Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Nunes pede desculpa por passar por cima dos colegas para fornecer informações privilegiadas à Casa Branca

Win McNamee

O legislador lusodescendente, que preside à comissão permanente de serviços de informação da Câmara dos Representantes, foi acusado de obstrução à Justiça e de tentar interferir na investigação às alegadas ligações de pessoas próximas de Trump ao governo russo

O chefe da comissão de serviços de informação da Câmara dos Representantes pediu esta quinta-feira desculpa aos colegas pela forma como geriu alegações sobre as agências de espionagem dos EUA terem posto a equipa de transição do Presidente Donald Trump sob vigilância depois da vitória do republicano nas eleições de novembro.

Na quarta-feira, Devin Nunes, legislador republicano descendente de açorianos que foi conselheiro de transição de Trump e que mantém ligações próximas à administração, foi duramente criticado pelos colegas da comissão permanente a que preside por ter convocado uma conferência de imprensa para anunciar que membros da equipa do Presidente foram alvo de "vigilância fortuita" das agências secretas norte-americanas no âmbito de uma investigação a cidadãos estrangeiros.

Os democratas ficaram particularmente zangados com o facto de Nunes ter avançado estas informações aos jornalistas mas sobretudo por ter ido passá-las à Casa Branca de Trump sem antes falar com os restantes membros da comissão. Adam Schiff, o democrata de topo do comité responsável por supervisionar a atuação das agências de espionagem, disse mesmo que a atitude de Nunes põe em causa o futuro da investigação que o Congresso tem em curso às alegadas ligações de elementos da campanha de Trump ao governo russo.

"Ele pediu desculpa à minoria [democrata] na comissão por ter falado publicamente e com a Casa Branca sem partilhar as informações com a minoria", disse um assessor dos republicanos à Reuters. "Ele prometeu que vai trabalhar com eles nesta questão e que vai partilhar as informações com eles." Contactada pela agência sobre o pedido de desculpa, Jackie Speier, representante democrata que integra a comissão, disse que Nunes fez um ato de contrição "de forma genérica".

A comissão de serviços de informação que Nunes lidera a par com Schiff está a cargo de um dos princpiais inquéritos do Congresso às suspeitas de que a Rússia tentou influenciar o resultado das eleições presidenciais, entre outras estratégias através de uma campanha contra Hillary Clinton coordenada com a equipa de Donald Trump — alegações que o governo de Vladimir Putin desmente. Um porta-voz do republicano disse apenas que Nunes "tem de obter todos os documentos que pediu à IC [comunidade de serviços de informação] sobre o assunto antes de saber com certeza" se os sócios do Presidente mantiveram contactos com elementos russos.

Na segunda-feira, o diretor do FBI, James Comey, confirmou pela primeira vez ao Congresso que as autoridades federais já abriram uma investigação a estas suspeitas. Ontem, a líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes disse que Nunes é "um tagarela predisposto" a arriscar a investigação em curso para proteger Trump, acusando-o de executar uma "manobra na Casa Branca" com esse intuito. "A necessidade de uma investigação independente está a ser cada vez mais reconhecida" pelas autoridades, acrescentou Nancy Pelosi.

Os comentários de Nunes foram usados pela Casa Branca para defender o Presidente Trump, depois de há duas semanas ter alegado sem provas que o antecessor, Barack Obama, ordenou escutas à sua sede de campanha na Torre Trump em Nova Iorque antes das eleições. Essas acusações foram desmentidas na segunda-feira tanto pelo diretor do FBI como pelo diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), o almirante Mike Rogers, nos depoimentos ao Congresso. Trump ancorou-se nas declarações de Nunes apesar de o próprio legislador ter sublinhado que a informação que recolheu junto das secretas não sustenta as alegações do Presidente nem tem a ver com as alegadas ligações da equipa do Presidente à Rússia.

Os democratas acusam Nunes de revelar informações confidenciais aos jornalistas depois de as passar à administração Trump, mas o seu porta-voz garante que não foi assim. No rescaldo das críticas que angariou, o lusodescendente, que integrou a equipa de transição de Donald Trump, também tentou desculpar-se publicamente pelo sucedido. "Estava a passar-se muita coisa ontem [quarta-feira] e foi uma decisão que tomei", disse ontem aos jornalistas. "Por vezes tomamos decisões certas e por vezes tomamos decisões erradas, o que é preciso é mantermo-nos fiéis às decisões que tomamos."

Até ver, e segundo outro democrata que integra a comissão de serviços de informação, o representante Eric Swalwell, em declarações à MSNBC, a equipa do comité legislativo ainda não viu o material a que Nunes se referiu.

  • Interferência de legislador lusodescendente põe “em risco” investigação Trump-Rússia

    Devin Nunes, atual chefe da Comissão de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, que integrou a equipa de transição de Donald Trump, está a ser acusado de obstrução à Justiça por revelar pormenores de um inquérito em curso à Casa Branca e aos media. Adam Schiff, democrata de topo daquela comissão, não exclui a possibilidade de abandonar a investigação por causa do comportamento do colega republicano, que “levanta enormes dúvidas sobre se o inquérito pode ser conduzido de forma credível”

  • Mas quais escutas?

    O fim de semana foi prolífico em acontecimentos na América de Donald Trump. No Twitter, o Presidente lançou-se em ataques contra Barack Obama por alegadas escutas durante a campanha. Os especialistas foram rápidos a apontar que, com isso, o Presidente só está a incriminar-se na investigação à interferência dos russos nas presidenciais. As tentativas de encobrimento continuam a amontoar-se – falta é apurar qual foi o crime