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Quem é Jeroen Dijsselbloem?

EMMANUEL DUNAND/GETTY

O ministro holandês cessante, que em 2015 foi reconduzido na liderança do Eurogrupo, entrou esta semana pelas casas dos europeus adentro com uma afirmação infeliz sobre os países do sul gastarem tudo “em copos e mulheres” e depois virem pedir empréstimos ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional

Por esta altura, já quase todos terão ouvido falar de Jeroen Dijsselbloem, o ministro das Finanças da Holanda que preside ao Eurogrupo desde 2013. No domingo, em entrevista ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine", o trabalhista cujo partido acabou de sofrer uma profunda derrota nas legislativas da semana passada proferiu uma declaração que está a alimentar a ira de muitos na Europa, incluindo quase todos os partidos políticos portugueses que, em uníssono, exigem o seu afastamento.

"Enquanto social-democrata, considero a solidariedade um valor extremamente importante", disse o ministro. "Mas também temos obrigações. Não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda."

Dijsselbloem e o seu porta-voz garantem que ele estava a fazer referência a todos os Estados-membros da União Europeia sem exceção quando teceu a crítica, mas o facto de aliar a ideia de "solidariedade" à de "obrigações" descortina que os alvos eram, acima de tudo, os países do sul da Europa, como a Grécia ou Portugal, aqueles que se viram forçados a contrair empréstimos junto do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) no rescaldo da crise financeira que estalou em 2008 e que continua a assombrar o bloco.

O holandês é ministro das Finanças mas está prestes a perder esse cargo, depois de o seu partido socialista do trabalho, o PvdA, ter caído de 38 para nove assentos parlamentares nas legislativas de 15 de março. Só esse facto, que deverá afastar o PvdA de uma futura coligação de governo na Holanda, já era suficiente para pôr em risco o seu papel à frente do Eurogrupo, a reunião mensal e informal dos ministros das Finanças dos 19 Estados-membros que usam a moeda única. Mas parece que o fim da sua carreira ao leme do organismo pode acabar abruptamente mais por causa do fogo ateado entre alguns parceiros europeus, encurtando o seu segundo mandato de dois anos e meio que só acabaria em janeiro de 2018.

A declaração de que os países do sul gastam tudo em "copos e mulheres" – para além de denunciar um profundo preconceito sexista e xenófobo, como referiu António Costa, entre outros – não parece estar de acordo com a personalidade de Dijsselbloem. Pelo menos a julgar pelo que disseram dele quando, em julho de 2015, foi reconduzido na presidência do Eurogrupo com unanimidade. "Gosto do estilo dele, é um tipo porreiro, ajudou [os ministros das Finanças] a navegar a crise [grega] e fez um trabalho excelente", disse na altura Peter Kazimir, primeiro-ministro da Eslováquia.

Segundo o "EU Observer" num artigo publicado naquele mês, Dijsselbloem é tido como um homem amigável que angariou mais elogios do que críticas perante a sua estratégia de gestão factual e não-emocional da crise da dívida grega. Nascido em 1966, "é muitas vezes descrito como um membro de uma geração de políticos holandeses pragmáticos e não tanto ideológicos" que nasceu na década de 1960 e da qual Mark Rutte, o primeiro-ministro da Holanda, também faz parte. Quase todos os que já lidaram com ele citam como traço vincado da sua personalidade a franqueza e a forma direta como fala das coisas — mais feitio do que defeito ou qualidade e um traço que ajuda mais a explicar a frase que tanta gente enfureceu.

Foi escolhido para presidir ao Eurogrupo em 2013, apenas dois meses depois de ter sido nomeado ministro das Finanças da Holanda na coligação liderada por Rutte. Antes dele, apenas Jean-Claude Juncker, atual presidente da Comissão Europeia, tinha ocupado aquele cargo; até 2005, a reunião era supervisionada pelo ministro das Finanças do país que, à data, estivesse a ocupar a presidência rotativa do Conselho da União Europeia – ou então pelo ministro do Estado-membro que ia assumir a presidência seguinte no caso de o país então à frente do Conselho da UE não integrar a zona euro.

Quando assumiu a pasta em janeiro de 2013, o Eurogrupo integrava 17 membros; hoje são 19. Dijsselbloem sempre contou com o apoio de todos, o que prenunciava que ficaria à frente do organismo durante muito tempo, eventualmente tanto quanto os oito anos em que Juncker se manteve no cargo. Essa ambição pode morrer na praia, agora que vários dentro da UE, a começar pelo grupo dos socialistas europeus a que pertence no Parlamento Europeu, estão a exigir que faça um mea culpa e abandone o cargo sem demoras.