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Internacional

Uma festa eclética em tempos difíceis

EU / ETIENNE ANSOTTE / HANDOUT/ Reuters

No momento em que a UE faz 60 anos, há pela primeira vez um membro a abandoná-la voluntariamente, ao mesmo tempo que crescem forças que visam destruí-la

ROSSEND DOMÈNECH, correspondente em Roma

A União Europeia (UE) celebra 60 anos da sua fundação, este sábado, na mesma sala do Capitólio de Roma, outrora umbigo do Império Romano, onde foi assinado, em 1957, o Tratado de Roma. Este sucedeu aos tratados de 1951 sobre o mercado comum do carvão e do aço e da energia atómica.

A efeméride reúne não só 40 chefes de Estado e Governo e as máximas autoridades da UE, como todas as tendências políticas e sociais atualmente presentes no continente ou, nas palavras do ex-embaixador Sergio Romano, “os sonhos distintos”. Dos que protestam contra a globalização, ou “black bloc”, até a ONG como os Médicos sem Fronteiras e a Save the Children, passando por grupos que pedem uma aceleração rumo à Europa federal e pelos que não querem Europa unida de espécie nenhuma. Extremistas de esquerda e ultras da direita, insatisfeitos por haver “pouca Europa” e indignados por haver “demasiada União”.

Enquanto os representantes da UE estiverem reunidos no edifício que é hoje sede do município da capital italiana, haverá na cidade quatro manifestações de rua e duas “vigílias” pró e anti-UE. Prevendo choques com a polícia ou ataques a símbolos europeus ou da globalização económica, como bancos e instituições financeiras, ou ainda atentados inspirados pelo terrorismo islâmico, as autoridades aumentaram de 3000 para 8000 os agentes que vigiam os chamados alvos sensíveis.

A preocupação cresceu depois do atentado de Londres na quarta-feira, da tentativa falhada em Antuérpia no dia seguinte e das ameaças do Daesh de chegar “até São Pedro”, isto é, ao Vaticano. Foram instaladas mais 100 câmaras nas ruas, dotadas de mecanismos que permitem a identificação certeira de pessoas.

Enquanto Roma se preparava para a “festa da Europa”, numas salas barrocas os funcionários dos 27 Estados-membros lutavam por uma declaração final comum relativa ao aniversário. É tarefa dura, depois do “Brexit”, das críticas da Turquia a uma Europa “fascista e cruel”, das incursões russas a Leste e da eleição do eurocético Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos da América.

“Nós, líderes dos 27 e das instituições europeias, estamos orgulhosos dos resultados da União”, lê-se no arranque da declaração. “A Europa deve seguir adiante”, dissera o Presidente italiano, Sergio Mattarella, perante as duas câmaras do parlamento italiano, reunidas numa sessão conjunta. É a primeira mensagem política que a UE dirige aos seus cidadãos, dias antes de ser desencadeada a saída do Reino Unido. Enquanto a Europa recebe milhões de emigrantes de outras culturas e continentes, o terrorismo incita ao fechamento, impedindo o avanço rumo a novos objetivos.

A questão fundamental que os líderes europeus tiveram de debater é o futuro da União. O rascunho da declaração mencionava a introdução de “duas velocidades”, como sucedeu com o espaço Schengen e o euro, mas a Polónia rejeita qualquer tipo de “hegemonia” de uns países sobre os demais. “Não absoluto a uma UE com velocidades distintas”, declarou ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Witold Waszczykowski.

A frase-chave deverá ser, salvo surpresas vindas de Varsóvia: “Agiremos juntos com velocidades e intensidades diferentes, movendo-nos na mesma direção, como fizemos no passado, em linha com os tratados e mantendo a porta aberta aos que quiserem unir-se mais tarde”. Até ao final do ano, os líderes da UE apresentarão aos governos nacionais as “velocidades e intensidades diferentes”, que deverão materializar-se em seis iniciativas nos âmbitos sociais da União, defesa, terrorismo e melhor governação coletiva.

Numa Europa em que as esquerdas estão ausentes e as direitas insistem em políticas de austeridade que geraram desigualdades sociais, alimentando numerosos partidos e movimentos populistas e antieuropeus, os radicais italianos – de Marco Pannella e Emma Bonino —, que foram os primeiros europeístas do país, tomaram uma iniciativa inédita nas redes sociais. Talvez seja algo assim que os cidadãos esperam dos seus políticos.

Chama-se “Europa First”, como no lema eleitoral de Trump. O subtítulo “Tudo o que sabes sobre a Europa é falso” é pretexto para desfazer preconceitos e ideias feitas que circulam entre os europeus. Contra a ideia de que “a UE não serve para nada”, o facto de nos ter dado 60 anos de paz; contra “o euro é uma desgraça”, a UE continua a ser o primeiro mercado do mundo; se a UE “não tem política comum” é porque os Estados nacionais não deixam; e se é acusada de ser um “monstro burocrático”, os seus funcionários são 55 mil… contra os 62 mil assalariados da Câmara Municipal de Roma, com sede no Capitólio, isto é, o edifício onde decorre a festa dos 60 anos do nascimento da UE.