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David Leite: “Odiava ser português”

d.r.

É um dos melhores escritores sobre gastronomia dos Estados Unidos. Filho de açorianos, homossexual e bipolar, partilha nesta conversa exclusiva parte das suas memórias, que serão publicadas no próximo mês de abril

Alexandre Soares, nos EUA

O pequeno David saía da escola, em Fall River, Massachusetts, e seguia direto para a frente da televisão. Na rua, os outros meninos ficavam a jogar à bola.

“O lugar certo para um rapaz de 12 anos atormentava-me”, lembra o escritor. “Porque não me dava nenhum prazer e lembrava-me de quão problemático era.” David procurava o canal certo, com tanta força que a mãe temia que partisse o botão, até começar a ouvir a música do genérico de “The French Chef”, da célebre cozinheira Julia Child. De repente, o ciclo de pensamentos punitivos na sua cabeça desacelerava. “A terrível noção de que via o mundo através de um telescópio, tudo à distância e abafado, cessava.”

Quase 45 anos depois, encontramos David no Upper East Side, em Nova Iorque, numa manhã de sol. Usa uma camisola verde e uns calções cor de rosa e fala com entusiasmo da sua horta na casa de Litchfield, no Connecticut, onde vive parte do ano, da viagem para Martha’s Vineyard com o companheiro, Alan, e de todo o marisco que planeia comer nesse fim de semana.

Ainda lida com a doença mental, atravessando momentos de depressão, mas, depois de 30 anos passados em especialistas, foi-lhe diagnosticado bipolaridade e tem os sintomas controlados. Aceitou a doença, como anos antes aceitara que era homossexual e, ainda antes disso, português — um português dos Açores. Cada processo de aceitação, uma viagem de descoberta, uma luta.

Foi ator e publicitário, mas acabou por tornar-se um dos escritores sobre comida mais celebrados do país. Venceu dezenas de prémios, incluindo o prémio Julia Child para melhor primeiro livro e o prémio James Beard de melhor site sobre cozinha em dois anos consecutivos. Esta primavera terminou de escrever as suas memórias, que serão publicadas no final do ano, e sobre as quais conversou com o Expresso pela primeira vez.

Como foi crescer em Fall River, uma cidade tão açoriana?
Odiava. Na televisão, via todas estas pessoas com cabelo louro e olhos azuis e não estavam a comer polvo nem bacalhau. Estavam a comer hambúrgueres, cachorros, carne assada no forno. Sentia-me muito diferente. Não queria ser português. A minha mãe nasceu nos EUA, mas o meu pai e os avós dos dois lados são de São Miguel. A minha mãe foi visitar os Açores em 1957, conheceu o meu pai, casaram-se na igreja-matriz de Ponta Delgada e regressaram juntos em 1958. Nasci em 1960.

Em sua casa falava-se português ou inglês?
O meu pai queria aprender a falar inglês, por isso falávamos inglês. Às vezes, falavam português entre eles, mas eu não entendia. A minha avó falava um pouco de inglês e eu falava um pouco de português, mas a regra era o inglês. Comecei a aprender português depois de fazer 40 anos.

Estavam integrados numa grande comunidade portuguesa. Ainda assim sentia-se isolado?
Estávamos numa área muito portuguesa, mas eu sabia que não refletia o resto do mundo. Sabia que não havia muitos portugueses, porque não via nenhum na televisão. Rejeitei tudo o que tinha que ver com Portugal. Não queria ter contacto com a cultura, comida ou herança portuguesas. Não ia às festas, às paradas, à celebração do Espírito Santo. Isto desde que tinha nove ou dez anos e até ir para a universidade. Não queria ter nada que ver com ser português. Nada.

Havia preconceito?
As pessoas sentiam que se podiam aproveitar de nós. O meu pai conta que quando veio para a América começou a trabalhar em construção. Não me lembro dos valores certos, mas um dia percebeu que todos os outros homens estavam a fazer qualquer coisas como 1,50 dólares e ele recebia apenas 1 dólar. Perguntou ao patrão o motivo e o homem respondeu-lhe: “Porque és um estúpido portugee [termo pejorativo dado aos portugueses na América].” O meu pai é um homem muito inteligente. Saiu pouco depois e em menos de nada era o carpinteiro principal da empresa de construção concorrente.

Nos Estados Unidos é muito comum perguntar-se pelas origens de alguém. O que respondia?
Dizia que era americano. O meu pai corrigia-me. Dizia: “Não, também és português.” Mas eu dizia que não, que tinha nascido na América. Nunca dizia que era português. Só comecei a dizê-lo depois dos 30 anos.

