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Um lapso administrativo obrigou-a a parar de estudar e casar-se. 17 anos depois foi indemnizada

A saga triste e algo encorajadora de uma mulher paquistanesa

Luís M. Faria

Jornalista

Wajiha Arooj é uma paquistanesa que hoje vive no Canadá. Aos 38 anos, casada e mãe de três filhos, diz-se satisfeita com o seu quotidiano de doméstica. Porém, reconhece que nem sempre foi essa a sua expectativa de vida. Wajiha andou na universidade no seu país, e tencionava seguir os estudos até um ponto em que teria condições para entrar no funcionalismo público. As suas duas irmãs fizeram isso. Uma delas tornou-se funcionária judicial. No caso de Wajiha, um pequeno erro administrativo e uma enorme carga de preconceitos determinaram outra coisa.

Há dezassete anos, quando Wajiha estava a fazer um mestrado na Universidade do Punjab em Lahore, alguém se esqueceu de marcar a sua presença num exame. Oficialmente, isso implicou que ninguém na universidade soubesse o que ela andava a fazer àquela hora. Numa sociedade profundamente conservadora, onde é muito mal visto uma mulher sair sozinha, e qualquer convívio com um rapaz, por mais inocente que possa ser, requer a presença de um pau-de-cabeleira, Wajiha rapidamente ganhou má fama.

Não eram só as colegas a mandar-lhe bocas quando passava. Até membros da família começaram a exigir que ela dissesse onde tinha ido. Assustada, ela foi a tribunal para obrigar a universidade a assumir os factos. O que esta fez finalmente, passados meses, apresentando a prova de exame com as respostas de Wajiha.

“Era difícil recuperar o respeito”

Infelizmente, para ela nessa altura o mal já estava feito. Afinal, trata-se de um país onde todos os anos cerca de mil mulheres são vitimas de "crimes de honra" – assassínios muitas vezes cometidos pelos seus pais, irmãos e maridos – e onde ainda recentemente as autoridades da capital proibiram festas do São Valentim em locais públicos. Os rumores sobre Wajiha continuavam, e os seus pais entenderam que o melhor era ela parar de estudar e casar-se o mais depressa possível, para evitar mais problemas.

Ela obedeceu. A bem da honra da família, aceitou o seu novo destino. Mas não se conformou com o que lhe tinham feito. De resto, os efeitos continuavam. "Era muito difícil recuperar o respeito que antes tinha entre as pessoas à minha volta", conta. Assim, apoiada pelo pai, ele próprio ex-juiz e agora advogado, pediu uma indemnização.

À partida, as probabilidades não eram favoráveis. O sistema judicial paquistanês, além das demoras e de outras graves distorções que o afligem, não tende a ver favoravelmente casos como o de Wajiha. Mas em 2016, dezassete anos após os factos originais, um tribunal deu-lhe razão. A universidade recorreu, e agora o tribunal superior confirmou o veredicto.

A indemnização atribuída equivale a uns sete mil euros, montante baixo para uma vida transformada de forma tão drástica. "A universidade esmagou os meus sonhos e nunca pediu desculpa", justifica Wajiha. Embora ciente de que "nenhum dinheiro poderia compensar o dano que o ato fez à minha honra e reputação na sociedade", ela persistiu na sua longa batalha judicial e acabou por triunfar. Isto admitindo que não há mais recursos. A universidade fez saber que está a estudar o assunto.