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Internacional

China acusa EUA de “egoísmo” perante planos de Trump para anular leis de proteção do ambiente

David McNew

Jornal estatal chinês diz que Pequim não pode liderar sozinha o combate às alterações climáticas e pede que se exerçam mais pressões sobre o Presidente norte-americano para o forçar a levar o aquecimento global a sério

Os media estatais chineses repreenderam esta quinta-feira os planos de Donald Trump para anular uma série de regulações de proteção do ambiente aplicadas por Barack Obama, com um tabloide ligado ao Partido Comunista a sublinhar que “por mais que Pequim tente, não será capaz de assumir todas as responsabilidades que Washington se recusa a admitir” para contrariar o aquecimento global.

Num editorial altamente crítico do atual Presidente americano e dos seus planos para, entre outras coisas, reavivar a indústria do carvão e avançar com a construção de controversos oleodutos, o “Global Times” deixa claro que o Governo chinês não quer ficar sozinho a liderar o combate às alterações climáticas e que, mesmo que quisesse, nunca poderia preencher o vácuo deixado pelos EUA ao leme do empresário tornado Presidente.

“Os comentadores do Ocidente devem continuar a pressionar a administração Trump sobre as alterações climáticas”, sublinha o jornal. “O egoísmo político de Washington deve ser desencorajado. A China vai continuar a ser a maior economia em desenvolvimento do mundo durante muito tempo. Como é que se pode esperar que sacrifique o seu próprio espaço de desenvolvimento em prol das nações ocidentais desenvolvidas?”

Entre os líderes da China, atualmente o maior emissor de gases com efeito de estufa responsáveis pelo aquecimento do planeta, existe um consenso de que as alterações climáticas são uma ameaça real e factual. Na administração Trump, pelo contrário, os interesses sobrepõem-se à ciência e tanto o Presidente como vários membros do seu gabinete rejeitam que o aquecimento global seja um facto cientificamente comprovado. Os EUA são o segundo maior emissor destes gases.

Pequim tem apostado mais na retórica do que em compromissos práticos para limitar as emissões de CO2 e de outros gases nocivos e continua a consumir elevadas quantidades de carvão, muito mais do que todos os outros países do mundo combinados — ainda que esse consumo tenha estabilizado nos últimos anos. “Em termos de [combate às] alterações climáticas, a China não é o tipo de líder que vá unir os outros países”, diz ao “Guardian” Lauri Myllyvirta, que trabalha nos escritórios da Greenpeace em Pequim. “O Governo chinês só vai comprometer-se com objetivos que esteja confortável em aplicar e precisa de trabalhar com outras grandes nações, não vai dar respostas sozinho.”

Ao mesmo tempo que é um dos principais exportadores de plantas de centrais elétricas movidas a carvão, a China é a maior exportadora de energias renováveis do mundo, uma indústria que tem ganho destaque nos últimos anos em várias partes do planeta, também por permitir a produção de energia limpa e o abandono gradual de combustíveis fósseis.

Em setembro do ano passado, Pequim e Washington ratificaram em conjunto o Acordo do Clima alcançado na cimeira de Paris no final de 2015, mas agora Trump ameaça abandoná-lo, algo que já deixou o Presidente chinês, Xi Jinping, desagradado. “Todos os signatários devem manter este acordo que foi tao difícil de alcançar em vez de o abandonarem, porque é uma responsabilidade que todos devemos assumir para as gerações vindouras”, declarou Xi em janeiro no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Perante os planos anunciados por Trump, até a ExxonMobil, a maior petrolífera dos EUA, veio a público dizer que a administração não deve abandonar os compromissos assumidos sob esse acordo. No seu editorial de hoje, o “Global Times” também faz referência a esse assunto, sublinhando que “era suposto que Washington liderasse a luta contra as alterações climáticas, mas agora a administração Trump pode ser a primeira a abandonar o acordo”, algo que o jornal classifica como “desapontante”.

Há vários anos que Trump repete o falso argumento de que as alterações climáticas são um “embuste” que ele atribui diretamente à China e à sua guerra para liderar o comércio mundial. “O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses com o intuito de tornarem a indústria dos EUA não-competitiva”, escreveu no Twitter em 2012. Com base nesse tweet, quando o empresário tomou posse como 45.º Presidente da América — e se tornou no primeiro negacionista das alterações climáticas a liderar um dos países mais poluidores do mundo — Xi pediu-lhe que tomasse “decisões inteligentes” quanto ao ambiente e ao clima e lembrou que foram administrações republicanas como a dele a liderar os primeiros esforços de combate ao aquecimento global.