Como é que isso começou a mudar?
Foi através da minha avó Costa, a mãe da minha mãe. Quando ela morreu, todas estas coisas desapareceram. Ela fazia um recheio, que no continente chamam migas, com chouriço, que era fantástico. A minha mãe tinha a sua versão, mas não era a mesma coisa. Ela fazia uma sopa de galinha cor de rosa, que ninguém sabe como é que ela a fazia, e isso desapareceu. Fazia tortas com ovos, cebola e chouriço. Tudo isso desapareceu. Pensei: “Meu Deus, parte da minha herança acabou de desaparecer. Dava tudo isto como garantido e não percebi que estava a desaparecer.” Foi nessa altura que me comecei a interessar por comida e em preservar os pratos da minha família. Comecei a entrevistar a minha mãe, mas ela não cozinha com medidas, é tudo à mão. Decidi então filmá-la e foi assim que ela começou a falar da nossa comida, da nossa família e eu interessei-me mais. Isso deu-me a ideia para um artigo, o primeiro que escrevi, para o “Chicago Sun Times”, sobre preservar a tua herança cultural através de vídeos.

d.r.

Começava assim uma carreira como escritor, depois de tentar muitos trabalhos diferentes.
Fui para a faculdade de design com a ideia de fazer os quatro anos, mas acabei a fazer dois porque decidi ser ator. Estudei representação na Universidade de Carnegie Mellon durante algum tempo, desisti, vim para Nova Iorque e tornei-me empregado de mesa. Representei muito pouco. Acabei por entrar no mundo da publicidade, como copywriter, e fiz isso durante 18 anos. Durante este tempo todo nunca me identifiquei como português, muito menos como açoriano.

Como é que se dá a reconciliação com a sua herança?
Tinha parado de trabalhar em publicidade e estava de novo na universidade, em Hunter, para me tornar terapeuta. Um dia o meu parceiro, Alan, disse “Vou fazer um bolo.” Não andava a comer. Estava muito, muito, muito magro, quase anorético, praticamente não comia. Disse-lhe que fosse em frente. Ele bateu o bolo e perguntou-me se queria lamber a tigela. Chateou-me tanto, falou tanto, que concordei. Rapei a tigela e foi como se me lembrasse de coisas do passado, como aquele clichet do Proust. Lembrei-me daquele sabor, mas nunca tinha feito bolos e a minha mãe também não. Liguei-lhe para confirmar. Perguntei-lhe se fazia bolos, se a Dina fazia (o meu diminutivo para madrinha, porque não o conseguia dizer quando era pequeno) ou se a avó fazia. E ela respondeu que sim, que a avó fazia. De repente, lembrei-me de estar a cozinhar com a minha avó em frente ao forno. Ela puxava uma cadeira, virava-a de costas para o forno e sentava-me lá. Vestia-me uma camisa do avô, de avesso, enrolava as mangas, e cozinhávamos os dois. Lembrei-me de tudo isso através do sabor do bolo. Foi aí que comecei a estudar gastronomia e me inscrevi no Instituto de Educação Culinária.

Quis sempre escrever sobre comida, nunca tornar-se cozinheiro. Porquê?
Primeiro, porque ser chefe dá muito trabalho. E não muito dinheiro, como escrever, aliás. Ser chefe é muito, muito difícil. Escrever é mais sobre expressar-me, pensar no que tenho dentro, trazê-lo para fora e arranjar forma de me ligar com as pessoas através das palavras. Gosto de cozinhar para pessoas em minha casa, mas nunca quis ter um restaurante. O meu desejo de comunicar foi sempre maior do que o desejo de alimentar pessoas.

De forma curiosa, os seus primeiros artigos acabam por ser todos relacionados com o facto de ser português. Como é que isso aconteceu?
A minha avó morreu em 1992. O meu primeiro artigo sai em 1998. Foram seis anos de transição em que abracei o facto de ser português. Na altura, ninguém sabia nada sobre Portugal, ninguém sabia nada sobre os Açores. Distingui uma oportunidade para comunicar. Se fosse para uma revista e dissesse que tinha uma receita para um bolo de baunilha, diziam-me que um milhão de pessoas também a tinham. Mas se dissesse que tinha a receita da minha avó, que era portuguesa, isso era diferente. Era tão diferente e único ser português que se tornou muito fácil interessar os editores.

Durante esses seis anos, o que é que fez para se ligar com a história da sua família?
Fiz os vídeos com a minha mãe. Aprendi com a minha tia Helena a fazer chouriço e linguiça. Fiz pimenta moída com o meu pai, fiz vinho com ele, que tem vinhas no quintal, como tantos emigrantes. E visitei os Açores, quando tinha 30 e muitos anos, com o Alan.

