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Internacional

Do governo à barricada da oposição. Michael Flynn disposto a testemunhar contra Trump em troca de imunidade

Drew Angerer

Despedido por ter mentido à Casa Branca sobre as conversas que manteve com o embaixador russo nos EUA, o ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional quer prestar depoimentos ao Congresso e ao FBI sobre alegado conluio entre a administração Trump e as autoridades russas

Os primeiros rumores de que Michael Flynn estaria disposto a testemunhar contra a administração dos EUA no âmbito das investigações do Congresso e do FBI ao caso Trump-Rússia sugiram há mais de uma semana. Mas pela primeira vez, uma fonte próxima do ex-conselheiro de segurança nacional do governo republicano pareceu ontem confirmar que assim é. "O general Flynn tem certamente uma história para contar e quer muito contá-la caso as circunstâncias o permitam", declarou na quinta-feira Robert Kelner, conselheiro do militar na reforma, num comunicado citado pelo "Wall Street Journal".

Questionado sobre que tipo de informações Flynn está tão disposto a passar ao FBI e à comissão de serviços de Informação da Câmara dos Representantes, Kelner disse apenas que o general está "a ser alvo de exigências públicas sem fundamento, por membros do Congresso e outros críticos políticos, para que seja aberta uma investigação criminal" contra ele. E acrescentou: "Nenhuma pessoa razoável que beneficie da orientação de conselheiros aceitaria submeter-se a este tipo de interrogatório num ambiente de caça às bruxas e altamente politizado sem garantias [de proteção] contra acusações injustas."

A indicação de que Flynn estará disposto a falar com os responsáveis pelas duas investigações surge nem dois meses depois de ter sido forçado a resignar ao cargo de chefe do Conselho de Segurança Nacional (CSN) por ter mentido à Casa Branca sobre encontros mantidos com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak, no mês de dezembro. O general na reforma, que Barack Obama tinha despedido da direção do Departamento de Serviços de Informação de Defesa (DIA) em 2014 por causa de más relações com os inferiores hierárquicos, esteve 24 dias à frente do CSN de Donald Trump; é um de pelo menos sete membros da administração republicana que terão mentido aos legisladores sobre encontros e contactos com Kislyak durante a campanha e já depois de Trump ter derrotado Hillary Clinton nas presidenciais de novembro

Ao longo das duas últimas semanas, foram surgindo informações de que os advogados de Flynn já teriam entrado em contacto com os comités que estão a investigar o alegado conluio da equipa de Trump com as autoridades russas para influenciar os resultados das eleições, em parte para lhes propor que seja garantida imunidade ao militar. Mas de acordo com fontes da comissão de serviços de informação da câmara baixa do Congresso, isso não aconteceu.

Segundo o porta-voz do republicano que atualmente dirige a comissão permanente, o lusodescendente Devin Nunes, essa oferta ainda não foi posta sobre a mesa — versão que é sustentada por um assessor dos democratas que integram essa comissão. Contactado para comentar as suspeitas, o Departamento de Justiça escusou-se a alimentá-las.

Flynn está prestes a entrar na "lista negra" de Trump

Flynn está prestes a entrar na "lista negra" de Trump

JIM WATSON/GETTY

Flynn foi forçado a abandonar a liderança do CSN em fevereiro não por ter mantido contactos ilegais com o embaixador Kislyak ou por ter recebido dinheiro da Rússia mas por ter mentido ao vice-presidente, Mike Pence, sobre a natureza das suas conversas com o diplomata russo. Os contactos aconteceram durante o processo de transição para a Casa Branca, quando Flynn era um cidadão privado, proibido pela lei federal de discutir questões políticas ou diplomáticas com representantes de governos estrangeiros.

Num desses contactos o general na reforma terá debatido com Kislyak formas de anular as sanções impostas à Rússia pela administração Obama, depois de as agências de espionagem terem revelado ter "fortes suspeitas" de que o governo de Vladimir Putin interferiu no processo eleitoral norte-americano. Esse telefonema aconteceu a 29 de dezembro, precisamente o dia em que Obama anunciou o novo pacote de sanções. (Nem um mês depois, a poucos dias da sua tomada de posse a 20 de janeiro, Trump deu a entender que queria anulá-las.)

Depois da revelação desses contactos, os media descobriram que, em 2015, Flynn recebeu quase 68 mil dólares (quase 64 mil euros) de empresas russas, com a maior parte do dinheiro a vir dos cofres do Russia Today, canal de televisão financiado pelo Kremlin.

Não deixa de ser irónico que Flynn esteja a ponderar pedir garantias de imunidade para denunciar aquilo que sabe sobre o alegado conluio entre a equipa de Trump e a equipa de Putin. Em setembro, a dois meses das eleições presidenciais, foi ele mesmo que declarou numa entrevista na NBC: "Quando se obtém imunidade, é porque provavelmente se cometeu um crime."