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Internacional

Partido populista responsabilizado por surto de sarampo em Itália

Jeff J Mitchell

Dados do Ministério da Saúde apontam que, desde o início de 2017, já foram registados mais de 700 casos da doença altamente contagiosa, contra um total de 844 em todo o ano passado. MoVimento 5 Estrelas de Beppe Grillo tem feito campanha contra a vacinação, recorrendo a estudos já desacreditados pela ciência sobre supostas ligações entre a imunização de crianças e o autismo

Um funcionário de alto nível do Ministério da Saúde italiano acusa o partido populista MoVimento 5 Estrelas de ser responsável pelo número alarmante de casos de sarampo registados no país desde o início deste ano. Segundo dados do ministério, desde janeiro já deram entrada em hospitais mais de 700 pessoas com a doença altamente contagiosa, contra 220 no mesmo período em 2016 e um total de 844 casos em todo o ano passado. O MoVimento (M5S) de Beppe Grillo tem feito campanha antivacinação de crianças contra esta e outras doenças infecciosas, recorrendo a estudos desacreditados pela ciência que atribuem casos de autismo infantil a essa medicação preventiva.

Em 2015, o M5S apresentou uma proposta de lei contra a vacinação de crianças por causa do que diz serem "ligações entre as vacinas e doenças específicas como a leucemia, envenenamento, inflamações, imunodepressão, mutações genéticas hereditárias, cancro, autismo e alergias". No mesmo ano, Grillo, fundador e secretário-geral do partido populista, escreveu no seu blogue que "as vacinas têm desempenhado um papel fundamental na erradicação de doenças terríveis como a poliomielite, a difteria e a hepatite; contudo, trazem com elas o risco de efeitos secundários que normalmente são temporários e superáveis mas que, nalguns casos raros, podem ser graves ao ponto de se apanhar a mesma doença contra a qual se está a tentar ficar imune."

O surto de sarampo em Itália segue-se a uma queda na proporção de crianças de dois anos que os pais levam ao médico para serem vacinadas: de 88% em 2013 para 86% em 2014 e para 85,3% em 2015 — números que estão abaixo do mínimo de 95% recomendado pela Organização Mundial de Saúde a cada país. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, a maior parte dos casos de sarampo registados este ano estão concentrados nas regiões mais ricas de Itália, como Piemonte, Lazio, Toscana e Lombardia – isto depois de o MoVimento 5 Estrelas ter saído vitorioso nas eleições autárquicas de 2016 em Turim, na região de Piemonte, e na capital Roma, que pertence à região de Lazio.

Ao "The Guardian", Raniero Guerra, diretor-geral da unidade de medicina preventiva do Ministério da Saúde, diz que alguns médicos daquelas regiões têm estado a encorajar ativamente os pais a não vacinarem os filhos contra o sarampo. "As pessoas do M5S dizem que o sarampo é normal e que a cada três anos há um pico [da doença], portanto porque é que é perigosa? Bom, eu digo que não é normal haver picos ou surtos – é suposto sermos um país sem sarampo."

Na semana passada, a ministra Beatrice Lorenzin já tinha reagido ao elevado número de casos de sarampo registados este ano, pedindo a todos os encarregados de educação que vacinem as crianças. "A única arma que temos para combater doenças tão sérias como o sarampo é a vacinação. Já chega de informação falsa. Não existe correlação entre as vacinas e o autismo. A ciência não é democrática", declarou em conferência de imprensa.

A ministra da Saúde já pediu aos italianos que vacinem os filhos. "Chega de informação falsa. Não existe correlação entre as vacinas e o autismo"

A ministra da Saúde já pediu aos italianos que vacinem os filhos. "Chega de informação falsa. Não existe correlação entre as vacinas e o autismo"

EMMANUEL DUNAND

Contactado pelo jornal britânico, Andrea Liberati, funcionário do M5S na região de Umbria, defende que o surto de sarampo a nível nacional resulta de informações confusas. "Não é que sejamos completamente contra as vacinas, mas o governo tem de enviar uma mensagem clara; os pais estão confusos com as informações contraditórias. Existe obviamente um elemento comercial nisto, as grandes farmacêuticas precisam de fazer dinheiro." Em novembro, a deputada do M5S Laura Ferrara já tinha contribuído para a confusão, dizendo que, embora não se oponha à vacinação de crianças, os pais têm de estar mais vigilantes sobre que vacinas dão aos seus filhos.

A perceção dos italianos sobre a segurança do método de medicação preventiva, ou falta dela, foi altamente influenciada por alegações já desacreditadas de que existe uma relação entre a vacina tríplice contra o sarampo, a papeira e a rubéola (MMR) e o autismo. Num caso que ganhou grande atenção mediática em Itália em 2012, um tribunal da cidade de Rimini ditou que a família de uma criança autista devia receber uma indemnização porque a doença do menor estava relacionada com a MMR – três anos depois, um tribunal de recursos reverteu essa sentença.

Estes medos infundados, aliados à falta de confiança generalizada nos políticos que também contribuiu para a eleição de autarcas do M5S em Roma e Turim, tem levado muitos pais a decidirem não vacinar os seus filhos, algo que, em número suficiente, pode conduzir a uma crise de saúde pública com efeitos nefastos. O "The Guardian" relata o caso de Michele Marchesani e da sua mulher, que decidiram não vacinar a filha contra o sarampo depois de Marchesani, psicoterapeuta de profissão, ter passado sete anos a trabalhar com uma criança autista; temiam que a filha, agora com 15 anos, viesse a sofrer da mesma doença.

"Os pais dele achavam que o autismo tinha sido causado pela vacinação contra o sarampo", conta o italiano. "Eles fizeram campanha [contra a vacinação] e tentaram levar o caso a tribunal, mas não chegaram a lado nenhum. Confiaria mais na injeção se, por exemplo, um amigo me convencesse que é a coisa certa a fazer, mas não quando o conselho vem de um político." Elettra De Marches, mãe de gémeos agora com 16 anos, decidiu não vacinar os filhos pela mesma razão. "Ambos tiveram sarampo, é uma doença tratável, não há necessidade de vacinação", diz ao mesmo jornal. "A injeção só existe por causa de interesses comerciais."

O governo italiano já está a tentar dar resposta a estes medos através de uma estratégia de prevenção concentrada nas redes sociais. "As linhas institucionais de comunicação [com os cidadãos] não funcionam", explica Guerra. "O valor da imunização tem de ser comunicado numa linguagem que os pais jovens não tenham dificuldades em entender, já que é entre eles que existe maior hesitação neste momento. Estamos a tentar mostrar-lhes a que informação apropriada podem aceder, em vez de recorrerem aos disparates publicados na internet."

O Ministério da Saúde italiano também está a estudar a possibilidade de acusar e julgar médicos que estejam a tentar persuadir pais a não vacinarem as crianças. "É inaceitável", diz o diretor do instituto público de medicina preventiva. "É quase um crime."