Como é que foi essa viagem?
Tenho de ser muito honesto. Não sei se foi porque éramos dois homens, mas não foi muito amigável. As pessoas pareciam desconfiadas. Falei sobre isso com a minha tia, que cresceu lá e regressa muitas vezes, e ela usou a palavra ‘fechados’. Eles devem ter essa qualidade muito, muito privada. E nós estávamos sozinhos. Uma amiga deixou mensagem no hotel quando chegámos, mas só nos foi entregue dois dias antes de partirmos. A viagem aconteceu durante a festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Ela ficou furiosa, mas depois, em dois dias, mostrou-nos a ilha toda e divertimo-nos bastante. Através dela, de ‘fechados’, [os açorianos] passaram a ‘abertos’. Antes disso foi muito, muito difícil. Estive quase para vir embora. Ainda bem que não o fiz, porque depois conheci a minha amiga, o marido dela e foi fantástico.

Não esperava essa qualidade reservada conhecendo a comunidade em Fall River?
As pessoas que vieram para os EUA queriam construir uma vida melhor. Vieram abertos para tudo, queriam fazer parte de uma comunidade e ajudar-se uns aos outros. Quando era criança, tínhamos um quarto livre e tínhamos sempre alguém que ficava lá. Muitas pessoas, adultos, crianças, que vinham para a América pela primeira vez, ficavam connosco. Eram estranhos quando vinham, mas ajudávamos na mesma. Quando fui eu o estranho, não foram tão abertos. Da segunda vez, já foi diferente.

Visitar as ilhas ajudou-o?
Muito, porque de repente estava a ver a casa em que o meu pai viveu, o sítio onde os meus pais se casaram e foi muito emocionante.

Como foi visitar a casa do seu pai?
Foi o momento mais emocionante. Lembrava-me de o meu pai falar do quintal, onde criavam um ou dois porcos, e da casa de trás, onde dizia que as galinhas te mordiam o rabo quando te sentavas. Contou-me que o chão era de terra, que a casa tinha apenas uma sala, uma cozinha, um quarto para os pais e que os cinco irmãos dormiam todos no sótão. Alguns tinham 19 e 20 anos e ainda dormiam no sótão. Quando fui visitar a casa, que agora pertence a uma prima, a casa tinha ladrilhos no chão, um sofá confortável, casa de banho, um fogão moderno. No quintal, o sítio dos porcos tinha sido transformado num churrasco. Fiquei desiludido. Ouvia histórias sobre esta casa desde que era pequeno e era como se ela já não existisse. Foi nessa altura que perguntei à minha prima se ainda tinha o forno, e ela respondeu: “Sim, sim.” Ela puxou o fogão para fora e mostrou uma folha de metal na parede. Arrancámos o metal e lá estava o forno. Foi maravilhoso, porque era lá que tudo acontecia, onde a minha avó alimentava toda a família com quase nada.

Isso mudou a forma como olhava para a sua família?
A minha mãe tinha-me contado que as mulheres se juntavam para ter sempre pão. A minha mãe fazia na segunda, a tua mãe numa terça, outra numa quarta. Assim, na segunda, a mulher da quarta-feira vinha buscar um pão para a sua família, que depois pagava na quarta quando cozesse. Toda a gente garantia que os outros tinham o que comer. Nunca ficavam esfomeados, apesar de terem fome algumas vezes. Quando vi aquele forno, foi como se fosse levado ao início de tudo. Olhava de forma condescendente para a minha família e para todos os emigrantes açorianos.

Como?
Como se fossem menos e não tivessem cultura, fossem ignorantes. E de repente, ao olhar para aquele forno, tão rústico, percebi como é que eles viviam e a imensa coragem que tinha sido necessária para deixar o pedaço de terra que tinham, vender o único património, e partir para a América. E todos tiveram sucesso. Todos os meus tios e tias têm três e quatro casas. A minha tia Ana comprou uma casa para cada um dos filhos. Percebi que nunca tinha dado à minha família e aos outros açorianos o respeito que mereciam. Isto fez-me abraçar o facto de que sou português, aceitá-lo. Nunca mais tive vergonha de ser açoriano. Tenho muito orgulho.

O processo de se aceitar como português, ajudou-o a aceitar-se como homossexual e bipolar?
É uma boa questão. Sabia que era português, mas não o aceitava. Por isso tive de embarcar numa viagem de aceitação. Quanto à doença mental, não sabia exatamente o que tinha até aos 36 anos. Quando o percebi, já tinha feito esta viagem, por isso tinha um modelo de como aceitar algo sobre mim. E a mesma coisa sobre a identidade sexual. Sabia desde muito novo que era homossexual, só não o queria admitir. Lutei contra isso, tentei mudar, juntei-me a um culto, fiz tudo o que era possível. Abraçar a minha identidade portuguesa deu-me a coragem de não fugir de quem era sexualmente e de aceitar o facto de que tenho uma doença mental.

