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Oposição na Rússia. As mortes suspeitas e a chegada às ruas de uma nova geração

OLGA MALTSEVA/GETTY IMAGES

A história da oposição a Vladimir Putin envolve gente corajosa, travada a toque de balas ou a veneno, em mortes suspeitas a que falta associar o verdadeiro nome dos culpados. Começa agora a escrever-se também com os nomes mais jovens de uma geração descontente, que vai perdendo o medo de estar contra

“É um sistema totalmente amoral, e que pode adotar medidas extremas.” Dias antes de ser morto, baleado duas vezes na cabeça em plena luz do dia, em frente ao luxuoso bar do hotel Premier Palace, em Kiev, Denis Voronenkov sabia que era um alvo a abater. O ex-membro do Partido Comunista russo tinha comentado com amigos que estava a ser vítima de ataques vários.

Piratas informáticos tentaram invadir a sua conta no Twitter e também o email da sua mulher, tendo recebido mensagens de texto ameaçadoras, a ponto de a polícia lhe ter atribuído um guarda-costas. O antigo deputado, crítico do Presidente Vladimir Putin, acabou assassinado a 23 de março, poucos meses após conseguir asilo de refugiado na Ucrânia. As autoridades não divulgaram a identidade do autor do crime.

Fazer oposição na Rússia é candidatar-se a ser personagem de um policial negro. Voronenkov não foi o primeiro a morrer e é muito provável que não seja o último.

Recuando a 2006, na lista estão outros nomes, como a jornalista Anna Politovskaya, baleada no elevador do prédio onde morava a 7 de outubro, dia do aniversário do Presidente. Nos anos seguintes, outros três ativistas a ela ligados foram mortos também, sem que os mandantes dos crimes tenham sido identificados.

Outro caso muito mediatizado, também em 2006, envolveu a morte de Alexander Litvinenko, ex-espião e ex-funcionário do KGB. Depois de sair da Rússia e se fixar em Londres, Litvinenko tornou-se um feroz crítico de Putin. Adoeceu subitamente, com sintomas de envenenamento com polónio e foi já em estado crítico, no hospital, que acusou dois agentes seus ex-colegas, atribuindo o ataque a Vladimir Putin.

De cabeça perdida

Em algumas entrevistas concedidas, Denis Voronenkov reconhecia que era “difícil dizer” o que podia acontecer: “O sistema perdeu a cabeça. Dizem que somos traidores na Rússia”.

Como traidores foram tratados também os advogados Sergei Magnitsky e Stanislav Markelov. Este último representava jornalistas com problemas. Em 2009 foi baleado por um homem mascarado e morreu – tal como a repórter Anastasia Baburova Baburova, que o tentou salvar. Na versão oficial das autoridades russas, os dois morreram às mãos de um grupo neonazi.

Já Sergei Magnitsky morreu sob custódia da polícia, depois de ter sido espancado. Investigava um caso de fraude fiscal e foi detido depois de revelar informações que apontavam para a participação de polícias.

Entre as mortes dos opositores consta Boris Berezovsky, magnata que ajudou Putin na sua ascensão ao poder, mas que posteriormente se afastou do Kremlin, autoexilando-se no Reino Unido. Em 2013 foi encontrado morto na sua casa, enforcado.

Mais recente é o caso de Boris Nemtsov, outro crítico de Putin, que em 2015 foi baleado quatro vezes nas costas, horas depois de convocar uma marcha contra o envolvimento russo na guerra da Ucrânia. O Presidente Putin controlou pessoalmente a investigação do crime, mas o assassino nunca foi detido.

Do ponto de vista da oposição, há pequenos sinais de mudança, nomeadamente na dimensão dos protestos. Foram milhares as pessoas que sairam à rua no domingo, em Moscovo e noutras cidades russas, para condenar a corrupção que envolve membros do governo.

As ações terminaram com a condenação do opositor Alexei Navalny a 15 dias de prisão por resistir à polícia, e ao pagamento de uma multa de 300 euros por ter organizado a manifestação. Mas os observadores mais atentos sublinham a presença nas ruas de uma geração bastante mais nova, cada vez mais envolvida.

Entre os detidos estavam muitos jovens de 17 e 18 anos, talvez porque o próprio Navalny, como opositor, recorre a uma linguagem mais direta, que passa pela utilização das redes sociais, numa abordagem diferente, que contribui para conquistar outros perfis para a causa.

Após a sua detenção, ele veio mesmo agradecer aos jovens e estudantes que responderam à sua chamada. “Estou realmente feliz pelo aparecimento neste país de uma geração que quer exercer os seus direitos de cidadania, que não tem medo”, afirmou.