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Polícias e muçulmanos são protagonistas de vigília em Londres

FACUNDO ARRIZABALAGA / EPA

Parece impensável ver tantas pessoas numa concentração a conversar com tantos polícias ao mesmo tempo. Mas foi isso o que aconteceu na noite desta quinta-feira numa vigília em memória das vítimas do atentado do ontem em Londres, em que cinco pessoas morreram e 29 ficaram feridas

A homenagem era às vítimas. Mas, entre a multidão que se juntou em Trafalgar Square a partir das 18h, um dos principais protagonistas foram os agentes da autoridade. Muitos elementos da Polícia Metropolitana encontravam-se presentes. Estavam em serviço. No entanto eram constantemente abordados por cidadãos. Vinham-lhes agradecer por manterem a cidade segura. Ou apresentar condolências pela perda do colega Keith Palmer, que morreu na quarta-feira.

O autor dos ataques foi identificado pela polícia como sendo Khalid Masood, 52 anos, britânico de Kent, condenado em 1983 e 2003 por crimes não relacionados com terrorismo.

Na vigília, Keith Palmer foi lembrado e elogiado nos discursos. “Ele era corajoso, era valente, e estava a cumprir o seu dever”, disse a ministra britânica da Administração Interna, Amber Rudd.

HANNAH MCKAY / REUTERS

Os agentes da polícia que estavam em Trafalgar Square foram tributários de homenagens diretas. Por toda a praça, onde havia polícias, havia alguém a conversar com eles.

A morte de Palmer recolocou na agenda uma questão histórica acerca dos polícias britânicos andarem ou não armados. Salvo na Irlanda do Norte, a maioria anda desarmada “Nunca senti necessidade. E não acho que o necessitemos agora”, disse ao Expresso Jon Biddle, 47 anos, há 27 na Polícia Metropolitana. Biddle fala à vontade, não há nenhuma hierarquia que o impeça de conversar com um jornalista ou quem quer que seja. “Não trabalho para o Governo, trabalho para a Rainha”, justifica.

A polícia britânica, recorda Biddle, rege-se pelos princípios do consentimento e respeito. “Somos cidadãos de uniforme”, diz. E andar armado, em Londres, não é necessário. “É uma cidade segura. Não tenho medo de nada”, conclui.

Carl Court

Medo parece uma palavra riscada do vocabulário londrino, apesar da cidade acabar de ser alvo de um atentado. Na ponte de Westminster, palco do ataque, é como se nada tivesse acontecido. Ao princípio da tarde, as pessoas iam e vinham normalmente no passeio sobre o qual Masood avançou com seu carro. Os turistas tiravam as fotos clássicas do Big Ben e do London Eye. Os automóveis circulavam sobre a via, sem nada, nenhum carro de polícia, nenhuma barreira, que impedisse que um ataque rigorosamente igual pudesse ocorrer novamente.

Não estivesse ainda cortado o acesso ao Palácio de Westminster, onde está o Parlamento, e ninguém imaginaria que ali houvera um atentado. Em Whitehall, que abriga os principais edifícios do Governo, as ruas também se mantinham encerradas. Só passavam pessoas, bicicletas e polícias a cavalo. Era dos poucos locais em Londres onde se viam polícias armados – e muito bem armados.

Getty

Em Trafalgar Square, no final da avenida Whitehall, começava a vigília. O português Nuno Dias foi um dos que desafiou o frio e foi até lá. “É importante mostrar que tudo está normal. Tudo correu exatamente como diz o ditado: keep calm and carry on [manter-se calmo e seguir em frente]”, afirma.

Gestor de projeto, há oito anos em Londres, Nuno Dias trabalha pertíssimo de Westminster. Do seu escritório, no 27º andar da Millbank Tower, vê-se claramente a ponte onde tudo ocorreu. Quando um colega viu o que se passava nas notícias, foram todos para a janela. Mas logo a seguir, assim que o movimento acalmou, voltaram a trabalhar e ficaram a acompanhar pela BBC. Ninguém saiu a correr, ninguém deixou o trabalho mais cedo, a não ser uma colega que estava preocupada com os transportes. “Estava tudo normal. Havia um jantar à noite, fomos na mesma”, conta Dias.

O número de mortos no ataque subiu esta quinta-feira para cinco. Keith Palmer foi esfaqueado e Khalid Masood, abatido pela polícia. Um turista norte-americano, Kurt Cochran, 52 anos, e a professora Aysha Frade, 43 anos, britânica/espanhola, casada com um português, morreram no próprio dia, atropelados. Hoje, um homem de 75 anos, que tinha ficado ferido, também acabou por falecer no hospital.

Oito pessoas foram detidas em Londres e Birmingham, por suspeitas de envolvimento no ataque. O autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) reivindicou o atentado.

Jack Taylor / Getty

Em Trafalgar Square, a presença de vários muçulmanos foi tão apreciada como a dos polícias. “O que aconteceu ontem é contra qualquer fé, qualquer religião”, disse ao Expresso Mohammed Zelem, natural do Bangladeche e a viver há vários anos em Londres. Estava na vigília acompanhado de um grupo com cerca de duas dezenas de muçulmanos da organização Muslim Aid. Seguravam cartazes com o símbolo do metro londrino e onde deveria estar escrito “Underground”, lia-se “We are not afraid” [Não temos medo].

Muitos que passavam cumprimentavam-nos. Agradeciam, passavam-lhes as mãos pelos ombros, davam abraços e até beijos. Houve quem chorasse. “Estou feliz que estejam cá”, disse uma inglesa.

“Estamos aqui para mostrar o verdadeiro sentido do Islão”, disse Zisham Ahmod, da Imam Ahmadiyya Muslim Association. “O Corão diz que matar uma pessoa é o mesmo que matar toda a humanidade”.

Com a noite e o frio a avançarem, a multidão que inicialmente se juntara em Trafalgar Square foi rareando. Mas enquanto uns iam embora, outros ainda estavam a chegar, depositando velas nalguns pontos da praça.

A onda de solidariedade com a polícia fez com que, num só dia, uma campanha para ajudar a família de Keith Palmer tenha conseguido recolher 300 mil libras (350 mil euros) de donativos.

O clima na praça era de fraternidade. Os polícias continuavam a conversar, mas também vigiavam. Quando uma patrulha passou com cães farejadores junto de uma das fontes de Trafalgar Square, um dos animais pôs-se sobre as patas traseiras e quase saltou para a água. “Calma, calma”, disse a agente que o segurava. “Talvez mais tarde, quando toda a gente tiver ido embora”.

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