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Internacional

Interferência de legislador lusodescendente põe “em risco” investigação Trump-Rússia

Win McNamee

Devin Nunes, atual chefe da Comissão de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, que integrou a equipa de transição de Donald Trump, está a ser acusado de obstrução à Justiça por revelar pormenores de um inquérito em curso à Casa Branca e aos media. Adam Schiff, democrata de topo daquela comissão, não exclui a possibilidade de abandonar a investigação por causa do comportamento do colega republicano, que “levanta enormes dúvidas sobre se o inquérito pode ser conduzido de forma credível”

O republicano Devin Nunes, lusodescendente que atualmente encabeça a comissão permanente de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, está a ser acusado de tentar obstruir uma investigação do FBI após ter revelado em conferência de imprensa que forneceu ao governo de Donald Trump alegados pormenores sobre um inquérito das secretas paralelo à investigação em curso sobre potenciais ligações de elementos da equipa do Presidente ao governo de Vladimir Putin.

Esta quarta-feira, depois de se ter encontrado com o Presidente e a sua equipa na Casa Branca, Nunes, que integrou a equipa de transição de Trump e que mantém contactos recorrentes com a administração, disse aos jornalistas que as agências federais estiveram a monitorizar membros da equipa republicana, reavivando as alegações do próprio Presidente de que Barack Obama ordenou escutas à sua sede de campanha antes das eleições – algo que já foi desmentido por todas as autoridades federais.

"Membros da equipa de transição de Donald Trump, possivelmente até o próprio Trump, estiveram sob vigilância do governo depois das eleições presidenciais de novembro", disse Nunes citado pelo "Politico". "Recentemente, confirmei em vários encontros que a comunidade de espionagem recolheu informação sobre indivíduos dos EUA envolvidos na transição de Trump" para a Casa Branca, disse em frente às câmaras. "Detalhes sobre pessoas dos EUA associadas à administração em transição com pouco ou nenhum valor para as secretas foram disseminados de forma abrangente entre a comunidade de serviços secretos."

Na conferência de imprensa, o republicano também afirmou que "nomes de outros membros da equipa de transição de Trump foram desmascarados", referindo-se a uma potencial violação da prática de manter os nomes de cidadãos norte-americanos protegidos ou "mascarados" quando estes surgem citados em investigações a estrangeiros sem qualquer relação com os crimes investigados. "Nenhuma desta monitorização está relacionada com a Rússia", garantiu Nunes.

De imediato, membros do Partido Democrata e das próprias agências de espionagem acusaram o legislador de "obstrução à Justiça" e de "tentativa de interferência" numa investigação em curso, com o aparente intuito de ajudar o Presidente a proteger-se do inquérito ao escândalo com a Rússia. "Estas ações levantam enormes dúvidas sobre se a comissão [de serviços de informação] pode fazer o seu trabalho", declarou Adam Schiff, o democrata que, com Nunes, codirige aquela comissão permanente da Câmara dos Representantes.

Numa linguagem desprendida de qualquer pretensa cordialidade entre colegas de comissão, Schiff sublinhou que Nunes tem de decidir se quer estar ao leme de um inquérito credível ou se prefere atuar como agente da administração Trump e ser cúmplice de uma "campanha da Casa Branca para contornar o depoimento do diretor [do FBI]" James Comey – que na segunda-feira confirmou, pela primeira vez, que a agência tem em curso uma investigação ao alegado conluio entre elementos da equipa de Trump e operativos russos.

Adam Schiff (esq) é o democrata de topo da comissão atualmente chefiada por Devin Nunes (dta)

Adam Schiff (esq) é o democrata de topo da comissão atualmente chefiada por Devin Nunes (dta)

Mark Wilson

"Expressei as minhas profundas preocupações ao diretor [da comissão] sobre uma investigação credível não poder ser conduzida desta forma", acrescentaria o democrata da Califórnia em comunicado. Nesse documento, Schiff também sublinhou que Nunes devia ter contactado os membros da comissão antes de ir falar com Trump e deixou claro que os comentários do republicano "certamente não sugerem, de forma alguma, que o Presidente tenha sido alvo de escutas ordenadas pelo seu antecessor".

Questionado sobre se considera abandonar a comissão por causa do comportamento do colega e rival, Schiff disse aos jornalistas que tem de "analisar o que tudo isto quer dizer", deixando nas entrelinhas a sua eventual saída de uma das mais importantes investigações federais da História moderna dos Estados Unidos. "Ter um diretor [Nunes] a interagir com a Casa Branca e a partilhar informações com a Casa Branca, numa altura em que pessoas da Casa Branca estão a ser alvo de uma investigação, e a fazê-lo antes de partilhar essas informações com a comissão, levanta enormes dúvidas sobre se [esse inquérito] pode ser conduzido de forma credível."

Na segunda-feira, na audiência de Comey e do diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), Mike Rogers, os dois chefes das secretas garantiram que não existem quaisquer indícios que sustentem as alegações de Trump sobre escustas instaladas na Torre Trump sob ordens de Obama durante a corrida à Casa Branca. As declarações de Nunes aos jornalistas, na terde desta quarta-feira, referem-se exclusivamente à alegada monitorização que teria ocorrido entre o dia 8 de novembro, quando Trump ganhou as eleições, e 20 de janeiro, o dia em que o novo Presidente tomou posse, no âmbito de uma investigação a cidadãos estrangeiros que ficaram instalados no arranha-céus da Organização Trump em Manhattan.

Comey e Rogers desmentiram que Obama tenha ordenado escutas à campanha de Donald Trump

Comey e Rogers desmentiram que Obama tenha ordenado escutas à campanha de Donald Trump

MANDEL NGAN

Aproveitando-se das informações que lhe foram passadas por Nunes, o Presidente disse sentir-se vingado no que toca à sua certeza de que Obama o colocou sob escuta. "De certa forma sinto, devo dizer-vos. Aprecio muito o facto de terem encontrado o que encontraram", disse Trump aos jornalistas. Para já, nada indica que as informações de Nunes sejam factuais e o próprio legislador já garantiu que não estão relacionadas com as pretensas escutas de Obama.

Também esta quarta-feira, e depois de ter tecido duras críticas ao parceiro da comissão, Schiff garantiu que, neste momento, o FBI já tem "mais do que provas circunstanciais" de que membros da equipa de Trump orquestraram uma campanha com Moscovo para prejudicar a candidatura de Hillary Clinton. Fontes oficiais disseram à CNN, sob anonimato, que a agência recolheu fortes indícios de que houve conluio entre a campanha republicana e elementos próximos do governo de Putin para alterar os resultados das eleições norte-americanas. As fontes dizem que, para já, essas provas são circunstanciais e não conclusivas. Schiff, pelo contrário, garante que já há indícios fora do espectro circunstancial que podem marcar uma viragem importante e conduzir a "acusações formais históricas" contra algumas pessoas próximas do atual Presidente.