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“A Grécia está ameaçada por uma tempestade perfeita”

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Entrevista a Georgios Katrougalos, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Grécia. Especialista em Direito Público, recebeu o Expresso no seu gabinete, em Atenas, para falar da situação do seu país, que diz estar ameaçado pela conjunção de duas ameaças: a crise orçamental e a crise dos refugiados

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Georgios Katrougalos é um dos vice-ministros gregos dos Negócios Estrangeiros. Desde que o Syriza ganhou as eleições de janeiro de 2015, passou pelo Emprego e Administração Interna. Especialista em Direito Público, recebeu o Expresso no seu gabinete, em Atenas, para falar da situação do seu país, que diz estar ameaçado pela conjunção de duas ameaças: a crise orçamental e a crise dos refugiados.

Perante o ‘Brexit’ e a crise de refugiados, a Grécia passou a ser um problema menor?
Não diria tanto, mas ficou claro que o problema não é a Grécia mas a arquitetura geral da Europa e as políticas económicas aplicadas. A “Spiegel” já escreveu sobre [a possibilidade de] ‘Nexit’ (saída da Holanda), ‘Italexit’ ou até ‘Frexit’.
Jeroen Djisselbloem [presidente do Eurogrupo], além da sua diatribe sobre os países do Sul, falou em “mudança nas políticas” para a Grécia, com “ênfase em reformas profundas”.

Como comenta?
Uma coisa que nunca faremos é cortar pensões de reforma. O ano passado harmonizámos regras e introduzimos uma pensão para os que estavam no limiar da pobreza. É o tipo de reformas que apoiaremos. Claro que o FMI tem uma visão diferente. Estamos perante uma negociação muito difícil mas não impossível.

O FMI é inimigo ou aliado do Governo grego?
Têm sido muito flexíveis no que toca à dívida mas inflexíveis no resto. O nosso primeiro-ministro sublinhou à senhora Lagarde que eles têm de pressionar no sentido do alívio da dívida, que toda a gente compreende ser necessário...

Menos alguns membros do Eurogrupo...
Compreendo as dificuldades políticas, mas uma dívida à beira dos 180% do PIB não é sustentável. Não é só o FMI que compreende isto. Penso que algumas medidas intercalares podem ser acordadas em abril.

Apesar de as eleições na Alemanha serem em setembro?
Estou a falar de medidas intercalares [como o acesso da Grécia à compra de ativos pelo Banco Central Europeu]. Veremos, depois das eleições alemãs, até porque há um processo divergente na Europa. Os excedentes da Alemanha e de outros países são a outra face dos défices enormes no Sul. Ou isto se resolve ou a União Europeia fragmenta-se.

O Governo grego ainda tem aliados na Europa?
Julgo que contribuímos para uma mudança dos sociais-democratas, ajudando a romper a aliança estratégica com as forças conservadores. Isto vê-se no Parlamento Europeu, na Alemanha e nas discussões dos líderes sociais-democratas, onde participamos como observadores. É claro para eles que não podemos continuar com a austeridade.

Exemplos?
O equilíbrio de forças na Europa está a mudar. Portugal é um exemplo claro disso, uma aliança nova das forças progressistas de esquerda, do centro-esquerda, dos ecologistas. Temos de questionar o modelo neoliberal que foi a ortodoxia durante décadas na Europa.

Cujas medidas o Syriza aplica...
Em julho de 2015 calculámos mal o grau de democracia dentro das instituições europeias e batemos contra a parede. Ou aceitávamos um novo memorando — mais suave do que os anteriores mas de austeridade e neoliberalismo — ou era a bancarrota desordenada. Temos tentado neutralizar a austeridade com políticas de crescimento e equilibrá-la com medidas de sensibilidade social. Não é uma aposta fácil, mas não é possível uma Grécia social numa Europa neoliberal.
Mas disseram em 2015 que era possível acabar com a austeridade na Grécia e criar uma aliança na Europa.

Ou não?
Não é possível sem alterar o equilíbrio de forças e isso tem um nexo de continuidade. Se não tivessem existido os Indignados em Espanha, o Syriza não estaria no Governo. E se o Syriza não estivesse no Governo, talvez não tivesse sido possível a coligação em Portugal. Talvez [Jeremy] Corbyn não fosse líder dos trabalhistas [britânicos]. Há um movimento europeu para desenhar uma nova mudança.

