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Internacional

Cambodja proíbe empresa de exportar leite materno para os EUA

RAUL ARBOLEDA/GETTY

A UNICEF e várias ONG congratularam-se com a medida, fazendo notar que está em causa uma forma grave de exploração dos pobres

Luís M. Faria

Jornalista

O governo do Cambodja anunciou que proibiu a exportação de leite proveniente de mulheres do país. "Embora o Cambodja seja pobre, não o é a um nível que precise de vender leite do peito das suas mães", diz uma nota oficial emitida esta terça-feira. A ordem visa especialmente uma empresa americana, a Ambrosia Labs, que começou há anos a explorar esse mercado. Criticada pela UNICEF e outras organizações, a empresa argumenta que o seu negócio beneficia todos os intervenientes diretos e não prejudica ninguém.

Como noutros negócios polémicos – por exemplo, o das barrigas de aluguer, onde o Cambodja também adquiriu proeminência – está em causa a fronteira entre liberdade económica e exploração pura e simples. Em 2016, a Ambrosia explicou num podcast que o seu objetivo era "criar uma oportunidade para elas (as mulheres) criarem algo de valor e serem pagas por isso". Acrescentou que "só por alguém ser menos rico do que um americano não significa que não possa fazer boas escolhas para as suas famílias".

O facto é que as escolhas em causa têm normalmente origem em situações de pobreza extrema. Algumas das mulheres que a Ambrosia emprega trabalhavam nos campos ou andavam a apanhar lixo. Outras eram costureiras. A Ambrosia paga-lhes o equivalente a uns 50 cêntimos por onça (295 mililitros), vendendo o produto oito vezes mais caro nos Estados Unidos. Mesmo assim, algumas que foram entrevistadas declararam-se satisfeitas. Como fornecedoras de leite, podiam ganhar num dia oito ou nove euros – o que antes ganhavam numa semana.

Instalada junto a uma grande lixeira

A Ambrosia Labs foi fundada em 2015 por dois americanos. Um deles, Bronzson Woods, tinha sido missionário mórmon no Cambodja. Quando voltou para os EUA, a sua cunhada deu à luz gémeos e não tinha leite suficiente para os alimentar. Suprir essa deficiência com leite humano de outra origem era difícil. Havia alguns bancos de leite e um crescente mercado online. Mas não faltava espaço para crescer.

Para arranjar matéria-prima, o Cambodja pareceu-lhe terreno ideal. A maioria das mulheres no país ainda amamentam os seus filhos, embora a percentagem tenha vindo a descer com os anos, em especial nas cidades grandes. A Ambrosia estabeleceu-se junto a uma grande lixeira próxima da capital, Phnom Penh, numa zona de bairros de lata, e começou a contratar mulheres.

A empresa garante que faz todos os exames clínicos necessários para garantir que as mulheres estão isentas de doenças. Não as aceita senão depois de elas terem amamentado os seus filhos durante seis meses, o mínimo recomendado pelas organizações internacionais de saúde. Uma vez aprovadas, as mulheres entram ao serviço, fornecendo uma media de 12 onças diárias (355 mililitros). O leite é então congelado e enviado para o Utah, estado norte.americano onde a empresa tem sede oficial. Aí, pasteurizam-no e enviam-no para clientes um pouco por todo o país.

Leite excedentário? Não

O negócio já existia nos EUA, ligado geralmente a "cooperativas" de mães. Sempre foi muito polémico, com os críticos a notarem que eram invariavelmente mulheres pobres a vender o seu próprio leite. No caso da Ambrosia como nalguns outros, há o risco de as mulheres acabarem por privar de leite os seus próprios bebés. Ouvida pela BBC, a antropóloga médica Aunchalee Palmquist diz que as mulheres julgam que se trata de leite em excesso, quando de facto a quantidade costuma corresponder àquilo de que os seus filhos necessitam. E o leite em pó muitas vezes não é alternativa, sobretudo em zonas rurais onde a água potável em condições é uma raridade.

Além disso, há preocupações éticas básicas. A venda de leite materno "trata as mulheres como um instrumento para produzir coisas para outras pessoas que têm mais oportunidade", refere à agência France Presse a representante de uma ONG local que defende os direitos das mulheres. "Mesmo que as mulheres aceitem fazê-lo voluntariamente, com frequência não têm outras escolhas e enfrentam pressão económica". A UNICEF concorda, definindo a venda de leite materno como "exploração de mulheres vulneráveis e pobres com propósitos comerciais e de lucro".

O cenário é agravado por a taxa de amamentação no pais ter descido substancialmente, de 75% para 65%, numa escassa meia dúzia de anos. A semana passada, o governo cambodjano já tinha interditado a Ambrosia Labs de operar no país. Agora, emitiu uma proibição com natureza geral em relação a esse tipo de venda, pelo menos quando assumir natureza lucrativa. Para o ex-missionário que teve a ideia de negócio, é um novo desafio.