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Merkel contraria May: primeiro discute-se o divórcio e só depois a relação futura

Sean Gallup / Getty Images

Na carta enviada para Bruxelas que desencadeou as negociações do Brexit, a primeira-ministra britânica afirmava querer logo à partida negociar o acesso ao mercado europeu

Luís M. Faria

Jornalista

Primeira discutem-se os temas difíceis, e só depois a parte boa. Esta, em essência, a resposta de Angela Merkel a Theresa May. Na carta entregue em Bruxelas esta quarta-feira para desencadear as negociações do Brexit, a primeira-ministra britânica defende ser "necessário acordar os termos da nossa futura parceria ao mesmo tempo que os da nossa saída da União Europeia". Ou seja, negociar as condições do acesso britânico ao mercado europeu em simultâneo com tudo o resto.

A chanceler alemã, falando pela Alemanha e outros países europeus que já se exprimiram sobre o assunto, recusa. Numa declaração que fez no mesmo dia, em Berlim, foi clara: "As negociações devem primeiro clarificar como vamos desatar a nossa relação interligada. Só quando esta questão estiver resolvida poderemos – pouco tempo depois, esperamos – começar a falar sobre a nossa futura relação".

Os problemas a resolver incluem o direito dos cidadãos da União Europeia a circularem no Reino Unido (e vice-versa) e quanto os britânicos terão de pagar a Bruxelas pelo divórcio. Qualquer estado-membro da UE vai assumindo compromissos financeiros que não desaparecem instantaneamente, ou só porque ele decide abandonar a união. Há quem estime a quantia a saldar pelo Reino Unido em 60 mil milhões de euros. Fontes próximas do governo britânico diz que, uma vez abandonada a UE, a dívida será zero.

A soma final poderá ficar algures a meio. Certo é que, para os responsáveis europeus, o que está em jogo é muito mais amplo. “Não temos interesse em punir o Reino Unido, mas também não temos interesse em pôr a integração em risco por causa dele. A nossa prioridade deve ser, com o coração pesado, manter o resto da Europa tão junta quanto possível”, disse o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, numa entrevista ao “Financial Times”.

Outro argumento usado pelo Reino Unido tem a ver com segurança. Embora May tenha garantido que a NATO está fora das negociações, com outros programas a situação é diferente. Assim explicou na Sky News a ministra do Interior Amber Rudd: “Somos o maior contribuinte da Europol, portanto, se a deixássemos, levaríamos a nossa informação connosco. Os nossos parceiros europeus querem manter lá a nossa informação, pois também mantemos seguros outros países europeus”.

Mas um ex-alto responsável do Tesouro considera pouco credível a ameaça. Afinal, como ele justifica, “o crime e o terrorismo não respeitam fronteiras”.