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“Eu amo Bruxelas, por isso fico”. Um ano depois dos atentados, a cidade vigiada

CHRISTIAN HARTMANN / Reuters

Foi há um ano que ocorreram os atentados em Bruxelas. A cidade adapta-se e segue em frente. A polícia diz-se vigilante. Quem viveu o drama de perto, não esquece

"Ao princípio eu pensava que podia esquecer, que um atentado faria parte da minha vida mas não iria mudá-la". Christelle Giovannetti, francesa, na casa dos trinta, é uma das vítimas do atentado no metro de Bruxelas. Ao longo do último ano deu-se conta que o que aconteceu na estação de Maelbeek é uma cicatriz permanente. "Estará sempre presente, mesmo que fique melhor, mesmo que durma melhor. Mesmo que tenha menos angústias", contou ao Expresso e à SIC.

Christelle ia a caminho de uma reunião de trabalho quando uma explosão sacudiu a composição de metro em que seguia. Khalid El Bakraoui, um dos irmãos suicidas, estava na carruagem seguinte. O impacto da bomba afetou-lhe a audição. No hospital disseram-lhe que iria recuperar mas há uma perda que é permanente. Um zumbido que não desaparece.

"Há muitas coisas que fazia antes que agora não posso fazer", conta, como estar exposta a muito barulho ou ir a lugares com muita gente. Tem pesadelos, por vezes ainda se sobressalta quando anda de metro, mas decidiu não deixar de andar de transportes públicos. "Tinha vontade de ultrapassar este trauma", diz.

Sem esquecer o que se passou, a capital belga também reagiu e fez um esforço para, a pouco e pouco, regressar à normalidade. "Não regressar a uma vida normal iria satisfazer os terroristas", diz Serge Stroobants, vice-presidente da Associação Life4Brussels, criada na sequência dos atentados de 22 de março, para apoiar as mais de trezentas vítimas.

Há um ano, em Bruxelas, depois dos ataques

Há um ano, em Bruxelas, depois dos ataques

Christopher Furlong

Também a porta-voz da Policia de Bruxelas diz ao Expresso que há uma vontade por parte das autoridades e também da população de recuperar a normalidade. "É por isso que nos eventos - e houve mais de 4 mil em 2016 - decidimos adaptar as medidas de segurança mas deixando que se desenrolem", adianta Ilse Van de Keere, sublinhando a importância de não impedir que espetáculos, celebrações, manifestações e outros acontecimentos públicos tenham lugar.

"Sentimos agora que as pessoas tomam um novo gosto, comparecem de novo até aos eventos previstos", acrescenta.

Em muitos bairros de Bruxelas, o movimento voltou a ser o quer era, ainda que adaptado a uma nova realidade.

A polícia e os militares continuam a ser uma forte presença nas ruas. Quem mora em Bruxelas já não repara, mas quem está de visita facilmente estranha as fardas e as armas que circulam em pontos específicos da cidade

"O trabalho aumentou e pede uma colaboração entre os serviços da polícia, ainda mais intensa do que antes", diz Van de Keere, respondendo também às críticas que, no último ano, foram feitas à falta de coordenação entre as várias autoridades belgas. "Temos muitos contactos com os serviços da polícia federal, com a polícia local de outras partes do país. Trabalhamos de mãos dadas. Há um fluxo de informação que tem de ser gerido, para o qual foi criado um procedimento e temos de concertar-nos".

A polícia adaptou-se e a população também. Quem vai a concertos e outros eventos públicos já se habituou a não levar mochilas e a estar preparado para ser revistado. Ao mesmo tempo, há um equilíbrio que é preciso manter, porque os controlos sistemáticos paralisam a cidade.

Centro de Bruxelas ainda não recuperou totalmente
Kara Pirolo é belga, vive no coração de Bruxelas e tem também um novo trabalho numa das chocolatarias do centro da cidade, junto à Grand Place. "Há menos pessoas nas ruas e nas lojas, e é um pouco duro para o comércio em Bruxelas", diz, e a opinião é partilhada por funcionários de outros estabelecimentos próximos. "Não sei se é por medo ou porque a seguir aos atentados as pessoas optaram por outros hábitos", interroga-se.

"Eu não mudei (de estilo de vida)", contrapõe Kara. Explica que continua a andar de transportes públicos e a viver a cidade. "Eu amo Bruxelas, por isso fico aqui".

Uma cidade 100% segura é impossível. É essa a convicção de Serge Stroobants, que é também especialista em questões de segurança no Institute for Economics and Peace, em Bruxelas. "Vivemos numa sociedade com muita segurança, creio que é de 99,9% e, por isso, quando somos atingidos na pequena percentagem que resta, o sentimento de vulnerabilidade é muito grande".

Para Stroobants, a polícia tem atuado e dado atenção ao combate ao terrorismo, mas há sempre uma percentagem de risco. "Parece-me que Bruxelas é tão segura como a 22 de março de 2016. Cada vez que algo é organizado, o nível de segurança é mais elevado e há mais precauções. Há medidas a tomar mas também não podemos esperar que haja segurança a 100%, mesmo um ano depois".

Para "evitar um novo 22 de março", diz, é preciso investir na luta contra o terrorismo, na procura e detenção de pessoas que possam cometer outros atentados e, sobretudo, combater a radicalização. Defende que é preciso olhar para as causas - como a alienação e a frustração - que levam jovens europeus a alinhar por causas terroristas.

Questionada sobre se Bruxelas é hoje uma cidade segura, a porta-voz da polícia de Bruxelas responde: "Digamos que estamos muito vigilantes. Levamos a sério as informações que nos chegam. Queremos sobretudo que a cidade possa mover-se, possa viver, e tomamos todas as medidas que são necessárias".

No último ano, foram muitas as operações policiais em toda a Bélgica. As notícias sobre o número de detenções - também muitas vezes seguidas pela informação que os detidos tinham sido libertados - também se multiplicaram. Muitas vezes, o que começa como uma ameaça de bomba, acaba como um falso alarme.

Ilse Van der Keere explica que não há excesso de zelo. "Não podemos arriscar e isso é evidente", diz. A cidade continua no nível três de alerta, o que significa que a ameaça continua a ser séria mas é considerada menos iminente. E enquanto esta avaliação se mantiver, a polícia e as restantes autoridade terão de agir de acordo.

Esta quarta-feira, o aeroporto de Zaventem fará um minuto de silêncio às 7h58 (6h58 em Lisboa), a hora a que ocorreu a primeira explosão no edifício das partidas. Às 9h15, um novo minuto de respeito e em memória das vítimas está previsto para a estação de Maelbeek. 32 pessoas perderam a vida. Mais de 300 ficaram feridas.

Um ano passou. A cidade não esquece mas permanece erguida.