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Michelle Bachelet contratou uma primeira-dama

A médica Michelle Bachelet foi eleita Presidente do Chile a 11 de março de 2006. Terminou o 1º mandato em março de 2010, e voltou a ser eleita em 2014

Max Montecinos / Reuters

Eugenia Hirmas move-se nos corredores do poder desde que o seu marido, Sergio Bitar, foi ministro de Allende. No último dia da visita de Estado de Michelle Bachelet a Portugal, o Expresso republica uma conversa com a mulher que exerceu as funções de primeira-dama no 1º mandato de Bachelet. O marido que assistiu à conversa lembra que “não há boa economia sem bons políticos”

Em Março de 2007, a socióloga Maria Eugenia Hirmas foi a pessoa escolhida para o insólito cargo remunerado de primeira-dama do Chile. "Fui ocupar o gabinete da primeira-dama, assegurei as funções de protocolo — recebi a mulher do Presidente Cavaco Silva, entre outras — e foi-me atribuída a direcção da área sociocultural dependente da presidência que, no Chile, inclui a importante tarefa de representar, gerir e angariar fundos para fundações criadas por várias ex-primeiras-damas.

A socióloga chilena Maria Eugenia Hirmas foi nomeada em Março de 2007, pelaPresidente Michelle Bachelet, para assumir as funções protocolares atribuídas à primeira-dama

A socióloga chilena Maria Eugenia Hirmas foi nomeada em Março de 2007, pelaPresidente Michelle Bachelet, para assumir as funções protocolares atribuídas à primeira-dama

Luís Faustino

Estas organizações têm como principal objectivo responder a necessidades que não eram tradicionalmente cobertas pelo Governo, como é o apoio à infância com creches e ensino pré-escolar, o trabalho directo com mulheres, o ensino, a protecção do artesanato, entre outras tarefas.

No fundo, criar ferramentas para as camadas mais vulneráveis da sociedade poderem melhorar o seu nível de vida e continuar o caminho por si", disse ao Expresso Eugenia Hirmas, braço-direito e primeira-dama da ex-Presidente Michelle Bachelet, apesar de o seu marido, o senador Sergio Bitar, nunca ter sido Presidente da República.

“Não há boa economia sem bons políticos”

Bitar já considerou a hipótese de se candidatar e ainda não abandonou esse projecto - embora admita que o “Chile mudou de ciclo”, com a viragem à direita que se verificou nas eleições de Janeiro. A mulher, Eugenia, mãe dos seus três filhos e avó dos nove netos do casal, opõe-se: “Trabalhei e lutei muito toda a vida e, agora, acho que já tenho direito a uma sabática”.Sergio Bitar, 70 anos, e Eugenia Hirmas, 66 anos, casaram em 1964. Ele era filho de um casal de imigrantes sírios, primos-irmãos e cristãos ortodoxos. Ela, neta do homem que deu o primeiro emprego ao seu pai.

Foi ministro dos PresidentesSalvador Allende, Ricardo Lagos e MichelleBachelet, no seu 1º mandato. Pensou candidatar-se ele próprioà Presidência... e é marido de Eugenia Hirmas

Foi ministro dos PresidentesSalvador Allende, Ricardo Lagos e MichelleBachelet, no seu 1º mandato. Pensou candidatar-se ele próprioà Presidência... e é marido de Eugenia Hirmas

Luis Faustino

Na campanha eleitoral de 1970, o jovem engenheiro Bitar apoiou o adversário de Salvador Allende, Radomiro Tomico. Algum tempo depois, o Partido da Esquerda Cristã - de que fora fundador - incentivou-o para aceitar o cargo de ministro das Minas. À data do golpe de Setembro de 1973, era conselheiro do chefe de Estado assassinado pelas tropas de Pinochet.

“Admiro Allende por ser um homem que lutou por causas mas, como engenheiro, aprecio a resistência das coisas. e aquele Governo não resistiu. Num só dia ocorria o que num país normal ocorre em seis meses, o Governo queria fazer mudanças para as quais não tinha apoio político e subestimou os adversários”, disse Bitar ao Expresso.

Foi preso e em 1974 partiu para o exílio nos EUA e depois na Venezuela, onde começou a organizar a oposição.

Eugenia fez uma pós-graduação em Comunicação e, quando regressaram ao Chile em 1984, para participarem na oposição ao general Pinochet, especializou-se na análise da estratégia de comunicação do ditador.

Agora, este ex-ministro de Allende, de Ricardo Lagos e de Michelle Bachelet, lança um aviso à Europa: "Não há boa economia sem bons políticos e, nesta matéria, a Europa tem muito a aprender com a América Latina. A nossa crise da década de 80 foi tão forte que nos obrigou a mudanças profundas. E é preciso formar jovens para a política. Formar um bom político é tarefa para muitos anos, que não pode ser confiada ao mercado".

Num campo de concentração a 1000 km da Antártida

Em 1987, Sergio Bitar publicou o livro "Isla 10" onde relata o seu tempo num campo de concentração na ilha Dawson.

Foi por excesso de boa-fé que Bitar acabou preso nesta ilha do Estreito de Magalhães: "Pouco depois do golpe de 11 de Setembro de 1973, apresentei-me voluntariamente à Junta Militar. Pensei que nada me iria acontecer porque sempre tinha actuado com honestidade e de acordo com a lei: “Acabei detido...”, conta ao Expresso.

Em Novembro de 2003, sentiu que era chegada a altura de acertar contas com o passado.

Bitar e outros ex-presos quiseram revisitar a ilha e a ex-Presidente Michelle Bachelet, então ministra da Defesa, acompanhou-os. “Foi um choque, foi como o fechar de um ciclo, terminar uma luta...”. Para o público que não viveu a ditadura de Pinochet, o combate de Bitar só terminou com o filme do realizador chileno Miguel Littin, “Isla 10”, que estreou em 2009.

Este artigo foi inicialmente publicado na edição de 22 de maio de 2010 — 1º Caderno