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Londres é Londres, mesmo depois de um atentado

DANIEL LEAL-OLIVAS/GETTY

É uma cidade preparada para o pior, onde os procedimentos de segurança foram rapidamente postos em marcha e foi possível manter a calma, mesmo perante a óbvia gravidade do ataque e a consternação – contida – pelas suas consequências

O revisor faz sempre o mesmo aviso, nos altifalantes. “Não deixem os vossos pertences sozinhos. Se virem qualquer coisa suspeita, por favor avisem-me”. É um procedimento standard nos comboios. Mas naquele momento, cerca de uma hora após um homem ter atropelado dezenas de pessoas e esfaqueado um polícia no coração de Londres, parecia que estava a falar mais devagar, enfatizando as palavras.

Depois de um atentado terrorista como o desta quarta-feira, a primeira ideia que vem à cabeça é que a estação de comboios de Waterloo, praticamente colada ao epicentro dos acontecimentos, estaria num caos, com polícias por todo o lado armados até aos dentes. Mas não. A composição chegou praticamente à hora, não havia comboios cancelados, a presença policial estava reforçada mas não se via uma arma. Um músico de rua cantava e tocava trompete. “Está tudo normal”, disse uma funcionária dos caminhos de ferro britânicos.

A normalidade da estação de comboios mais movimentada do Reino Unido, com quase 100 milhões de passageiros por ano, era o primeiro sinal do quanto o país e a cidade estão preparados para um ataque terrorista.

Ali ao lado, no London Eye – a enorme roda gigante que é uma das principais atrações turísticas da cidade – o procedimento de segurança foi seguido à risca. A roda parou logo que se percebeu o que se passava. A zona foi cercada e encheu-se de polícias.

Na bilheteira, que fica num edifício anexo, quem estava lá dentro lá ficou. Martins Andrade, um turista brasileiro de Aracajú, já se encontrava na porta, com os bilhetes na mão, quando viu a movimentação policial. Recuou dois passos e a porta fechou-se à sua frente. Foi imediatamente trancada.

“A primeira informação que chegou é que tinha havido duas pessoas baleadas. As pessoas começaram a chorar”, contou o turista. Foram todos levados para um subsolo, deram-lhes água, comida, mantiveram-nos calmos.

NIKLAS HALLE'N/GETTY

Duas horas depois, quando finalmente puderam sair da bilheteira, a roda ainda estava parada. Centenas de pessoas estavam retidas nas cabinas do London Eye, que tem uma vista privilegiada sobre a ponte de Westminster, o Parlamento e o Big Ben. “Os nossos amigos estão lá”, disse Martins Andrade ao Expresso, apontando para a roda. Eram três e tinham-se antecipado, embarcado antes. O grupo todo tinha acabado de passar pela ponte de Westminster, onde os turistas param para tirar fotos com o Big Ben ao fundo.

A evacuação do London Eye parecia seguir um procedimento previamente estabelecido e treinado. Lentamente, os turistas foram sendo retirados das cabinas. Eram encaminhados para um edifício ao lado, cada um escoltado por um polícia. Os que não tinham visto nada de especial saíam logo. Os que tinham testemunhado o atentado,eram levados para outro local, para um depoimento mais completo.

Muitos estiveram retidos na própria roda durante quase três horas. “Fiquei a imaginar que pelo menos estava mais seguro lá em cima do que cá em baixo”, disse André Garcia, outro turista brasileiro. Lá de cima, André viu que tinha acontecido alguma coisa de errado na ponte. Pensou que era um acidente. E quando veio a informação através dos altifalantes internos da cabina, só indiretamente é que percebeu que se tratava de algo ainda mais grave: “Não falo inglês, mas dava para ver pela fisionomia das pessoas”.

A norueguesa Esmé Knagenhjelm contou que estava no topo da roda quando tudo aconteceu: “Vi muitas ambulâncias e carros de polícia, alguns corpos no chão. Foi horrível. Mas este é o mundo em que vivemos agora”. Tirou fotos, postou-as no Facebook. O seu telefone começou a tocar. Eram parentes e amigos. Embora estivesse ali, a olhar para a cena do atentado, foi o seu namorado, a partir da Noruega, que a manteve a par dos detalhes do que se passava. “Ele estava a ver tudo na televisão”, afirmou.

