maneira ainda mais desmedida”.

Outras prioridades, consideradas mais vantajosas, são sublinhadas, como a comunidade internacional dever exercer pressão contra o governo venezuelano para que realize as eleições locais, aceite o envio de ajuda humanitária e liberte os presos políticos. Além disso, poderiam ser propostas reformas económicas específicas “para travar a inflação galopante e estabilizar a moeda”, acrescenta o jornal.

Com o Departamento de Estado norte-americano a condenar a decisão do Supremo Tribunal de Justiça, por minar “enormemente as instituições democráticas e negar “ao povo venezuelano o direito de moldar o futuro do seu país, através dos seus representantes eleitos” e a União Europeia a garantir que está a seguir a situação “de muito perto”, levantou-se em apoio a Maduro o governo do Presidente da Bolívia. Evo Morales expressou na quinta-feira a sua “solidariedade e incondicional apoio” à Venezuela, por entender que enfrenta um novo ataque político que visa desestabilizar o Executivo liderado por Nicolás Maduro.

Não chega para esconder o que está à vista: o cada vez maior isolamento da Venezuela, aquele que um dia foi um dos países economicamente mais próspero da América Latina.