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Herdeiro da Red Bull matou um polícia. Enquanto aguarda a prescrição, continua a sua vida de jet set

Esta quinta-feira, voltou a faltar à convocatória para depor. E as autoridades não o incomodam

Luís M. Faria

Jornalista

Um iate no Mónaco, restaurantes de luxo em Nice e em Londres, uma piscina no Abu Dhabi, o mundo mágico de Harry Potter em Osaka... Não são propriamente os lugares onde se espera encontrar uma pessoa que enfrenta um processo criminal por ter morto um policia. Muito menos se espera que essa pessoa documente os seus passeios no Instagram e outros social media, exibindo uma vida de diversão ao mais alto nivel. Mas é justamente isso que faz Vorayuth Yoovidhya, herdeiro da Red Bull e figura muito conhecida na alta sociedade tailandesa.

Em 2012, o carro que Vorayuth conduzia embateu na motocicleta de um polícia, Wichian Klanprasert, matando-o. Vorayuth fugiu para a mansão da família, mas foi localizado ao fim de umas horas e levado pela polícia. A família dele começou por dizer que o carro estava a ser conduzido por um empregado na altura do acidente. Mais tarde reconheceu que era Vorayuth. Mas negou que ele tivesse qualquer culpa – o polícia tinha-se atravessado na sua frente, alegaram. Quanto ao facto de Vorayuth acusar níveis de alcoolemia muito acima do permitido, disseram que ele tinha bebido a seguir ao acidente... para lidar com o stresse.

Num país como a Tailândia, onde os muitos ricos se permitem uma grande margem de impunidade, o caso poderia ter passado sem mais. Mas o facto de a vítima ser agente policial pesou.

Apesar de a família de Vorayuth ter entretanto pago uma indemnização à família de Klanprasert, o então chefe da polícia garantiu que o crime não ficaria sem castigo. Acontece que esse chefe se reformou em 2014, e desde essa altura o processo não andou. Vorayuth foi chamado várias vezes a depor, e faltou sempre, invocando o facto de se encontrar no estrangeiro ou outra incapacidade qualquer.

As imputações que lhe faziam eram três: excesso de velocidade, condução negligente e fatal, abandono do local do acidente. A primeira já prescreveu, outra prescreve no fim do ano, a terceira vai ter de esperar mais alguns anos. É bastante provável que os advogados de Vorayuth consigam obter adiamentos suficientes para se chegar a esse momento sem ele chegar sequer a ser formalmente acusado, muito menos julgado. É o que tem acontecido em casos semelhantes envolvendo gente rica nos últimos anos.

“As razões que invoca têm fundamento?”

A última convocatória era para hoje, 30 de março, e mais uma vez Vorayuth faltou, e mais uma vez as autoridades consideraram justificada a falta. Um porta-voz da procuradoria lembrou que ele apresentara uma queixa por tratamento discriminatório e havia pontos a examinar: "O seu caso dura há demasiado tempo? As razões que invoca não têm fundamento, ou devem ser investigadas? Se não investigaremos, seremos acusados de negligência".

Para Chris Baker, um historiador britânico casado com uma tailandesa e que vive no país há anos, a questão é mais simples. "Há sem dúvida uma cultura de impunidade aqui. As pessoas com poder e dinheiro podem contar fazer muitas coisas erradas e safarem-se. Isto acontece com tanta frequência que é parte da cultura".

Para uma família como a de Vorayuth, que tem uma riqueza estimada em dez mil milhões de dólares e se tornou símbolo de um estilo de vida jet set, esses fatores valem a dobrar. Fundada em 1987 pelo filho de um emigrante taiwanês em parceria com um empresário austríaco, a Red Bull tornou-se a bebida energética mais conhecida do mundo. Para isso contribuiu uma sofisticada estratégia de marketing, que inclui criação e patrocínio de eventos desportivos, entre eles a Red Bull Air Race, que já teve lugar em Lisboa e no Porto.