DANIEL LEAL-OLIVAS/GETTY

Com a noite a cair sobre Londres, todos os acessos à ponte de Westminster mantinham-se fechados. Não se conseguia chegar ao hospital de St. Thomas, ali ao lado, o primeiro a receber os feridos. Os mais graves depois foram reencaminhados para outros hospitais da cidade.

Noutros países, um atentado como este colocaria nas ruas um contingente policial ostensivo. Depois dos ataques de novembro de 2015 em Paris, havia patrulhas de militares com metralhadoras em todo o lado. Mas em qualquer barreira que se encontrava esta quarta-feira em Londres estavam sempre polícias aparentemente desarmados – como é costume no Reino Unido. Prestativos, indicavam o caminho a seguir aos transeuntes, apontavam-nos nos mapas dos turistas. Apesar de ter havido um atentado, havia uma certa fleuma na forma de lidar com aquela situação de emergência.

A pé, conseguia-se chegar até mesmo à entrada da ponte de Westminster, do lado sul do Tamisa. Ali há um enorme hotel, o Park Plaza Westminister, inaugurado em 2010. Muitos dos seus cerca de 1000 quartos têm vista para a ponte e para o Big Ben. Ou seja, para onde tudo aconteceu.

Quando os sinos bateram às 19h, um aglomerado de jornalistas ali instalados entrou em direto, em diversas línguas, com a imagem da ponte ao fundo. Normalmente, aquela é uma esquina muito movimentada. Várias carreiras de autocarros passam pela ponte. Horas depois do atentado, vários deles permaneciam imobilizados onde estavam no momento em que o carro conduzido pelo atacante subiu o passeio e avançou tragicamente sobre quem estivesse à sua frente. Um desses autocarros, um turístico de dois andares, encontrava-se quase a sair da ponte, já a fazer a curva. Ficou onde estava.

Muitos curiosos vinham até esse ponto, olhavam para a ponte, tiravam fotos. “Estou aqui para mostrar aos meus amigos o que aconteceu”, disse Stefano Marazzu, um italiano de 25 anos, enquanto transmitia um vídeo em direto pelo Facebook. O seu amigo, Francisco Pisano, 23 anos, parecia mais abalado. “Sinto-me confuso com isto”, afirmou. Está há apenas cinco anos em Londres, trabalhando como empregado de mesa num restaurante. O atentado, no entanto, não o desmotiva a ponto de cogitar deixar a cidade: “Se voltasse para Itália, seria a vitória dos terroristas”.

Carl Court/Getty

No hotel, àquela hora, os seguranças só deixavam entrar quem lá estava hospedado. Os táxis não podiam parar à porta, por isso os clientes iam chegando a pé, com as suas malas. Quase todos paravam para olhar para a ponte, alguns tiravam fotos. Acabado de chegar do trabalho, o consultor Edward Bits, hóspede do hotel desde segunda-feira, reagiu com ironia quando o Expresso lhe perguntou de que maneira o atentado o afetava. “Bem, eu sou de Belfast...”, respondeu. “Mas qualquer um fica sempre chocado”.

Sobre a ponte, parecia que o tempo tinha parado. Só o relógio do Big Ben é que girava. Nada mais acontecia.

Com a ponte e muitas ruas encerradas, para se chegar ao outro lado do rio era preciso dar uma grande volta. Mas fora do círculo de acesso ao redor do Parlamento e da ponte, a cidade parecia viver normalmente. À saída da estação do metro de Embankement, um violonista tocava músicas espanholas, os bares estavam cheios. Mais à frente, um grupo de turistas espanhóis fazia um tour noturno pela cidade. Havia londrinos a correr, outros a andar de bicicleta.

Apenas na zona mais próxima do Parlamento, em ruas normalmente ruidosas e repletas de automóveis, vigorava um estranho silêncio, apenas quebrado pelo barulho de um ou outro helicóptero.