Memórias. David Leite está a escrever a sua biografia que será publicada em abril

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d.r.

Uma viagem deu-lhe um modelo para as outras?
Ser português foi a primeira crise de identidade que tive, era muito novo. Ser gay veio depois, e a doença mental ainda mais tarde. Foi-se desenvolvendo. As três coisas foram viagens de autoaceitação. Aprendi a ter orgulho em ser português, ser gay e também bipolar. Com a primeira, percebi que podia fazer isto, partir de algo que odiava para algo de que sou extraordinariamente orgulhoso. Nunca mais vou dizer que sou apenas americano. Sou americano, mas sou luso-americano.

Em 2004 tornou-se mesmo cidadão.
Atravessei tudo isto e percebi que o último passo era tornar-me cidadão. Vivi quase um ano em Lisboa, num apartamento junto à Sé. O meu pai teve de abdicar da sua cidadania quando se tornou americano, porque os dois países não deixavam ter dupla nacionalidade na altura, e então tornou-se ainda mais interessante que tenha conseguido recuperar algo que o meu pai perdera.

Acha que os novos imigrantes ainda passam pelas mesmas experiências?
Acho que é sempre mais típico na primeira geração. Mas também penso que foi um momento particular da história. Agora, com aviação comercial, televisão por cabo, internet, toda a gente sabe um pouco sobre tudo. Na altura, se conduzisses 100 km, já não encontravas nenhum português, as pessoas já não sabiam nada sobre portugueses. Os portugueses vieram e começaram bem por baixo. O meu pai cresceu muito, muito pobre. A nossa casa era como a de todos os outros. Uma geração permanecia completamente portuguesa e a outra tornava-se totalmente americana. Era quase esquizofrénico. Em casa, na igreja, era uma coisa. Ias para a escola e eras outra diferente. Acho que as novas gerações não vão ter de passar por isso.

A mesma coisa com crescer homossexual?
O mesmo. Crescendo nos anos 60, sabias que eras homossexual mas não sabias bem o que isso era e não conhecias ninguém como tu. Sabias apenas que era algo horrível, um pecado. Hoje vejo jovens de 14 anos que têm namorados, se forem rapazes, e namoradas, se forem raparigas. Vão ao baile de finalistas com uma pessoa do mesmo sexo. Eu teria sido espancado. Os tempos mudaram e estou muito feliz por dizê-lo.

Nos últimos anos, abriram nos EUA restaurantes portugueses com muito sucesso, há vários livros a vender muito bem, chefes conhecidos que vão à televisão. Acha que a cozinha portuguesa está a ter um momento bom nos EUA?
Ainda não. O que penso é que o conhecimento sobre Portugal explodiu. Foi nomeado como o melhor destino de férias por várias publicações. Sei de vários casamentos que acontecem este ano em Portugal, de americanos que nem são portugueses, e que querem casar-se no Estoril ou em Cascais. Isso é ótimo. Acho que o que se está a passar com os chefes portugueses é que deixaram de tentar seguir o exemplo dos espanhóis e estão a encontrar a sua verdadeira essência. Isso era justificável, porque há muito mais atenção em volta de Espanha, mas agora percebeu-se que se pode fazer diferente e ter sucesso.

A cozinha portuguesa pode tornar-se uma grande gastronomia, como a italiana ou a chinesa?
Ainda pode crescer muito o seu reconhecimento, mas será muito difícil tornar-se mainstream porque é um país muito pequeno.

Os seus pais ainda estão vivos? Como é que veem esta sua viagem?
Têm muito orgulho em mim. Quando fui a Portugal pela primeira vez, queria que viessem comigo. Disse que pagava tudo, que queria que me mostrassem onde se casaram, que renovassem os votos na mesma igreja. Queria viver e experienciar a ilha através dos seus olhos. Eles não regressavam desde 1958. A minha história tinha completado um círculo. Essa era a única parte que não estava completamente fechada. Tê-los aos dois em Portugal comigo teria resolvido isso. Estiveram indecisos, mas o meu pai acabou por dizer que não. Perguntei-lhe porquê, e ele disse que não queria ser lembrado de toda a pobreza. Disse que a ilha tinha mudado muito, que já não era pobre. Ele respondeu: “Também não quero ver isso.” Ele não queria lembrar-se de como era, mas também não queria ver que tinha mudado.