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Brexit pode custar até €4000 milhões a Espanha

LIONEL BONAVENTURE / AFP / Getty Images

Duzentos mil espanhóis no Reino Unido e 300 mil britânicos em Espanha serão afetados pela saída da União Europeia

Em Espanha receia-se que a saída do Reino Unido, “um grande parceiro comercial”, tenha consequências “muito sérias”. Indica-o um relatório da Comissão Interministerial criada para lidar com o ‘Brexit’ e presidida pela vice-primeira-ministra, Soraya Sáez de Santamaría.

O documento, divulgado pelo diário “El País”, informa que 200 mil espanhóis no Reino Unido e 300 mil britânicos em Espanha sofrerão as repercussões da saída. Os técnicos calculam que o PIB espanhol cresça menos duas a quatro décimas, ou seja, 2000 a 4000 milhões de euros. O desaparecimento do contributo britânico para os cofres da UE custará a Espanha mais 900 milhões de euros.

Madrid lançou a operação de publicidade e relações públicas “Invest in Madrid” para captar entidades financeiras ou empresariais que se vejam obrigadas a deixar a City. Já o Governo fez saber em Bruxelas que está disposto a acolher agências reguladoras hoje instaladas no Reino Unido, como a Agência Bancária ou a do Medicamento.

Os sectores da alimentação, automóvel e turismo serão os mais prejudicados. A quebra inicial das exportações estima-se em 500 milhões de euros, num cenário de balança comercial favorável a Espanha (7800 milhões de euros de superávit em 2015). O Reino Unido é o primeiro destino dos investimentos espanhóis na Europa; o primeiro mercado turístico, com 15 milhões de visitantes e 14 mil milhões de euros de gastos oriundos das ilhas britânicas em 2016; e o primeiro destino da emigração espanhola.

Depreciação das empresas

A queda da libra desde o referendo de 23 de junho de 2016 afetou os grandes grupos espanhóis no Reino Unido, que viram descer o valor das suas empresas na moeda britânica (60 mil milhões de euros) e a capacidade de distribuir dividendos. A Telefónica (que tem 25 milhões de clientes através da britânica O2) obtém 30% da sua receita anual além-Mancha, a Iberdrola 14% e o banco Santander 12%. Há 340 empresas espanholas registadas no Reino Unido e 437 britânicas em Espanha.
Os espanhóis que estão no Reino Unido receiam, apesar das promessas de Londres, ter de renunciar à autorização de residência ou sofrer cortes significativos nas ajudas sociais. Os britânicos que escolheram Espanha para a reforma temem que o ‘Brexit’ lhes retire o direito a receber cuidados de saúde em hospitais espanhóis. A presença britânica é importante nas costas espanholas, sobretudo no Levante: mais de 20% das casas que se vendem por ano em Espanha são compradas por ingleses e certos municípios de Alicante só têm vereadores britânicos.

A inquietude chega aos futebolistas espanhóis da Premier League inglesa e aos numerosos alunos que, ao abrigo do programa Erasmus, estudam nas ilhas britânicas. As autoridades receiam que, embora Espanha continue a ser um dos países mais europeístas da UE, a opinião pública caia no pessimismo e sucumba a apelos populistas ou de extrema-direita.

O país terá de prever as consequências do ‘Brexit’ em dois âmbitos muito particulares: Gibraltar e Escócia. Madrid já advertiu as autoridades do enclave de que passará a ser território extracomunitário depois da saída britânica. Isso poderá causar restrições na fronteira que com Algeciras. No referendo de junho, o eleitorado de Gibraltar apoiou esmagadoramente a permanência na UE (96%), ciente da sua delicada posição.

Escócia e Gibraltar

Descansa-os saber que qualquer decisão de Madrid se refletirá entre os habitantes de Campo de Gibraltar (Espanha) que entram e saem diariamente da colónia britânica para trabalho ou compras. Londres e Madrid poderão retomar o projeto de soberania partilhada para assegurar o futuro dos 32 mil habitantes do rochedo.
Já o governo regional escocês deu um estímulo aos independentistas catalães ao exprimir o desejo de ficar na UE (como quis 62% do eleitorado escocês em 2016), mesmo que isso exija nova consulta popular à independência negociada com Londres. A Espanha insiste em distinguir circunstâncias e legislações. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Alfonso Dastís, avisou uma hipotética Escócia independente “terá de se pôr na fila e solicitar a adesão à UE”. Garante que Madrid “nunca dará alento a qualquer movimento separatista na Europa".