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Internacional

Equipamentos maiores que telemóveis proibidos nas cabines de voo “por causa de ameaça do Daesh”

A Emirates é uma das nove companhias aéreas do Médio Oriente e Norte de África abrangidas pela nova medida dos EUA

KARIM SAHIB

Esta quarta-feira, o secretário de Estado norte-americano recebe em Washington ministros e representantes de 68 países para discutir a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico. É a primeira vez que todos os membros da coligação internacional liderada pelos EUA se encontram desde dezembro de 2014

A nova proibição de transporte de equipamentos eletrónicos maiores do que um telemóvel em determinados voos de nove companhias aéreas, confirmada esta quarta-feira pelas autoridades dos EUA e também pelo Reino Unido, foi motivada por pistas recolhidas no terreno sobre uma nova ameaça terrorista do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). De acordo com fontes citadas pela ABC, o grupo radical tem estado a estudar formas de traficar explosivos escondidos em aparelhos eletrónicos transportados em aviões que partem para aeroportos norte-americanos.

Frank Gardner, especialista em questões de segurança da BBC, diz que a nova restrição tem por base "informações das secretas avaliadas" pelas agências dos Estados Unidos, o que significa que ou a comunidade de serviços de informação intercetou discussões sobre um possível plano de ataque ou recebeu essa dica de um informador, explica Gardner.

As mesmas fontes citadas pela ABC dizem que as autoridades norte-americanas consideraram que as pistas são "credíveis" e "substanciadas", o que levou o Departamento de Segurança Nacional e a Autoridade de Segurança nos Transportes (TSA) a anunciar que qualquer passageiro que viaje em dez companhias aéreas de oito países que operam em dez aeroportos específicos vão deixar de poder transportar consigo computadores portáteis, tablets, leitores de DVD ou consolas de jogo nas cabines de voo quando estiverem em rota para os Estados Unidos ou do país para um dos dez aeroportos abrangidos pela medida – uma que não se aplica a telemóveis nem a aparelhos médicos.

Eric Swalwell, legislador democrata que integra a Comissão de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, fala numa "nova ameaça à aviação". "Sabemos que os nossos adversários, que grupos terroristas nos EUA e fora dos EUA, querem atacar um voo comercial em rota para os Estados Unidos, é uma das suas principais metas", explicou à ABC. "Estamos a fazer tudo o que podemos neste momento para impedir que isso aconteça."

Citado pelo "New York Times", outro membro da mesma comissão, o republicano Peter King, explicou que já tinha sido informado previamente da nova medida, que começou a circular nos media na segunda-feira à noite antes de ser confirmada pelas autoridades norte-americanas na terça-feira de manhã. "Tem por base relatórios dos serviços secretos que são relativamente recentes, informações sobre possíveis planos."

Esta terça-feira, o Departamento de Segurança Nacional informou que a proibição de transportar qualquer equipamento maior que um telemóvel nas cabines de voo se aplica a nove companhias aéreas, nomeadamente a Royal Jordanian, a EgyptAir, a Turkish Airlines, a Saudi Arabian Airlines, a Kuwait Airways, a Royal Air Maroc, a Qatar Airways, a Emirates e a Etihad. Horas depois, as autoridades britânicas anunciaram uma medida semelhante que se aplica a outras empresas de aviação comercial, incluindo a British Airways e a Easyet, que voem para o Reino Unido da Turquia, do Líbano, da Jordânia, do Egito, da Tunísia e da Arábia Saudita.

A medida norte-americana será aplicada nos voos de passageiros das empresas citadas que partam de dez aeroportos específicos com destino aos EUA ou dos Estados Unidos para um desses aeroportos internacionais: o aeroporto Mohammed V em Casablanca (Marrocos), o aeroporto Ataturk em Istambul (Turquia), o aeroporto internacional do Cairo (Egito), o aeroporto rainha Alia em Amã (Jordânia), o aeroporto internacional de Jeddah e o de Riade (Arábia Saudita), o aeroporto internacional do Kuwait, o aeroporto internacional Hama em Doha (Qatar) e os aeroportos de Abu Dhabi e do Dubai (Emirados Árabes Unidos).

Esta terça-feira, logo depois de o Departamento de Segurança Nacional confirmar a proibição, que não se aplica a equipamentos eletrónicos que sejam despachados na bagagem de porão, a revista "Slate" sugeriu que a administração Trump não só continua empenhada numa estratégia xenófoba anti-imigração (considerem-se os dois decretos antimuçulmanos que o governo americano já tentou aplicar, ambos suspensos por juízes federais) como acabou de comprar uma nova guerra com os funcionários de empresas que aproveitam estes e outros voos para trabalhar a bordo dos aviões.

"A justificação dada prende-se com questões de segurança, embora isso soe dúbio", escreveu o jornalista Daniel Gross, antes de as várias fontes citarem uma ameaça específica do Daesh. "Se os computadores são perigosos dentro da cabine de voo, porque é que não são perigosos no porão? Entretanto, a lista exclui aeroportos em sítios como a Venezuela, um país sobre o qual o governo dos EUA acabou de emitir novos avisos aos viajantes."

No 'Washington Post', Henry Farrell e Abraham Newman desempacotaram de forma inteligente algumas das políticas comerciais que podem estar por trás da proibição de portáteis. "Várias das companhias aéreas em questão ou são empresas estatais ou gozam de algum tipo de apoio dos seus governos que põem as companhias aéreas norte-americanas em desvantagem. Por outras palavras, este passo pode ser uma extensão do decreto anti-imigração de Trump, por duas vezes frustrado, mas também pode ser um avanço da sua política protecionista de trocas. Mas acima disso, a proibição é o último de uma série de esforços da administração Trump em avançar com um certo tipo de guerra de classes – a guerra contra a classe de empresários."

Gross argumenta que "para além de ser um golpe contra as empresas de aviação estrangeiras e outro ato político moldado por sentimentos xenófobos, o anúncio é um grande dedo do meio mostrado a um grupo de pessoas que, seria de supor, o nosso empresário-chefe [Donald Trump] quereria manter felizes: os empresários que viajam." A análise foi feita antes de as várias fontes citadas pelos media norte-americanos referirem a ameaça do Daesh como fundamento da nova medida; ainda nenhum representante dos departamentos envolvidos explicou a diferença entre transportar equipamentos eletrónicos potencialmente armadilhados dentro da cabine de voo por oposição ao porão.

Esta quarta-feira, Rex Tillerson, o secretário de Estado da administração Trump, vai dar início a um encontro de dois dias com ministros e representantes de 68 nações para debater as ameaças do grupo radical que, há três anos, se instalou no Iraque e na Síria. O encontro em Washington, sublinha a BBC, é o primeiro a integrar todos os membros da coligação internacional anti-Daesh liderada pelos Estados Unidos desde dezembro de 2014.