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Civis de Mossul foram aconselhados a não fugir antes de coligação lançar ataques aéreos contra o Daesh

AHMAD AL-RUBAYE

Amnistia Internacional acusa o governo iraquiano de ter aconselhado os residentes a refugiarem-se nas suas casas durante a última etapa da ofensiva para reconquistar a cidade, derradeiro bastião do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no país. Mais de 150 civis morreram como resultado disso, vítimas dos bombardeamentos da coligação internacional liderada pelos EUA. Pentágono já abriu um inquérito

Os residentes de Mossul receberam instruções do governo iraquiano para não abandonarem as suas casas pouco antes de a coligação internacional liderada pelos EUA ter dado início a uma nova ronda de bombardeamentos com o intuito de reconquistar a cidade ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh); como resultado disso, mais de 150 civis morreram.

A acusação é feita pela Amnistia Internacional num relatório divulgado esta terça-feira, onde é sugerido que o recente aumento exponencial de civis mortos na campanha da coligação se deve à falta de preparação adequada das forças ocidentais que têm estado a dar apoio aéreo à campanha militar dos iraquianos no terreno, uma que começou no final do ano passado. A coligação já assumiu que os Estados Unidos foram responsáveis pelos ataques aéreos contra a parte ocidental de Mossul que, a 17 de março, resultaram na morte de pelo menos 150 civis.

As forças norte-americanas ainda não assumiram que tenha havido baixas de civis nessa ronda de bombardeamentos, mas ontem o Pentágono informou que já abriu um inquérito ao caso, sob o qual vai analisar mais de 700 vídeos dos ataques aéreos da coligação. À comunicação social, o coronel JT Thomas, porta-voz do Comando Central dos EUA, disse que aquela unidade do Exército norte-americano no estrangeiro está a dar máxima prioridade à investigação sobre o que aconteceu em Mossul na semana passada.

Confrontado com as questões levantadas pelos media sobre se a administração de Donald Trump aligeirou o controlo dos bombardeamentos da coligação contra alvos jiadistas no Iraque e na síria, Thomas recusou-se a comentar. Contudo, concordou que é preciso examinar o que aconteceu no oeste de Mossul e que essa é "a prioridade neste momento" para o Comando Central dos EUA. "Em Mossul, houve vários dias de ataques", disse aos jornalistas numa conferência de imprensa no Pentágono.

"O número de civis mortos que tem sido avançado — uma das coisas que estamos a investigar é se esses números são cumulativos e se referem a incidentes distintos nesta batalha feroz e altamente contestada que está em curso em Mossul. Sabemos que estávamos a largar bombas nas proximidades" dos civis, reconheceu, sublinhando contudo que as bombas eram "bastante precisas". O Exército norte-americano também está a analisar o aparente bombardeamento de uma escola em Mansura, perto de Raqqa, na Síria, a 21 de março, e de um edifício próximo de uma mesquita em Al-Jineh, na província de Aleppo, a 16 de março. Em conjunto, e segundo dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos, os dois ataques vitimaram 82 pessoas.

Citada pelo "The Guardian", Donatella Rovera, conselheira da Amnistia Internacional para situações de crise, disse que "o facto de as autoridades iraquianas terem repetidamente aconselhado os civis a permanecer nas suas casas, em vez de fugirem da área, indica que as forças da coligação deviam saber que os ataques aéreos iam provavelmente resultar num número significativo de civis mortos." Os "ataques desproporcionados e indiscriminados", sublinha Rovera, "violam a lei humanitária internacional e podem constituir crimes de guerra".

As provas reunidas pela Amnistia Internacional no terreno em Mossul "apontam para um padrão alarmante de ataques aéreos da coligação liderada pelos EUA que têm destruído casas inteiras com famílias lá dentro", denuncia a organização não-governamental no relatório.

A ofensiva para reconquistar Mossul, último bastião do Daesh no Iraque que foi capturado pelo grupo radical em 2014, começou em outubro após vários meses de preparação e delineamento de estratégias. Em janeiro deste ano, o governo iraquiano declarou a "total libertação" da parte oriental da cidade e, desde então, as forças do país têm estado envolvidas em batalhas no terreno para reaver o controlo da parte ocidental. Desde o início que civis, grupos humanitários e equipas independentes de monitorização têm alertado para a possibilidade de o balanço de civis mortos aumentar naquela zona de Mossul por causa da elevada densidade populacional e perante o aumento dos ataques aéreos e de artilharia na derradeira fase para reaver o controlo da cidade.

Em batalhas anteriores pela reconquista de Fallujah e de Ramadi, as duas cidades foram totalmente evacuadas para dar margem de manobra às forças iraquianas que combatem o Daesh no terreno. Em Mossul, pelo contrário,o governo iraquiano pediu aos civis que se refugiassem nas suas casas por não ter forma de garantir o realojamento em massa da população. Quando a segunda fase da ofensiva teve início, havia ainda mais de um milhão de civis a viver em Mossul. Atualmente, as Nações Unidas dizem que pelo menos 400 mil pessoas continuam encurraladas na segunda maior cidade do Iraque, que é o último bastião urbano dos jiadistas no país.

No relatório divulgado esta terça-feira, a Amnistia cita sobreviventes e testemunhas dos bombardeamentos aéreos que vitimaram civis. "Eles não tentaram fugir quando as batalhas começaram porque receberam da parte das autoridades iraquianas instruções repetidas para que ficassem nas suas casas", relata um sobrevivente.

Esta terça-feira, as forças iraquianas anunciaram o início de uma nova ofensiva contra a Cidade Antiga de Mossul após uma aparente mudança de táticas no terreno no rescaldo do elevado balanço de civis mortos. À televisão estatal iraquiana, o tenente-general Raed Shakir Jawdat, chefe da polícia federal do país, explicou que os novos avanços, com o apoio da coligação aérea, estão a ser encetados com base numa "estratégia de identificação de posições específicas" a partir de informações recolhidas pelas secretas. "Os nossos avanços têm como objetivo proteger as vidas dos civis, as infraestruturas e as propriedades privadas", garantiu.