Olhando para as sondagens, os gregos acreditam nisso?
Continuamos em austeridade e os cidadãos gregos ainda não viram os frutos da recuperação. Queremos dar-lhes uma parte justa do caminho de crescimento onde a Grécia está lançada. E, falando em sondagens, os conservadores, nossos principais adversários, não estão a ter resultados melhores desde as últimas eleições.

O Syriza perde e a Nova Democracia estagna?
Parte do nosso eleitorado está muito cético e nada satisfeito, mas ainda não se divorciou de nós. Reorientar-se-ão, ou não, consoante os resultados da economia.

Em 2019 será diferente?
Claro que sim.

Com eleições antecipadas?
Isso seria contra o interesse nacional. Seria o mesmo que a bancarrota desordenada que evitámos em 2015. Se tivéssemos eleições agora é óbvio que o programa de estabilização descarrilaria e num ano de eleições nenhum governo europeu aceitaria um quarto programa de resgate para a Grécia.

Mais austeridade?
Não queremos novas medidas de austeridade e esse é um dos avanços que conseguimos nas negociações. No último Eurogrupo acordámos que haverá contrapropostas nossas para que o impacto orçamental destas medidas seja neutro. Por isso, não haverá austeridade adicional.

[O líder da Nova Democracia, Kyriakos] Mitsotakis diz o contrário...
Para ser franco, muitas das exigências do FMI são novas medidas de austeridade. O que queremos é equilibrar essas medidas com contrapropostas nossas. Não é o ideal, mas é o compromisso doloroso que decidimos aceitar em 2015 porque compreendemos que a mudança na Europa estava a chegar, mas não tão rapidamente como esperávamos.

Há um ano, disse à BBC que a situação no campo de refugiados de Idomeni era “atroz”. Passou um ano, 60 mil pessoas ainda estão na Grécia e há fotografias terríveis dos campos. Que se passa?
Temos estado no meio de uma tempestade perfeita, no sentido em que tivemos simultaneamente uma crise económica e uma crise de refugiados. Faltam recursos e houve constrangimentos políticos. A decisão europeia é recolocar as 60 mil pessoas que estão na Grécia, mas só aconteceu isto com 12 mil. Se as decisões da UE tivessem sido aplicadas, não haveria praticamente um refugiado na Grécia. É algo que nos transcende, é um assunto europeu e deve ser resolvido com solidariedade e não atirando a carga para cima dos países-fronteira.

Está esperançoso?
Sim, ainda que as coisas na Europa estejam a avançar devagar. O projeto europeu não é apenas um mercado comum. Tem a ver com mantermo-nos fiéis a valores sociais básicos, e a solidariedade é um deles. Não podemos deixar sedimentar o legado do neoliberalismo e da “fortaleza Europa”. Caso contrário, na próxima década, não teremos União Europeia.

Algumas ONG acusam o Governo grego de usar a crise dos refugiados para ganhar vantagem nas negociações financeiras...
Nunca fizemos isso porque achamos que os seres humanos não devem ser usados como meios para atingir um fim. Temos uma boa relação com a maioria das ONG, muito embora algumas tenham a sua própria agenda. Precisamos de cooperação e da ajuda da sociedade civil para remediar uma situação muitíssimo má.

A situação na Turquia pode influenciar o acordo de refugiados?
O acordo de março passado não é o ideal. Tem muitos aspetos problemáticos mas é a melhor solução, talvez a única, para controlar o fluxo de migrantes e refugiados vindos da Turquia. Até agora o acordo tem sido respeitado pelas duas partes. Esperamos que a situação na Turquia não se deteriore. É do nosso interesse, não apenas dos gregos mas de todos os europeus, ter uma Turquia europeia.

E o conflito diplomático Holanda/Turquia?
A escalada de tensão com a UE parece estar relacionada com questões domésticas, ligadas ao referendo de abril. É do interesse de ambas as partes desanuviar. Devemos continuar a manter sociedades abertas e liberais, resistindo aos gritos xenófobos da extrema-direita que vê as relações da Europa com os países islâmicos sob um prisma de conflito entre civilizações ou religiões. A Turquia, por seu lado, deve respeitar o acervo comunitário europeu do respeito pelo Estado de direito e pelos direitos humanos, de forma a manter as suas perspetivas europeia.